Natureza Morta (2019), de Clarissa Ramalho

Pele fina sobre a carne

Thomas Lopes Whyte

Ambientado no século XIX, o filme de Clarissa Ramalho (seu terceiro longa a competir em Tiradentes), baseia-se no livro “A Carne” (1988), de Júlio Ribeiro. Recebido sob forte censura à época, o romance escandalizou parte da sociedade por abordar, de forma até então inédita, a emancipação sexual de Lenita, uma jovem de origens aristocráticas.

Mesmo que tenha elementos de um cinema experimental, o longa talvez seja, entre todos os concorrentes da mostra Aurora, o que mais tenha se proposto a uma narrativa do controle. Tudo parece meticuloso demais, oficial demais. Das danças coreografadas pelo Grupo Corpo, ao tom trovadoresco de uma Helena Inez narradora, o filme parece obcecado pela forma-sentido de seu próprio universo simbólico.

É quase como se as escolhas adotadas fossem feitas para abordar o tema a contrapelo. O frêmito do orgasmo e o caos do sexo são tratados à distância, e precisam, na maior parte dos casos, do amparo oferecido pela redundância textual. Como se Clarissa, de certa forma, abrisse mão do próprio filme em benefício da obra literária do qual ele se origina.

Cada uma das cenas, pensadas a partir de seu efeito compositivo, evoca aspectos da psique da protagonista, que luta para se achar no mundo. A estrutura atomizada que surge daí, e que tem na beleza estática do quadro a sua força, possui lá seus bons momentos. Encravados no corpo narrativo, é possível encontrar partículas de bastante força e beleza.

Entretanto, ainda que um ou outro dispositivo cinematográfico vá em direções mais propositivas, o filme, no fim das contas, parece um decalque de sua obra mãe. O longa dá a impressão de ter medo de sair das sombras do próprio título. A natureza morta passa a não estar somente nos aspectos sociológicos do sufocante século XIX. Essa natureza passa a constituir também a matéria, ainda mais inerte, da própria obra.