Uma introdução

Fábio Feldman & Roberto Cotta

Ao criticarmos um filme, o que exatamente fazemos? Vaticinamos, reconstruímos, revisitamos nossas memórias? Salvamos a obra do desgastante fluxo da história? Soterramo-la sob torrentes de palavras? Ampliamos campos, interrompemos movimentos, configuramos novos gestos? Ao propormos um olhar crítico, quais parâmetros estabelecemos?

A revista Rocinante nascia há aproximadamente dois anos. De lá pra cá, muita coisa mudou. Mas um determinado aspecto nunca foi perdido de vista: o olhar sempre criterioso em relação aos filmes. Em comemoração a esse aniversário, preparamos um dossiê dedicado à reflexão sobre a atividade crítica e os critérios que ela nos oferece. Sendo assim, convidamos figuras com perspectivas diversas a elaborarem textos, de uma forma ou de outra, relacionados ao labor crítico.

Fábio Feldman e Nabil Araújo dividem, em dois ensaios complementares, impressões acerca da crítica enquanto construção epistemológica, elencando alguns de seus fundamentos e inconsistências. Roberto Cotta analisa a composição do pensamento crítico num cenário contemporâneo, evidenciando o estado de coisas que tem balizado os critérios de análise e a valoração dos filmes. Laís Ferreira Oliveira, por sua vez, examina o gesto político na crítica cinematográfica, a lógica dos festivais e o ofício crítico desenvolvido em tal contexto. Andrea Ormond, em relato caloroso, divide impressões acerca de sua carreira, sua formação cinéfila e suas predileções críticas. Carlos Adriano reflete sobre seu filme Festejo Muito Pessoal (2016) e, ao fazê-lo, contempla e examina aspectos da obra crítica de Paulo Emílio Salles Gomes. Sérgio Alpendre, partindo do último número da revista Cinéfilo, desenvolve um mapeamento da crítica portuguesa moderna e, consequentemente, do Novo Cinema Português. Por fim, em entrevista exclusiva, Jonathan Rosenbaum fala sobre seu trabalho e os respectivos critérios que ele propõe.

Esperamos que tais reflexões contribuam para que a crítica cinematográfica valorize cada vez mais os filmes e permita linhas de diálogo que favoreçam uma liberdade de pensamento e expressão. Boa leitura!