Sequizágua (2020), de Maurício Rezende

História e histórias do cerrado

Thomas Lopes Whyte

Sequizágua (Maurício Rezende, 2020) nos coloca em contato com uma comunidade do cerrado mineiro, perto da cidade de Grão Mogol. Particular em sua escolha, o filme revela também seu aspecto universal. Em uma terra demarcada pela escassez de recursos, o desenraizamento e a migração tornam-se consequências naturais de um mesmo processo econômico.

O prólogo, tão direto quanto explicativo, nos coloca a par do histórico de sobrevivência dos agricultores locais. Um dos moradores relata o prejuízo causado pela plantação de eucalipto chancelada pelo Estado a partir dos anos 1970, em parceria com a iniciativa privada. Entremeada à ausência de chuva, a mão da monocultura pulverizou a economia regional. A agroecologia e a agricultura familiar, que poderiam ser uma saída, foram relegadas à condição de descaso. Estabelece-se, então, o tema do filme: nem mesmo a fé devotada a São Judas é capaz de impedir a inexorável marcha do “progresso” e da “integração” nacional.

Nesse solo arrasado, morrem não só gente e bicho. Os gestos carregados de história, conhecimentos e culturas, cedem lugar a uma floresta interminável de monótonos eucaliptos.  A quem fica, resta o fardo da transmissão de saberes. Cansados e adoecidos pela falta de perspectivas, os habitantes de um assentamento rural seguem vagando sobre o solo rachado, à procura de qualquer pedaço de esperança.

Para contar a história dos que restam/resistem, o cineasta parte de uma estrutura semidocumental. As observações dos ritos e costumes, que ditam o ritmo do povoado, misturam-se a uma frouxa narrativa ficcional, na tentativa de estabelecer um processo de construção colaborativa. E se a urdidura é rica, a costura nem tanto. A relação entre essas duas partes é tão infrutífera quanto conflitante. A história paralela relacionada a Débora e seus filhos (Vitor e Guilherme) parece abandonar as questões que dão relevo à primeira parte do filme. É como se junto ao desejo de restituir agência aos povos do cerrado, houvesse uma voz clamando por liberdade autoral.

A pouca organicidade com que as partes se integram revelam o descompasso entre a bruteza de uma mise-en-scène documental econômica e a invenção de situações decupadas com bastante esmero. A encenação, pouco expressiva, e eclipsada pela força do “real”, parece muitas vezes impedir que o filme trilhe caminhos mais fecundos. O movimento de liberdade surge nas frestas, quando um aluno, mesmo à revelia do discurso que expõe as entranhas do “sistema”, insiste em não prestar atenção no professor.

Os múltiplos planos-detalhe de mãos e pés, que acentuam o papel do trabalho e das relações entre o homem e a terra, ecoam uma tradição longeva da arte brasileira e dão dimensão à riqueza material e temática sobre as quais o filme se lança. Em seus momentos de maior fôlego, a obra permite aos personagens a autonomia de reivindicarem seu próprio tempo e dinâmica.  Nesse caso, uma breve cena de mãos quebrando galhos ressecados tem muito mais a expressar que uma longuíssima jornada em busca das crianças que se perdem na mata. 

Os pequenos cômodos das casas de adobe e pau-a-pique, construídas sob a lógica da escassez de recursos, não permitem, sem prejuízo de mutilação do espaço/quadro, o recuo necessário para o uso das mesmas lentes utilizadas no exterior. Optar por uma objetiva mais aberta que distorceria as formas, neste caso específico, é justamente o que garantiria maior integralidade observacional a certos aspectos sociais dos homens e mulheres assentados. Na falta de um equilíbrio entre documentário e ficção, como em A vizinhança do Tigre (2014), ou de uma expressividade narrativa mais volumosa, como em Arábia (2017) – a menção a dois filmes de Affonso Uchôa não vem à toa, já que o mesmo assina o roteiro de Sequizágua -, o longa derrapa ao não criar artifícios capazes de sustentar as histórias de luta e resistência do local, com a dureza que os relatos suscitam.

Na tentativa final, e talvez atrasada, de buscar a amarração desses dois filmes estranhos que se colidem, o ancião João, detentor dos saberes, e o garoto Guilherme, imaginam juntos um futuro possível. Além disso, a música aparentemente entoada pela própria comunidade, que surge no apagar das luzes, parece indicar possibilidades estéticas de entrelaçamento, algo que talvez merecesse melhor aproveitamento no decorrer do filme. Mas a essa altura já não há mais espaço para que os recursos formais compensem a dualidade contrastante apresentada pela obra.