Conhecendo o Grande e Vasto Mundo (1978)

Um filme só

                                                                                     Roberto Cotta

Nunca ouvi falar de um triângulo amoroso que tenha começado de modo tão rude. Os créditos iniciais mal haviam acabado quando Nicolai (Aleksei Zarkhov) pulou de súbito na caçamba de Misha (Sergei Popov), fedendo a suor e pedindo pra desatolar o carro da lama. Em Conhecendo o Grande e Vasto Mundo (1978), de Kira Muratova, essa agressividade é o símbolo da mudança no relacionamento de Nicolai e Liuba (Nina Ruslanova). Trata-se de um namoro enguiçado, cujo desgaste necessita de um terceiro elemento pra pegar no tranco ou morrer de vez.

Mas a rudeza não se restringe ao trato entre machões. Muratova lança mão de uma decupagem socada, enquadrando partes fragmentadas de seus personagens e escondendo as dimensões reais da estrada, dos vilarejos e das habitações coletivas dessa União Soviética dos anos 70. Quase sempre, obstáculos se interpõem entre a câmera e o trio de protagonistas, impedindo que os gestos extravasem, as paixões se aflorem e os rumos sejam definidos sem sofrimento. A montagem segue princípio parecido. Entre um plano e outro, cortes que não articulam uma relação de continuidade, como se a demolição do tempo construísse um espaço singular, em constante reformulação.

Misha, Liuba e Nicolai seguem viagem espremidos na boleia do caminhão. Um aperto de mãos entre a moça e seu futuro affair deixa Nicolai roxo de raiva. E o troca-troca de posições no banco de passageiros só aumenta a dor de cotovelo do rapaz. A cineasta apresenta toda essa tensão tragicômica de maneira frontal, apontando a câmera para o rosto dos personagens e captando cada lastro de sentimento exalado. O aperto de mãos do começo é retomado na parte final, na medida em que os amantes já se encontram espelhados um no outro, intuindo a possibilidade de matrimônio tão desejada por Liuba.

Que me estapeiem os que torcem o nariz pro casório, mas da Moldávia ao Togo pouca coisa gera tanta expectativa num coração desolado. Não por acaso, a sequência mais memorável do filme escancara o sonho de Liuba e a impossibilidade de concretizá-lo com Nicolai. Um a um, os casais saem da igreja depois de uma cerimônia de casamento coletivo. Nesse momento, somos os olhos da personagem, que pega o microfone e fabula a felicidade dos cônjuges, mirando neles a perenidade afável da relação a dois. Mas “o amor é uma paixão temporária”, Nicolai diz a ela, decretando a rejeição ao enlace. Enquanto isso, Misha está à espreita, esperando que Liuba abra brechas pra que ele possa consolá-la.

Dos tipos masculinos que já tive notícia, nenhum é tão bem-dotado de astúcia quanto o esquerdomacho. Os demais são todos tolos, seja por imprudência ou convicção. Guardados os devidos lapsos, Misha é o protótipo soviético desse perfil espalhado aos montes pelo Brasil atual. Ele tá sempre ali no rebote, complacente, taciturno, pronto pra cobrança de pênalti. Quem pouco se expõe, não tem outro destino: ou vira agente da ABIN ou ganha na loteria, observando o vai-e-vem pelo buraco da fechadura até que chegue sua vez. Já Nicolai é seu avesso: troglodita, xucro, arredio, um verdadeiro poço sem mistério. Não há como imaginar um futuro que supere a vida protocolar, desprovida de sonhos e repleta de trabalho.

O filme de Muratova oferece o último resquício de sensibilidade no horizonte do cidadão comum. Em meio a uma rotina operária, Liuba representa a única forma possível de enxergar a flor que brota do asfalto, furando o tédio, o nojo e o ódio, como diria Drummond. Por isso, ela está só. Ela até pode ser rodeada por homens, mulheres e crianças, mas está sempre só. Não é à toa a recorrência ao seu olhar lançado em direção ao nada. A vida de Liuba é sonho, e ela consegue apenas devanear sozinha, num mundo sem fábricas, sem construções e sem a rudeza da convivência a dois, a três, coletiva. Qualquer tentativa de vislumbrá-la na companhia de alguém resulta nos cacos de um espelho partido.

Assim como a personagem, Conhecendo o Grande e Vasto Mundo é um filme solitário. Estamos diante de uma gangorra de emoções que se bastam em sua parca duração, contramão de toda uma história oficial que preza pelas narrativas umbrosas, reviravoltas frenéticas e sentimentos guardados numa prateleira. Além disso, sua concisão é tão singular quanto a luz primaveril que invade o quadro. Até porque chega um momento em que não sabemos mais se é noite ou se é dia, quando se vive ou se morre. Ao fim, somos pobres desgraçados exercendo nosso fascínio pela solidão.