Bloqueio (2018), de Victória Alves e Quentin Delaroche

Alguma revolta, um bocado de fé e um pouquinho de Zap zap

Thomas Lopes Whyte

Atualmente, o cinema de ficção nacional parece ter dificuldades em acompanhar o turbilhão desorganizado dos fenômenos sociais. Os filmes, que prescindem de amplos movimentos de interpretação sociológica, tendem a ser pretensiosos e, não raro, acabam por simplificar fenômenos complexos. Nesse cenário, Bloqueio (2018) parece se fortalecer, na medida em que cataloga e organiza parte de um mundo cada vez mais estilhaçado. A greve dos caminhoneiros é o fato que não se deixa apreender, que não se submete às interpretações lineares. Política, fé e tecnologia são alguns dos elementos que se entrelaçam na construção de um movimento grevista fractal, avesso às leituras que pululam aos montes no Facebook. Lockout? Greve legítima? 2013 ainda cobra explicações dos analistas que, naquele momento, se atreveram a ser categóricos.

Se as estradas em Bloqueio estão todas paradas, também se encontram interditados muitos dos debates que, há alguns anos, moviam a energia política brasileira. As preocupações dos personagens de Bloqueio – os caminhoneiros – se alinham, obviamente, às preocupações reais da grande maioria dos trabalhadores, mas as soluções apontadas para erradicação dos problemas acontecem em uma esfera abstrata de devaneio ideológico. Palavras de ordem que pedem por intervenção militar e reestabelecimento da moral cristã se misturam às reivindicações por melhores condições de trabalho e redução dos preços de combustíveis.

Bloqueio é explosão. Na famosa cena final de Zabriskie Point (1970) de Antonioni, a casa, solidamente incrustrada na rocha e símbolo da estabilidade almejada pelo sonho burguês, se parte em mil pedaços. Parafraseando Berman, o que era sólido se desmancha, dando marcha ao balé da aniquilação, vagaroso e apoteótico. A beleza que acompanha a detonação está no fato de que ali, em câmera lenta, existe um movimento contrário e incessante contra a natureza expansiva dessa onda de choque violenta. A câmera lenta possibilita a estabilização da própria imagem da destruição e, para os destituídos, à beira do colapso e na franja de instituições (que são cada vez mais precárias), não há maior sensação de conforto e poder. O caos é ilusoriamente controlado e a ansiedade, antes modo de vida, cede lugar a uma falsa realização pessoal, enquanto os olhos passeiam pela tela, reconstituindo o mundo como uma cópia fantasiosa de si mesmo. Não por acaso, a euforia oriunda da crença de que é possível mover um país através de reinvindicações obscuras, que ninguém ao certo sabe quais são, encontra respaldo no mundo de desinformação das redes sociais. O “empoderamento” estimulado pela compreensão dos fenômenos através de memes é um alento, e a catarse desses lampejos de iluminação se transforma em religiosidade, expressada por cultos e cerimônias de adoração, ali mesmo no acostamento da rodovia.

Um dos pontos altos do filme é o encontro entre uma professora de história da rede pública e os grevistas. Um abismo se coloca entre os interlocutores e o desinteresse em se estabelecer pontes se torna patente. Há algo profundamente errado em relação à forma constrangedora do discurso. No meio do torvelinho brasileiro, não há mais espaço para o iluminismo pueril. As bases, cada vez mais relegadas à subpolítica, são abocanhadas por promessas de sucesso financeiro oferecidas pelas igrejas neopentecostais, ao mesmo tempo em que constroem, via internet, uma “verdade” capaz de incluí-los como agentes de suas próprias vidas. Se a esquerda não consegue se dirigir às massas, é importante que, pelo menos dentro de seu círculo de influência, ela seja capaz de estudar com objetividade o povo que há anos diz entender. Não são raras as experiências fílmicas que, no afã de interpretar os fenômenos políticos, ignoram as transformações culturais dos últimos 20 anos e preferem o terreno confortável das manifestações simbólicas desgastadas e anacrônicas de associações tiradas dos anos 60.

Bruno Torturra se dedica, há algum tempo, a filmar parte das manifestações favoráveis a Bolsonaro. Em um dos seus trabalhos mais recentes, feito durante um melancólico comício debaixo de garoa na Avenida Paulista, o diretor foi ainda mais longe, realizando uma “reportagem” sem entrevistas e quase sem cortes. Os longos planos-sequência debaixo de chuva buscam, incessantemente, por eventos significativos capazes de montar um cenário, senão preciso, pelo menos representativo e abrangente da situação brasileira atual. A ideia de explorar o sensacionalismo, que talvez esteja na raiz das críticas dirigidas a Bloqueio, emerge ressignificada pelo próprio absurdo da situação. Torturra nos mostra que o contexto embaralhado é tão fascinante que quase não é necessário fragmentar e remontar a realidade para extrair dela o horror. O espetáculo da desintegração social está aí, ao alcance dos olhos de todos, no centro simbólico do país que é a avenida Paulista, para quem quiser ver e tiver estômago para registrar. Arrisco aqui um palpite: dos filmes políticos, que se lançam na tentativa de compreender nossa situação atual, acredito que os dedicados ao registro simples dos fenômenos, como Bloqueio e o filme de Torturra, serão talvez os sobreviventes de uma enxurrada de filmes feitos no calor do momento. Não por jogarem em terreno seguro e serem destituídos de subjetividade ou gestos autorais, mas, justamente, por entenderem, assim como Nietzsche, que em determinados momentos históricos não há artista capaz de suportar a realidade – ou tampouco supera-la.

O documentário não deve se limitar a um simples exercício contrapontístico. Muitas vezes, os fenômenos se nos apresentam em suas formas aberrantes, simplesmente por serem apenas isso. O gesto abrangente pode ser importante para evitar os esquemas caricaturais, mas a busca exagerada por equilíbrio serve também para refrear impulsos criativos baseados na intuição. Alguns dos comentários que se seguiram ao filme acusaram os diretores de espetacularizar a barbárie. Ao se distanciar e recusar um envolvimento direto com o objeto, Victória e Quentin teriam aberto um suposto flanco para que o reacionarismo atue como agente na consolidação de uma cultura do delírio.  Em outras palavras, os dois estariam privilegiando a voz da confusão, enquanto o “correto” seria se abster e não bater palma para doido dançar. Mas a negação daquilo que fere é, precisamente, o que impossibilita a desmistificação da barbárie. Paradoxalmente, se não fosse uma figura proscrita, Eróstrato – o Olavo de Carvalho de sua geração – seria talvez apenas um triste cidadão esquecido no buraco negro da história.

Apesar dos impasses diante do cinema político brasileiro, nossos documentaristas nunca tiveram diante de si material tão abundante, mesmo que, às vezes, indecifrável. Convenções partidárias, palestras promovidas por think tanks, manifestações de rua, empresas de tecnologia envolvidas em escândalos, guerra híbrida… Até mesmo os novos movimentos grevistas, descentralizados e desorganizados, exigem um novo olhar do cineasta. Não é mais possível filmar como Leon Hirszman e Renato Tapajós fizeram durante os movimentos do ABC. A câmera não possui mais um ponto seguro, e não há mais personagens como Lula para atrair os olhares e organizar as narrativas. Os discursos que alimentam e inflamam o imaginário do trabalhador insatisfeito não estão mais no palanque, ao alcance da lente. As mensagens agora circulam no interior da neblina, na nuvem. E a história, seja ela qual for, acontece agora, nas estradas do país, e é mais forte do que nunca.