Luna (2018), de Cris Azzi

Nem tudo que brilha deixa de ser fosco

Thomas Lopes Whyte

O despertar da adolescência é um tema relativamente comum. Não sem motivo, os impulsos de liberdade da juventude misturam-se aos movimentos de renovação do próprio cinema. We Are the Lambeth Boys (1959), Paixão Juvenil (1956), Os Incompreendidos (1959), cada qual a seu modo, foram determinantes para o surgimento de novos padrões culturais. E ainda que nesses casos o foco se desloque para questões menos palpáveis, Kids (1995) e Elefante (2003) também conseguem expandir os limites de representação da confusa experiência que é a adolescência. O contato direto com manifestações culturais do prazer, irrealizáveis na condição estafante de trabalho, colocam a juventude como centro irradiador de novas mediações com o mundo. Luna (2018) tenta capturar nosso zeitgeist e esboça algumas aproximações originais, mas ainda está muito longe de uma interpretação poderosa da contemporaneidade. Ainda está para ser feito um filme que trabalhe em profundidade e de forma original, por exemplo, as novas relações sociais desenvolvidas em rede. As imagens de celular, por exemplo, que descrevem o ambiente escolar no início do filme, estão muito mais próximas ao modo tomada única do VHS do que dos vídeos curtos e selfies que inundam as contas de Instagram e Facebook.

Como o canto da sereia, a adolescência também esconde suas armadilhas. O problema está quando a aproximação com um dado universo é mais mediada por um olhar exógeno, apegado à exuberância da forma e menos interessado em compreender as relações entre ser e mundo. A escopofilia, comum entre espectador e filme, é precedida por uma escopofilia também no ato da tomada. O deslumbramento do autor com seu próprio objeto, causado pelo distanciamento geracional, favorece uma representação objetificada que, quando não explorada de forma consciente, serve apenas para escamotear o que há de autêntico no mundo sensível. Desse conflito entre o que há e o que se pensa haver, surgem com frequência caricaturas – bem-intencionadas, mas, muitas vezes, esboçadas a partir de um olhar condescendente e fetichizante. Talvez esse seja o maior problema do filme de Cris Azzi, que parece não conseguir se decidir entre representar seus próprios impulsos ou o mundo.

O Clímax (?) e a problemática central da obra são apresentados logo de cara. A narrativa, in medias res, já nos põe diretamente em contato com sua parte mais forte. Nos primeiros minutos de Luna, vemos a protagonista filmando um vídeo-carta de suicídio. Na cena que antecede esse momento, uma das mais belas do filme, a garota tenta, em vão, chamar a atenção da mãe, operária que, envolvida pelo barulho da linha de produção, não escuta os gritos desesperados da filha. A história da tragédia se dá na sequência. Luna (Eduarda Fernandes), uma adolescente comum, conhece a aluna novata Emília (Ana Clara Ligeiro), que exerce sobre ela uma atração imediata.  As duas passam a explorar o lado “B” da vida, lugar de sonhos até então inédito para a protagonista. Em determinado momento, um dos colegas de sala de Luna espalha para os outros alunos do colégio fotos íntimas que ela havia confiado a sua amiga.

A personagem que dá nome ao filme, muito bem interpretada por Eduarda Fernandes, diga-se de passagem, confere consistência dramática ao longa. No entanto, não se pode dizer o mesmo do restante dos personagens. Alguns dos elementos que colocam a trama em movimento são pobremente trabalhados, a partir de inserções repentinas, descontextualizadas e que pouco reverberam no corpo total do filme. A maior parte dos coadjuvantes funciona como lances forçados de roteiro. O pai pedófilo de Emília, o colega de escola e até a mãe de Luna parecem estar ali esvaziados e atuam como meras escoras, cuja função se resume a não deixar que a história desmonte. Não há nem a tentativa de insuflar vida nessas personagens para além de seus tempos exíguos em tela. A ligação do mundo com as duas protagonistas se dá apenas de forma instrumental. As personagens surgem como uma chave de fenda, apertam os parafusos da história e somem sem deixar vestígios. Se são assim ou assado, pouco importa: a personalidade não precisa ser trabalhada, já que suas ações não ecoam para além de suas próprias cenas. Tudo bem que é possível partir de uma leitura solipsista que coloca Luna e Emília como centro de um sonho compartilhado, onde o restante do mundo não passaria de um grande borrão impreciso. De fato, a fotografia esfumada e as locações que reforçam contrastes entre “real” e fantasioso, sinalizam um aspecto onírico.  Mas a obra não assume essa tese e é, contraditoriamente, ainda muito dependente de um sistema clássico de narrativa baseado em causa e efeito.

Assim como os gialli italianos, Luna privilegia os efeitos catárticos. É um filme de olhar erótico, que parece inverter a lógica e mover-se no sentido efeito-causa. Muitas das cenas renderiam fotos para pôsteres belíssimos. Há um apuro estético na composição de vários dos quadros, mas que parece surgir mais de um deslumbramento com certas possibilidades poéticas da mise-en-scène do que com a interação orgânica entre narrativa e seus desdobramentos expressivos. As qualidades fotográficas das cenas são evidentes, mas parecem não se prolongar em sua dimensão temporal. A “beleza”, nesse caso, pertence ao domínio fotográfico, das composições pictóricas, ao contrário do giallo, que integra a força das cores à ação da violência.

Tanto Luna como Adèle em Azul É a Cor Mais Quente (2013) são seres de pura potência, que precisam apenas de um outro alguém, uma faísca que as coloque em curso de colisão com o mundo. No caso do filme brasileiro, a vontade de naturalizar e positivar a vida pulsante de um mundo a descobrir esbarra em um punitivismo precário. No fim das contas, a personagem acaba sendo massacrada apenas por querer ser livre, e o arco descoberta-êxtase-queda, tão claro quanto direto, fecha-se às possibilidades de busca por um hedonismo mais complexo em suas ambiguidades. Ao priorizar uma estrutura fechada, o filme não abre brechas para o surgimento de uma trajetória mais orgânica em movimento dialético. Mesmo que haja o momento redentor, ele não funciona exatamente como o fechamento de um arco, está lá quase como um arremedo, uma solução ingênua para a saída de um beco criado pelo próprio filme. A cena final, que interrompe os créditos, é uma versão constrangedora da icônica cena-clichê de Sociedade dos Poetas Mortos (1990). Saem os alunos de terno subindo na mesa, mas permanece o idealismo em sua versão mais pueril. A sororidade é reduzida a uma pieguice ainda maior que a do filme norte americano, justamente por não ter como fundo o cenário catedrático dos campi estudantis anglófonos. O filme de Cris Azzi parece se levar muito a sério e engasga em sua própria eloquência. Sobram elementos semânticos, divagações, manifestos e beleza, unidos por ar.

“Os filmes eróticos são um mundo de sonhos onde vivemos, sem pecado ou vergonha, as infinitamente gratificantes fantasias sexuais que nos são vedadas na vida real” E.R Moraes, S.M Lapeiz, O que é pornografia, p.57.

Nas cenas de maior carga erótica, Cris substitui o olhar objetivo da câmera comum por uma espécie de subjetiva que coincide com a lente da webcam. O lirismo, evocado pelas máscaras e cenários, não resiste quando o “segredo” das performances compartilhadas entre Luna e Emília é violentamente quebrado. O público invade o espaço de intimidade entre as duas e passa a dividir o ponto de vista das personagens. Os limites, dos quais nos fala Eliane Moraes, de um erotismo como meio potencializador de fantasias vedadas ao mundo real, regridem a um estágio vulgar, onde os corpos são explorados de frente, sem a mediação do aparato que revela e esconde, tal qual quaisquer sites pornográficos. A questão não é e nunca será a nudez. Se o erotismo no cinema contemporâneo reivindica novos olhares, e formulações mais sensíveis, Luna nos entrega apenas uma atualização do cinetoscópio de Edison, em que o corpo feminino é apenas mais uma atração de feira visto pelo buraco da fechadura.

“os flares na lente, o foco curto, a luz azul, a música pop, a “plasticidade” massacrante do vídeo em alta-definição; e um sentimento geral de que, no que tange a mise-en-scène, vale tudo, desde que fácil e imediato, seja pelo tatibitate estagnado no uso de plano e contraplano nas sequências dramáticas (com os devidos bate-e-volta de planos dos personagens em silêncio, indicando que o diálogo ressoa um subtexto que não parece estar ali), seja pela evocação simbólica de alguma, qualquer, impressão superficial e imediata de beleza.” Fábio Andrade, sobre o filme Moonlight (2016), Revista Cinética.

Para que o trecho citado acima sirva como sapato de cristal para Luna, bastaria substituir a lista de clichês por outros. A versão do Eden em cores neon e iluminada por luz negra, o pedalar pelos subúrbios (substituídos aqui por um bairro de galpões), as copas de árvores vistas por baixo que filtram a luz, tudo concorre para expressões de um imaginário já visto à exaustão. Ao aliar esse mecanismo de quadros familiares a pautas sociais em evidência, o cineasta cria um dispositivo superficial refratário, um tipo de cinema blindado, “anticrítica”, que já nasce “importante” e “urgente” antes mesmo de ser colocado à prova. Pois, afinal de contas, o checklist de aproximações com um público genérico (e idealizado) de festivais, está todo marcado. O filme busca, no universo externo a si mesmo, elementos que o validem e o tornem relevante enquanto obra engajada. A mensagem política está lá, uma verdadeira enxurrada delas aliás. E melhor ainda, ilustradas a partir de pílulas poéticas de um dourado sedutor. Bullyng, sexualidade na adolescência, feminismo, internet, sororidade e até uma discussão solta sobre o golpe de 2016. Tudo é colocado de forma cristalina, quase didática. É inegável que filmes com essas temáticas tenham que aparecer mais e mais, mas em que sentido Luna se coloca a partir de suas próprias questões internas? Como se posiciona o autor nesse turbilhão de política(s) para além da enunciação? Em que sentido a apropriação cinematográfica de certos temas poderia complementar ou ser superior às discussões feitas em profundidade a partir de outros meios? Luna não só se nega a responder essas questões, como abre mão de sua especificidade em benefício de um suposto bom acolhimento por parte do público. Além de algumas esquisitices cosméticas à la Harmony Korine, não há muita singularidade na história contada. E se o filme não consegue sair das sombras da “lacração”, é melhor que fiquemos com sua versão em francês, dirigida por Abdellatif Kechicher, ou até mesmo com o bom e velho textão de Facebook.