As correntes de Vigo

Roberto Cotta

A imagem mais poderosa que o cinema já produziu até hoje é, exatamente, um olho sendo cortado por uma navalha – Buñuel. É quase como se Buñuel quisesse dizer que é preciso fechar os olhos, que é preciso não ter olhos para assistir a um filme.

(Fernando Coni Campos, “Cinema: Sonho e Lucidez”)

 

Os olhos

Jean avista Juliette nas profundezas do mar. O nadador encara a câmera depois da aquisição de mais um recorde. A população contempla o aeroplano que segue sobre as águas. Os pequenos diabos viram tempestade e afundam os telhados. Há sempre um mergulho de olhos abertos, uma visão que não cessa a euforia.

Essa inundação desperta e morre lentamente.

 

 As mãos

As lavadeiras enxáguam os lençóis. O movimento das águas respinga na calçada.

Le père Jules gira o disco de 78 rotações. O garoto toca o acordeon, as crianças acendem o cigarro e a bruma se transforma em mágica, fazendo da locomotiva um breve aceno.

Estão guardadas as mãos mortas do amigo. O mistério se torna barco, apalpa a cidade. À deriva, sonho e melancolia nadam no mesmo rumo, permitindo que o frasco encharcado os assombre.

 

 As cicatrizes 

A aliança fenece.

O movimento das marés se choca com o trabalho. Depois, vemos seu avesso, quando o remanso acalenta um rosto vago.

Tatuagens estampam o torso do marinheiro velho. A sombra se encaixa em seu umbigo, enquanto os infantes incandescem as ruas. Como vagalumes, ainda lhes restam algumas frestas no breu.

Logo, avistam um areal. A ordem recomeça de forma abissal e dilata nossa espera.

 

Os ossos

No fim, a ressaca.

As pernas esticadas dentro da piscina, os corpos cremados à beira-mar.

Os fogos trovoando sob as nuvens. O cais desaparecendo em meio à neblina. Os braços esmorecendo sem perdão.

Aos prantos, o cadáver encontra seu próprio delírio. Tal qual um esqueleto sem dentes, não há abrigo para torná-lo razão.

O pátio, então, se sobrepõe ao terno, sucede a raiva e sucumbe à rebeldia, que agora dispensa seu nome.