A Câmera de Claire (2017), de Hong Sang-Soo

Tudo é graça

Adolfo Gomes

A Câmera de Claire (2017) começa e termina com um gracioso zoom, como há muito não se via no cinema.  A paixão seria isso, uma ilusão de deslocamento até o outro? No caso do filme de Hong Sang-Soo, precisamente, sim. É a melhor tradução para essa ciranda amorosa em tom menor, filmada em pouco menos de uma semana, em uma Cannes incólume à mundanidade do célebre festival.

Mas o zoom também é – a despeito do viés decadentista (em Visconti, sobretudo) que lhe fora imputado pelas revoluções cinematográficas dos anos 1960 – o movimento abstracionista por excelência e, portanto, a expressão mais justa do sentimental, desse “falso movimento” que precede ou consome o amor, antes que a certeza incondicional ou a dor da indiferença se instalem de maneira definitiva.

Hong Sang-Soo, no entanto, quer se manter na superfície aqui. É mais o mal-entendido amoroso, do que qualquer outra coisa, o que liga o personagem do cineasta reticente e mulherengo, sua assistente enamorada, uma funcionária da produtora do realizador (demitida após um flerte com o chefe) e Isabelle Huppert, a francesa algo turística que empunha sua Polaroid como quem pode desbravar o mundo.

Em torno desses quatro personagens e vários espaços em esvaziamento constante – essa sensação de fugacidade que deve prevalecer em cidades pequenas com enormes fluxos periódicos – o filme constrói, em discretas epifanias do banal, seu ritmo afetuoso e camerístico.

Não apenas pela irremediável mediação – o registro fotográfico quase autômato que, por ironia, confere à personagem de Huppert um status “artístico” e de observadora neutra – estamos diante de uma decupagem de poucos instrumentos, no qual o acaso tem papel fundamental (os encontros, o mistério das motivações mais íntimas, o efeito-saquê, entre outros elementos inesperados).

Por outro lado, o aparente arranjo “instantâneo” da mise-en-scène, a depuração minimalista dos planos, está longe de evidenciar uma falta de rigor formal. Ao contrário, amplifica a beleza e a placidez dos enquadramentos, mesmo os mais austeros, notadamente, por conta do naturalismo paroxista que alcança – acreditamos que o mundo, as pessoas, os sentimentos são dotados dessa graça inerente.

Hong Sang-Soo contrapõe à desilusão, ao sofrimento, ao caos dos relacionamentos humanos, uma espécie de “amortecedor” de cariz agridoce. Depois de umas doses de saquê (há sempre alguma bebedeira em seus filmes), os sentidos ficam alertas, sensíveis, e, ao mesmo tempo, mais afinados com os nossos desejos. É, provavelmente, o mais próximo que podemos chegar da harmonia; uma semivigília, a abstração ainda possível diante da realidade material. É quando completamos o “falso movimento” subjacente à nossa intransponível existência – uma autêntica arte da prestidigitação, transcendendo todos os tipos de gravidade.