Hereditário (2018), de Ari Aster

Arquitetura profana

Daniel Rodriguez

Na última edição da Revista Rocinante, o redator-editor Roberto Cotta ultrapassou o horizonte temático dos gialli ao apresentar sua perspectiva crítica de Pelo Amor e Pela Morte (1994), obra de Michele Soavi particularizada por sua plasticidade incomparável e narrativa excepcional.

Dentre os diversos elementos que compõem esse marco cinematográfico dos anos 90, chamo a atenção para as sequências de abertura e encerramento, nas quais, junto aos créditos, observamos um mesmo globo de neve. Em um primeiro momento, o conteúdo do globo faz pouco sentido, nada mais que um objeto de decoração peculiar. No plano de encerramento, o protagonista Francesco Dellamorte e seu fiel escudeiro Gnaghi se metamorfoseiam em modelos dentro do souvenir, ambos eternizados em meio a uma experiência de epifania e constatação de um mundo vazio e sem sentido.

Em Hereditário (2018), o primeiro e último plano entrelaçam o mundo real e o miniaturizado de maneira um pouco semelhante ao que fez Soavi. No entanto, nas mãos do cineasta Ari Aster essa manipulação de perspectiva e olhar vai além desses dois planos.

A sequência de abertura se dá em um cômodo repleto de dioramas e materiais para construção de tais modelos miniaturizados. A câmera lentamente se aproxima de um cômodo exposto em uma das peças, até que, em certa altura, há uma transição entre quarto-diorama e quarto-real evidenciada pela entrada de Gabriel Byrne em quadro.

Posteriormente, Toni Collette surge no papel da potência criadora por trás dessas maquetes. A artista plástica Annie é especializada em retratações miniaturizadas de espaços cotidianos, trabalho que exerce com minúcia e paixão. Parte de suas obras parece voltada a uma exposição futura. As peças que mais se destacam, são aquelas em que ela representa a própria subjetividade.

Para além dos trabalhos encomendados, Annie constrói cenas que não vivenciou, de acordo com sua própria imaginação, e resignifica as próprias experiências – algo perceptível através das maquetes nas quais coloca a própria mãe em cena.

As pequenas criações da artista se apresentam como modo de dar vazão ao luto e às incontáveis experiências traumáticas que viveu. Em uma dessas cenas, Annie está deitada, amamentando. Em pé, ao seu lado, sua mãe aparece com um seio exposto. Aqui, Aster se faz valer de uma espécie de sobreposição narrativa, na qual Annie fala indiretamente sobre si mesma, a relação com os filhos e a intervenção de sua mãe.

Os planos que transacionam entre representação e realidade se tornam menos frequentes conforme a trama satânica que envolve a família de Annie se desvela. Acontecimentos fantásticos surgem como que antecipados meticulosamente pelo destino ou por alguma força diabólica toda poderosa.

Se, a priori, Hereditário parece girar em torno de um núcleo familiar problemático, com as miniaturas simbolizando conflitos mundanos, há uma transformação gradativa com a manifestação de um mal que corromperá irreversivelmente tal ambiente. Aos poucos, torna-se notável que cada passo dado pelos personagens pode muito bem ter sido arquitetado por uma entidade superior.

No último ato, onde a manifestação profana se faz absoluta, as figuras humanas são quase que literalmente dispostas na qualidade de bonecos, como se um artista plástico fosse capaz de utilizá-los a seu bel prazer. Aqui, duas cenas em particular me veem à mente.

Durante a sequência em que Peter, personagem de Alex Wolff, é “possuído“ na sala de aula, ele perde por completo o controle de seu corpo, ficando à mercê da força que o domina. Seu rosto se distorce e seu braço se levanta bizarramente. Não há qualquer outro propósito em sua movimentação além da mais pura experimentação do próprio corpo, algo esperado de uma criança que tem em mãos um boneco articulado pela primeira vez.

Nos últimos minutos, vemos um corpo decapitado flutuando sobre o jardim, indo parar na casa da árvore. Novamente, é possível imaginar uma mão invisível manejando um brinquedo e mudando-o de lugar. Várias outras ocasiões colocam o corpo humano sendo meneado por algo, análogo ao próprio trabalho de Annie com as miniaturas.

Ainda acima dessas duas instâncias, está o próprio Ari Aster, que confecciona uma experiência cinematográfica prodigiosa. Seu controle sobre perspectivas, em que dramas familiares Bergmanianos são sobrepostos por um terror que eleva o profano de Polanski e Friedkin a um novo patamar, resulta em uma atmosfera de densidade tão grande que por pouco não se torna tangível.

Os enquadramentos e as mise-en-scènes rigorosos de Aster a todo tempo replicam os espaços arranjados por Annie em suas miniaturas. A fotografia e a trilha atravessam esses planos para carregá-los de um clima tétrico opressor que reforça reiteradamente a presença estranha que paira sobre a casa.

A resolução da trama se dá em uma espiral de loucura e horror com planos tão impressionantes que entrarão para a história do cinema de gênero, tanto em decorrência da pura grotesquidão e niilismo de seu conteúdo, quanto pela maestria no domínio da forma.

Em Pelo Amor e Pela Morte, o último plano sacramenta o destino dos personagens perante a vontade de algo maior. A expressão final de Francesco e Gnaghi parece de aceitação da predestinação. Em Hereditário, o plano derradeiro, em que a casa na árvore se torna uma miniatura em meio à escuridão absoluta, também parece alicerçar o predomínio de uma vontade superior. O último rosto que vemos, por sua vez, carrega nos olhos algo muito diferente de aceitação. É um rosto carregado de dúvida. Dúvida esta que é refletida em toda a extensão dos acontecimentos até então expostos. Dessa maneira, Aster remaneja todas as peças uma última vez, se estabelecendo no papel de entidade máxima.