Pão e Gente (2020), de Renan Rovida

Sobre o desgaste

Larissa Muniz

Até quando, ou até que ponto, o texto nos toca?

Quando Pão e Gente (Renan Rovida, 2020) se inicia dirigindo-se à plateia com “Vocês que acabaram de comer”, isso me faz crer que estou diante de um filme de atrito, que confronta diretamente a espectatorialidade e o fazer fílmico num determinado espaço social. Ao invés disso, me deparo com duros textos dramáticos misturados a performances desgastadas sobre a miséria no Brasil, sem qualquer vestígio de miséria na própria imagem. Pobreza, desemprego e desigualdade social são colocadas em tela com certa romantização ingênua e perigosa.

Entre paisagens e palavras bem pronunciadas demais, ouço discursos que já ouvi antes, de alguma forma, mesmo não conhecendo muito de Brecht. É bonito. É forte. Mas não me toca. Há um abismo gigante entre o que é dito e a forma como é interpretado, a força das palavras e a estrutura fílmica fechada demais. Num preto e branco chapado, nas atuações decoradas e na imobilidade da câmera, as palavras quase não têm nenhum impacto, ressoando mais como um desejo de encontrar um tipo profundo e essencialista do papel do ator e da atriz e menos como uma conexão com o texto que se lê (e não parece se atualizar). Principalmente, as imagens que se fazem com essas palavras são tão distantes quanto seus pronunciamentos, excessivamente limpas e estáveis.

Me soa como um fracasso já em sua proposta, adaptando uma obra europeia, porque ela caberia, sim, nos padrões brasileiros, mas de forma tão intrinsecamente estrangeira que não se reconhece ali qualquer coisa de nosso – seja lá o que isso significa.

As personagens são brancas demais para o contexto brasileiro, e se torna bem difícil se relacionar com as representações e o texto. O final, especialmente, parece fazer um movimento em direção à abertura da obra para além daquele universo hermético e saturado, que acaba tornando-se tímido demais. Quando, de repente, as imagens de atores e atrizes se transformam em imagens aparentemente documentais de “verdadeiros” trabalhadores, o filme tenta dar uma dobra sobre si mesmo. No entanto, o momento é tão breve e a relação construída é tão superficial que ressalta apenas uma tentativa de autocrítica sem um impulso substancial para mudança. É mais um arranhar para dizer que fez e menos uma fincada (que, a meu ver, seria necessária quando tratamos de tamanho abismo entre representação e representatividade).