O criado (1964), de Joseph Losey

As formas da dominação

Fábio Feldman

O rigor composicional que norteia O Criado (1964), obra-prima de Joseph Losey, é absoluto. Entre a precisão de um Kubrick e o barroquismo de um Welles, a direção de Losey é, a um só tempo, extravagante e cirúrgica. Os espaços confinados onde sua narrativa se desdobra sustentam infinitos: diante da lente, tudo é potência e tudo é restrição. A casa – a um só tempo, locação e personagem central da obra – é construída aos poucos, de forma metódica, assim como as relações entre os indivíduos representados e a própria curvatura do filme. Sinalizando um crescendo de absurdidade, O Criado se estrutura de modo progressivamente corrosivo: à medida que o mundo se consolida, as formas colapsam.

Tudo começa quando um pequeno burguês de modos afetados compra uma residência. Sua vida é uma tela em branco, prestes a ser preenchida com as tintas certas, os móveis certos, as viagens certas, a namorada certa – e o criado. Esse, como um fantasma, mais do que exerce, encarna sua função. Anti-Bartleby, está sempre disposto a servir, feito um motor silencioso, um articulador invisível. “O que você quer?”, pergunta-lhe a patroa; “Sou o criado, senhora”, responde.

Entretanto, por trás do papel que interpreta com tamanha dedicação, de suas expressões vazias, seus gestos mecânicos, sua presença perturbadoramente operacional, paira um outro. Aquele que, no escuro, entre cômodos que mais parecem extensões de seus dedos, espaços que ajuda a compor e cada canto adornado por tons avermelhados, fantasia com a posse. O criado que não se apresenta ao mestre é um Homem. Sua irmã, duplo-feminino funcional, é sua mulher. Em noites de casa vazia, a cama do mestre é sua cama. Nos vãos solitários da engrenagem, uma peça tem sonhos emancipatórios.

Ao longo dos dois primeiros atos do filme, um arco trágico (ainda que bastante banal) se desenha. A noiva do burguês hostiliza com o criado; a irmã seduz o patrão, com a perversa anuência de seu irmão/amante; a verdade vem à tona – e tudo é perdido. Traição é punida com abandono; derrocada financeira, idem. Os dois homens sucumbem diante do fracasso de seus planos. Sem um mestre para servir, o criado não é nada. Sem um criado para comandar, o mestre se esvazia.

Mas a estória não termina aí. Trata-se, afinal de contas, de um filme com roteiro de Harold Pinter. A pequena tragédia anunciada do jovem dândi e seu funcionário silencioso, conduzida com rigorosidade e distanciamento, como um ouroboros, se curva e devora a si mesma. Tão abrupto quanto o destino de Macbeth, o rumo da dupla se inverte, potencializa e absurdiza: o aparente polo passivo, capaz de exercer sua vontade apenas em segredo, é agora o senhor. Dono de seu próprio discurso, domina e tiraniza o empregador, reduzido a uma versão débil do que costumava ser. Na realidade pós-trágica do senhor e do criado, vence aquele que, despido de predicações, se impõe com mais vigor. Na realidade pós-trágica do filme, Beckett, Fellini e Bergman se encontram em meio a uma explosão expressionista.

O final de O Criado não poderia ser mais anticlimático. Após uma orgia abortada, as mulheres se vão, mais uma vez. O dono da casa permanece um retrato pálido. O criado segue sendo um mestre ambíguo. E a impressão que fica é a de que, sobre os resquícios do reduto que, certa vez, abrigou o sol glorioso do controle e da Lei, reina um mundo selvagem, desprovido de hierarquizações e normas fixas. A vingança do criado se consolida mediante a pulverização da ordem. Na casa que resta, apenas os fortes são livres.