Infiltrado na Klan (2018), de Spike Lee

O que fazer quando não se escolhe as regras do jogo?

Leandro Afonso

Na apresentação de Infiltrado na Klan (2018), novo filme de Spike Lee, uma grua revela inúmeros mortos até apontar para uma bandeira dos Confederados, símbolo de toda uma tradição escravista norte-americana. Na resolução, vemos filmagens reais de um ressurgimento da popularidade de supremacistas brancos, seguidas por uma bandeira invertida dos Estados Unidos, perdendo sua cor. Tanto o início, com a retomada de uma cena de …E o Vento Levou (1939), quanto o desfecho nos mostram imagens que já existiam antes do filme. As primeiras foram feitas no auge do cinema clássico, marcado por obras que romantizavam variações de um filho de imigrantes europeus, valente e desbravador. As últimas mostram a valentia e o desbravamento transformados em belicismo desenfreado e preconceito orgulhoso.

Da mesma forma que não é um absurdo ligar esses dois regimes visuais, me parece que a melhor maneira de analisar o filme de Spike Lee é entendê-lo como uma obra que joga esse “jogo”, que quer uma fatia das imagens e das histórias, para poder torná-lo menos desigual. A imagem subsequente à cena de …E o Vento Levou tem Alec Baldwin, uma referência óbvia a Trump, cujas ideias fazem Ronald Reagan parecer progressista. Reagan foi o presidente (1981-1989) americano à época em que Spike Lee realizou sua obra-prima, Faça a Coisa Certa (1989), também um retrato e uma crítica ao racismo. Faço esse adendo para podermos compreender melhor a diferença da luta atual, tratada em Infiltrado na Klan, em relação àquela vivenciada no fim dos anos 80, já que temos cada vez mais evidências de que a briga agora está muito mais dura.

Assim, não sei se é possível culpar Infiltrado na Klan pelo olhar mais condescendente com quem tem traços do opressor, mas parece jogar junto (Adam Driver, aqui interpreta um branco, mas um branco judeu, num filme em que o ativista negro Kwame Ture cita o rabino Hillel), nem pela denúncia menos generosa à humanidade de quem o oprime. Traçar personagens que pareçam reais, com suas dúvidas e contradições, virtudes e defeitos, se tornou menos importante que contar uma história em que haja um certo direcionamento heroico e uma vingança catártica.

Se acrescentarmos aí a música popular, uma inacreditável história real adaptada a uma narrativa mais potente em dramaturgia, temos uma receita certeira de grandes sucessos americanos que vangloriam, via de regra, personagens brancos: os mesmos filhos de imigrantes europeus valentes e desbravadores. Spike Lee faz isso num filme que demoniza, com boa dose de razão, conceitos racistas, chapando personagens e abraçando convenções, e é ocasionalmente criticado por isso. Neste caso, vem a pergunta: qual o tamanho do problema de abraçar determinadas convenções, narrativas e estilísticas, para fazer um filme que quer criticar determinados preconceitos que, infeliz e inacreditavelmente, viraram convenções? É um problema priorizar a guitarra e uma orquestra conduzida por Terence Blanchard, ao invés de usar variações de Public Enemy? Qual o porém em querer entrar no “jogo” do branco para tentar modificá-lo?

Spike Lee volta a investir boa parte do tempo enumerando grandes nomes negros. Temos o didatismo que se encaixa na narrativa ao ouvirmos a história de Jessie, um caso aterrorizante que aconteceu em 1916, influenciado por O Nascimento de uma Nação (1915), de Griffith, a base de toda uma narratividade clássica até hoje influente e, não por acaso, um épico escancaradamente racista. Um dos trechos do filme exibidos em Infiltrado na Klan é, longe de ser uma coincidência, uma cartela escrita: “Dem free-niggers f’um de N’of am shot crazy”, que pode ser traduzido como “Esses criolos livres são muito loucos”.

Na maravilhosa montagem paralela que o filme propõe, com a presença de Harry Belafonte, a crítica aparece límpida, especialmente se pensamos que são exibidos os dois lados – supremacistas brancos e militantes negros. Todavia, é importante falar dessa cartela de O Nascimento de uma Nação e da questão da liberdade. Spike Lee recebe críticas pela forma mais convencional que escolheu pra filmar e também pelo tom conciliatório que há em determinadas situações. Se ser livre, no caso de uma obra que quer escancarar a ferida (mas não só), significa precisar escolher sempre um caminho pré-definido por determinados ideais, não estaria a liberdade bem próxima do dogma?

Também não deixa de ser bem simbólica, ainda na combinação retrato + crítica, a parte final do longa, que volta a passar o recado. “The black guy is a cop?” é um questionamento simples, direto e preciso de uma sociedade que enxerga no negro um possível criminoso, nunca um policial. Se um negro está querendo imobilizar uma mulher, ainda que ele diga ser um policial, ele não merece crédito, e um branco tem que vir para ter (e levar o) mérito na situação. Não menos simbólico é o final, com Ron Stallworth (John David Washington) e Patrice Dumas (Laura Harrier), o policial e a militante, numa imagem quase onírica, caminhando junto à câmera, apontando uma arma para o futuro. Um futuro em que a KKK e os casos de racismo permanecem vivos e, ocasionalmente, parecem até crescer. Um futuro de uma sociedade que pouco mudou.

“Ah, mas o filme trabalha com certa conciliação que pode ser forçada. Existem brancos legais (Flip) e brancos demoníacos (Felix). É tão chapado assim?”. Em Faça a Coisa Certa, mesmo o personagem de John Turturro ainda detinha algum grau de humanidade, enquanto os personagens de Felix e o policial demitido são apenas caricaturas do pior tipo de ser humano possível. Isso é um problema real em Infiltrado na Klan? Ou, se preferirmos, qual o tamanho desse problema num longa feito exatamente em 2018?

Ao final da sessão, na Mostra de São Paulo, um homem levantou-se e gritou: “Como é que vocês ainda têm coragem de votar em fascista?”. Sua fala poderia ser dita em vários outros países, talvez em todos os continentes. Problematizar de forma suave não tem surtido efeito, trazer as nuances de personagens também não, pois as pessoas não têm escutado – e todas essas questões parecem ser caras a Spike Lee, que reage com esse filme. Infiltrado na Klan assume ser resistência e provocação, utilizando-se de imagens (início e final), ferramentas (conceitos narrativos e de encenação), formas (o filme de gênero) e fórmulas (a vingança catártica) e, com isso, talvez atinja um público maior. Como no caso de Pantera Negra, é difícil mensurar o tamanho real da obra estando imerso nesse mesmo contexto. Porém, são inegáveis sua urgência e sua capacidade de, assim como acontece no filme de Ryan Coogler, jogar o jogo que quase nunca coube ao cinema feito por oprimidos.

Esse me parece ser o grande trunfo de Infiltrado na Klan: ser um Filme do Hoje, com éfe e agá maiúsculos. É domínio de linguagem e de estrutura, é escuta e confronto se passando por um “simples” filme (blaxploitation?) de crime, biográfico, histórico – visão de cinema e visão de mundo. Um longa em que a direção não fica escrava das vaidades autorais e, sim, a serviço daquilo que escolheu fazer e do que escolheu defender. A conciliação ainda pode demorar no mundo retratado, mas uma outra pode existir no cinema. No Cinema.