Cabeça de Nêgo (2019), de Déo Cardoso

Das imagens de controle

Larissa Muniz

Cabeça de Nêgo (de Déo Cardoso, 2019) foi um filme atípico na Mostra Aurora, da 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, provocando discussões sobre forma e conteúdo, militância e cinema. No filme, esses dois pólos se misturam, se confundem e, talvez, se separam demais. Por mais que tenha momentos inventivos, experimentais e sutis, especialmente na relação entre a narrativa ficcional e o registro documental, o longa é majoritariamente focado em passar uma mensagem direta, por meio de uma linguagem fechada demais, da narrativa clássica – que deseja controlar a emoção em cada instante do filme. 

Inicialmente, a obra se constrói por meio de códigos tipificados dessa narrativa hegemônica, seguindo uma jornada do herói que se concretiza coletivamente. O herói, nesse caso, é o jovem Saulo, estudante negro que se posiciona a partir de um caso de racismo em sua escola, inspirado pela leitura dos Panteras Negras. O filme não é sutil em sua relação/comparação do jovem como uma espécie de Angela Davis, passando por sua jornada de conscientização, mobilização pública, greve e revolta e, por fim, aprisionamento. Portanto, mesmo se tratando de códigos que dialogam com o clássico, nos deparamos com sujeitos e histórias outras. Uma substituição que, eu diria, pode ser efetiva apenas num nível de formação, mas não num nível de ruptura completa com a herança de uma narrativa ocidental e branca. 

O maior problema disso, talvez, seja a pouca possibilidade de leituras e aberturas no filme. É tudo muito fechado, os signos muito dados, o fluxo tem apenas um caminho a seguir. Os vilões são os brancos, tipificados. A instituição é inteiramente má. O movimento estudantil é coeso demais, sem quase nenhuma contradição e conflito (exceto por um grupo de traficantes também estereotipado). O protagonista não tem qualquer defeito. 

O filme poderia, até, utilizar desses códigos tão conhecidos para subvertê-los, mas decide apostar em representações que não gerem dúvida acerca do lado “certo” da luta. Compreensível, mas não tão arriscado e propositivo, especialmente num regime que cerca pelo enquadramento, dando pouco espaço à invenção e subjetividade das personagens (e das espectatorialidades que as assistem). 

O menino Saulo é um tipo que procura representar muitos (ou todos) jovens negros. E aí jaz o perigo das imagens de controle subvertidas se transformarem em imagens de controle ilusórias, que apenas reproduzem códigos e estereótipos, em extrema dificuldade de dialogar para além dos limites do quadro. São imagens que funcionam, sim, dentro de um determinado espectro de discussão, mas que raramente se preocupam em estender o debate para chegar à raiz do problema – muito mais difusa e complexa que uma narrativa fechada demais poderia dar conta. 

O mais interessante do filme que, aí sim, mantém um diálogo mais flexível com o contemporâneo, é o modo como ele convoca as imagens de controle do sistema. A câmera que vigia os estudantes passa a ser a câmera que denuncia a precariedade da escola pública. Câmera essa tomada pelo jovem rebelde, filmada em vertical, num diálogo direto com as “lives” do YouTube e Instagram, que precisam comunicar o recado de forma rápida e direta.

Ao final, o filme assume isso de tal modo que acaba se desviando da narrativa linear e tão bem costurada que decide seguir: o ficcional é substituído pelos registros reais (esses, sim, ruidosos e falhos) de repressões policiais a manifestações estudantis. A rua ficcional é apenas material para chegar, enfim, à denúncia da violência. 

Cabeça de Nêgo é um filme que cumpre exatamente o que promete entregar. A narrativa, que começa mais juvenil, se torna cada vez mais intensa a partir da resistência desse jovem, até explodir numa cena excitante, que move qualquer espectatorialidade a torcer junto pelo movimento negro estudantil. Revolta, explosão, violência policial, injustiça, tudo se escancara no final, como já era de se esperar desde o início. Daí, me pergunto: depois dessas imagens de violência, que extravasam o medo e a vontade de revolta, o que permanece? 

Por essa incerteza acerca das decisões do filme, fico com vontade de vê-lo se aventurar mais por uma tela instável do celular, da câmera que filma para denunciar e rebelar. É seu caráter instantâneo e falho que garante sua força. Desse modo, quem sabe, a narrativa ficaria mais difusa e menos certeira, mais instável e menos calculada – daí, quem sabe, a jornada do herói se transformaria de tal modo que a experiência de um movimento estudantil negro extravasasse na tela, para além dos limites do quadro, e para além de noções pré-concebidas da violência e da própria narrativa.