Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu (2019), de Bruno Risas

De volta ao tédio

Larissa Muniz

Quando a câmera olha de volta, o filme muda. Uma jovem forasteira ocupa a imagem que, antes, se limitava aos membros da família do diretor. Descobrimos: é ela quem dá o rec, quem testa as posições das personagens reais, quem controla os limites do enquadramento. É ela quem dirige a cena, no momento de disrupção, quando a figura de Viviane sai de quadro e a câmera foca a mulher que filma o espelho. Ela vai mostrar para Bruno aprovar, ela diz. Ela, Flora, tem intimidade para propor, e pela mesma razão é difícil criticar. O discurso volta para ele, Bruno.

Numa brincadeira cautelosa entre ficção e documentário, relações familiares e relações de trabalho, Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu (Bruno Risas, 2019) se constrói por meio de uma intenção forte de pensar as pequenas belezas envolvidas no tédio cotidiano, com as contradições que existem num ambiente doméstico simples e tenebroso. As imagens, aqui são lentas e realistas, envolvendo as personagens filmadas quase sempre em contra-luz, contrastadas e solitárias numa casa confortável de classe média branca. A família do diretor não é particularmente interessante, e suas rotinas apenas espelham outras rotinas enfadonhas, de pessoas comuns que parecem se encontrar num estado de inércia, um estorpor estimulado pelo desemprego, pela situação do país e, talvez, pelas suas próprias mediocridades.

Salvo alguns momentos de pura ternura, especialmente entre mãe e filha – uma, a protagonista em constante construção, a outra, uma senhora de idade esquecida pelo mundo, não tenho muita vontade de entrar nessa casa escura. O confinamento excessivo da casa me basta para entender o tédio e observá-lo, de longe. Acompanho o filme como ele começa, por meio de fragmentos de uma vida contada em uma primeira/terceira pessoa (Bruno e as personagens da família), que narra os eventos do seu passado e presente como se lesse, de forma entediada, uma lista de supermercado.

Exceto pela mãe nos momentos mais explicitamente documentais, nos quais a personagem é colocada e se coloca numa posição de autoconstrução, crítica e revisionista, de sua própria vida, as pessoas rondam o filme como fantasmas confinados. Elas caminham pelos cômodos devagar, de maneira monótona, reclamando e brigando por questões mínimas que apenas a convivência cotidiana pode desencadear. Elas fazem nada, e nesse nada, o filme procura também refletir sobre as intercessões entre o âmbito profissional e pessoal, o trabalho criativo e o trabalho braçal (que aparece às margens das paisagens urbanas), o desemprego e o trabalho não-remunerado da mãe. Nisso, onde está o cinema?

Seguindo a tendência de um cinema contemporâneo brasileiro que deseja ficcionalizar o real e bagunçar as fronteiras da dramaturgia, o longa se propõe a complexificar a forma como pensamos o trabalho, colocando em questão a própria maneira como nos relacionamos num sistema que precisa construir classificações para manter suas engrenagens. O pessoal não pode virar trabalho, o profissional não pode ter relação com o íntimo, e nisso tudo o dinheiro precisa estar rodando.

Tudo isso é muito interessante, mas me incomoda que, nessa vontade de pensar junto maneiras de estremecer relações pré-estabelecidas, com o intuito de questioná-las (e, quem sabe, destruí-las), o filme permanece numa mesma linha estável e imutável. Nas figuras de Flora, a diretora de fotografia, e Viviane, a mãe, temos um vislumbre de possíveis mudanças, que decide abandonar para retornar à crônica pessoal niilista. Nesse movimento, se são as duas figuras femininas que transformam o filme, em pontos-chave de reviravoltas narrativas, são também elas as mais preteridas em favor da continuação de um status quo. Nada muda e tudo muda.

Principalmente na figura de Flora e da câmera fantasma que ela incorpora (numa sequência que Bruno poderia, inclusive, ter questionado sua própria autoria), a obra retorna ao estado de simplório estorpor. Ele faz da aparição potente da fotógrafa mais um momento bonito que nada transforma. É uma pena porque, na chance de diluir a ideia de uma criação singular e autoral, a ponto de colocar em questão a construção própria do filme, ele recupera seu controle. Ele, como a mãe que é abduzida apenas para voltar às suas obrigações cotidianas, sente a imagem divina, extra-terrestre, e percebe, ou quer crer, que nada muda. Essa saída é mais conveniente para sua crônica tediosa, contemplativa e sedenta por uma busca maior que, na verdade, se revela uma afirmação já pré-concebida de uma certa descrença por qualquer possibilidade de mudança.

Nesse filme controlado e descrente, despojado e irônico, parece haver uma espécie de borrão que expressa um desejo mesclado de se doar ao outro, ou à outra, sem no entanto estar preparado para abrir mão de sua autoria em prol de uma outra expressão, uma imagem outra, que vive às sombras, às margens. Aí, sim, veríamos nas imagens e personagens a projeção de um silencioso desaforo que, acima de tudo, sobrevive: ao trabalho, ao desemprego, ao esquecimento, à crise existencial, ao disco voador.