Primeiro Homem (2018), de Damien Chazelle

Espelhamentos subjetivos

Daniel Rodriguez 

Neil Armstrong tornou-se imortal no momento em que seu pé tocou a superfície lunar, em 20 de junho de 1969. Na ocasião, proferiu o famoso dito “um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”. Salto este que, naquela ocasião, finalmente dava a dianteira aos Estados Unidos na corrida espacial contra a URSS, que até então havia desbancado os americanos em todas as empreitadas extraplanetárias dignas de nota.

A cinebiografia de Armstrong, dirigida por Damien Chazelle e escrita por Josh Singer, traz para o cinema a história de vida do astronauta segundo recorte feito por James R. Hansen, acadêmico e escritor americano, em seu livro “O Primeiro Homem: A Vida de Neil Armstrong”. A adaptação é composta por duas ramificações que correm em paralelo, sendo uma delas as missões junto à NASA e seus bastidores, e a outra, sua dinâmica familiar. O modo com que Chazelle guia essa história se assemelha aos seus trabalhos anteriores, ao mesmo tempo que se mostra bastante diferente.

É interessante ressaltar que Chazelle ascendeu enquanto cineasta graças ao sucesso de público e crítica de Whiplash – Em Busca da Perfeição (2014) e La La Land – Cantando Estações (2016), ambos agraciados com diversas premiações. Em comum, os dois filmes trazem uma concatenação absoluta entre imagem e som, cinema e música.

Em Whiplash, isso é especialmente observável na sequência de encerramento, em que o personagem vivido por Miles Teller atinge uma epifania performática enquanto executa o jazz de Duke Ellington em um ritmo apenas comparável ao da própria montagem do filme, que doma a explosão dos personagens em cena. La La Land impressiona ao concluir a trama por meio de uma condensação das diversas possibilidades estéticas do filme, ao mesmo tempo que dá vida e movimento ao estado emocional de seus personagens principais, expostos às contingências de um futuro que nunca será.

Os minutos iniciais de O Primeiro Homem (2018), assim como todas as cenas subsequentes retratando as missões espaciais, também se fazem valer de uma poderosa e impactante associação entre imagem e som, que busca expor as vivências de Armstrong em primeira mão, em toda sua tensão e estresse. Se, anteriormente, Chazelle optou por recorrer à montagem e à mise-èn-scene em harmonia com as opções musicais, aqui se cola ao ponto de vista de Armstrong, utilizando-se de planos escuros e fechados, presos no interior da cabine de uma aeronave rumo ao espaço. É nesses instantes, bem kubrickianos, com suas peças de metal, borrões de luz e barulhos sempre crescentes e ensurdecedores, devidamente potencializados pela tecnologia IMAX, que a pressão sobre o astronauta ultrapassa os limites da tela e recai sobre a audiência. Ao mesmo tempo que intenso e comovente, esse é a representação mais profunda possível do personagem, no geral tratado como um figurão calado e distante.

Fora do ambiente profissional próspero, Armstrong lida com a trágica perda da filha pequena, enquanto tenta ainda ser um pai para os outros dois filhos e um marido para sua esposa. Se as cenas no espaço lembram 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), a representação do cotidiano do astronauta segue um rumo bem distinto, remetendo a Terrence Mallick, mais especificamente a A Árvore da Vida (2011). Ambos tratam do mesmo tema, uma família suburbana sessentista que oscila entre momentos de perfeição idílica e pequenas disfuncionalidades. Assim como fez Mallick, Chazelle frequentemente escolhe uma filmagem de câmera na mão, com bastante movimento e liberdade, buscando uma conexão intimista, com luzes  que remetem a um sonho e uma montagem no estilo colagem, que salta entre diferentes situações e momentos, almejando não contar o que aconteceu nessas ocasiões, mas expor como essas pessoas se sentiram ali.

Os diálogos e silêncios entre Neil e a esposa Janet, por sua vez, são enquadrados de modo parecido com as cenas entre Sebastian e Mia, em La La Land. Observamos os dois casais no ambiente doméstico, sentados à mesa, em meio a discussões e pequenas demonstrações de afeto. Porém, se lá o casal vive uma relação permeada por canções que exaltam seus sentimentos e sonhos, aqui há uma apatia profunda, denunciada pelas reações contidas, olhos que não se encontram e escassez de toques.

O texto de Josh Singer, que tem em seu currículo filmes como The Post – A Guerra Secreta (2017) e Spotlight – Segredos Revelados (2015), notadamente burocráticos, frios e com uma distância que beira o documental, se aproxima bem dessa personalidade do astronauta, historicamente descrito como simples e humilde, apesar de seu feito. A escolha de Ryan Gosling para o papel sacramenta a representação de Armstrong como um homem contido e sereno. Talvez o momento em que isso se torna mais claro seja a cena em que ele chora pela morte da filha, às escondidas, lutando contra as lágrimas.

Estranhamente, essa postura do protagonista parece tornar-se um espelho diante do qual todos os outros personagens se tornam tão distantes quanto o próprio Armstrong. Se, durante as missões espaciais, as sequências são vibrantes, representando feitos homéricos, as relações humanas são majoritariamente ditadas por uma melancolia contínua, como se nada realmente importasse no fim das contas. Se a alunissagem parecia impossível, voltar para a terra – ou colocar os pés no chão – parece, no mínimo, tão difícil quanto.

Esse ar de dúvidas é um pouco acentuado em uma ou outra cena relacionada a manifestações políticas que questionam as operações da NASA e do governo Americano. Mais especificamente,  em dado ponto do filme, um negro do movimento hippie interpela seu público sobre o porquê de estarem sofrendo diariamente nas ruas da América, enquanto o homem branco passeia pela lua. Essa inserção parece existir mais como opção de montagem para representar uma passagem de tempo ou outro artifício plástico, quiçá para oferecer alguma contextualização do período de guerra fria e guerra do Vietnã, já que, num grande esquema, tem pouco ou nenhum valor dentro da narrativa e da estética do filme.

Quando finalmente chega à lua, talvez o maior feito realizado pelo homem, Armstrong parece ter alcançado uma realização pessoal. Ele se isola do companheiro de missão, Buzz Aldrin, ficando o mais distante possível de tudo e todos – o mais distante e só que qualquer outro ser humano jamais esteve.  Ali, ele finalmente consegue processar a perda da filha, sentimento transformado em ato quando ele solta a pulseira da menina em uma cratera. Um adeus como nenhum outro.

A frieza totalmente banal com que Neil e Janet se reencontram ao final da missão Apollo não condiz em nada com a grandiosidade do ato realizado por ele, pouco antes, reduzindo-os à mesma melancolia de outrora, regida por um amor que aparenta ser pura fragilidade e incerteza.

Em retrospecto, percebo ideias conflitantes, que funcionam bem, no geral, mas não dispõem de tanta harmonia quanto os outros filmes de Chazelle com roteiro dele próprio, assim como os filmes escritos por Singer, com direções mais coerentes com sua própria proposta de cinema.