Camaradas (1936), de Jean Duvivier

Reconstruir uma casa em ruínas, refazer um corpo coletivo

 Hannah Serrat 

Como escrever sobre o realismo poético francês, no Brasil, em 2018? Como voltar a escrever sobre essas imagens que, por vezes, vejo daqui desmoronarem-se, como a casa comunitária de Camaradas (1936)? Como olhar para este filme, realizado há quase 80 anos, na França? Intimamente, preferia que, nele, cinco mulheres, brancas, negras, indígenas, periféricas ocupassem uma casa vazia. Não seria melhor que, antes de tudo, a diferença atravessasse os cômodos dessa casa, produzisse nela novas formas de ajuntamento? O que se passaria, então, com a casa? Como reordenar suas telhas, redesenhar sua arquitetura, expulsar os assediadores? Que relação se estabeleceria com o rio, a mata, as plantas em seu entorno?

Questões como essas podem facilmente nos atravessar durante uma sessão atual do filme (ao menos àquelas e àqueles interessadas/os nas formas de pensar e de fazer aparecer o mundo interseccionado pelos signos do múltiplo, do plural), já que Camaradas (ou, em francês, La Belle Equipe), aparentemente, constitui um belo elogio à “brodagem”, à vida em comum dos homens branco-hetero-europeus, mas também pobres, proletários, desempregados. É preciso, então, não perder de vista: o filme de Duvivier, realizado em 1936, entre a primeira e a segunda Grandes Guerras Mundiais, se vale de uma consciência crítica e, talvez, desiludida com os ideais revolucionários de sua época. Se as questões que o delineiam distanciam-se das demandas que, hoje, parecem incontornáveis às imagens, nem por isso o filme perde seu interesse ou sua capacidade de nos deslocar. Talvez, um grande desafio à crítica seja pensar as imagens em seu contorno histórico, sem, é claro, passar ao largo das demandas urgentes que nos provocam a pensar, hoje, representações e representatividades possíveis.

Em 1936, Léon Blum ganhou as eleições parlamentares na França, junto da Frente Popular Francesa – grupo que se formou um ano antes para conter o avanço dos regimes totalitários na Europa após a crise econômica de 1929, constituindo-se enquanto uma coligação política que reunia diversas frentes de esquerda e agrupava partidos comunistas e socialistas, entre outros grupos. Foi nesse contexto que Julien Duvivier lançou Camaradas, apresentando um final trágico, que levou a um fracasso de bilheteria e fez com que, contrariadamente, o diretor precisasse refilmar o desfecho de seu filme em uma versão mais otimista e conciliadora, que, por isso mesmo, se tornou muito mais popular e foi a versão distribuída na França até a década de 1960.

Camaradas, escrito por Duvivier e Charles Spaak, mesmo roteirista de A Grande Ilusão (1937) de Jean Renoir, retrata a jornada de cinco amigos que abandonam Paris após ganhar, conjuntamente, um prêmio na loteria. Com o dinheiro e o empenho de sua própria mão de obra (trabalhadores que eram), eles decidem reformar uma casa em ruínas às margens de um rio, transformando-a em um restaurante, onde eles viveriam e trabalhariam em uma comunidade coesa e harmônica. No entanto, esse desejo partilhado entre eles, aos poucos, vai se esfacelando e culmina, na primeira versão do filme, no dilaceramento do horizonte utópico masculino que os personagens constroem coletivamente para si. Nesse sentido, importa notar que as mulheres não aparecem no filme, propriamente, para sonhar junto dos protagonistas. Ao contrário, elas se apresentam na figura pueril da companheira amorosa de um deles, pela qual um de seus amigos se apaixona e, sem resistir à tentação, decide deixar o grupo, ou na ex-esposa que retorna para cobrar sua parte no prêmio da loteria e colocar em questão a amizade entre seu antigo companheiro e outro personagem que, em meio à trama, ela seduz. Há, claro, também uma figura materna. Personagens femininas que tratam de apenas oferecer seu apoio ao sonho dos homens ou, por outro lado, vêm perturbar ou impedir a possibilidade de consolidação de suas utopias. Na segunda versão do filme, o companheiro que partiu anuncia seu retorno e os dois outros homens que permaneceram na casa e até então brigavam pela mesma mulher reconciliam-se: vitória da “brodagem” contra a ameaça inconsequente das mulheres (sejam elas ingênuas ou perversas demais).

Diante do avanço dos regimes totalitários na Europa, os mesmos que alguns anos depois perseguiriam homossexuais, negros e negras, judeus e judias, Duvivier, apresenta-nos o modo como o sonho operário vê-se incapaz de se consolidar. Mesmo no final otimista, deixando de fora todas as mulheres para encontrar na fraternidade masculina sua única fonte de harmonia, o elo parece ser frágil demais para perdurar (mesmo que o filme não se anuncie assim tão claramente). É como se qualquer ameaça vinda de fora fosse capaz de fazer com que essa comunidade utópica desmorone, mais uma vez. Esse desfecho preterido pelo realizador fornece, assim, uma imagem crítica (que me parece inclusive mais potente que a primeira): o sonho proletário desses homens que desejam trabalhar apenas durante o verão para descansar livremente no inverno, vivendo coletiva e harmonicamente, sem patrão, partilhando todos os lucros e todos os cômodos da casa, sem hierarquia, só funciona quando toda diferença é apartada, para que sobrem apenas os homens brancos proletários amigos e se vejam de fora não apenas as mulheres, mas toda sorte de subalternxs que apenas o recorte de classe parece, hoje, incapaz de acolher. Se como bem diz Ben McCann, em um livro dedicado a Duvivier, temas como “o pessimismo, a misantropia, a crueldade da multidão, o fatalismo, a memória defeituosa, o exílio e a (im)possibilidade de fuga”[1] povoam todo o trabalho do realizador francês, parece-nos que, em Camaradas, seu horizonte crítico, pessimista e descrente vem, justamente, assombrar o sonho em comum de seus personagens, tal qual a força do vento que, durante a noite, inevitavelmente, vem destruir a casa que os trabalhadores haviam reconstruído alegremente durante o dia.

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[1] Tradução nossa. Ver resenha crítica publicada em Senses of Cinema.