Trama Fantasma (2017), de Paul Thomas Anderson

“Antes que eu adoeça”

Odorico Leal

Em parte história de fantasmas, em parte conto de fadas, Trama Fantasma (2017), a mais recente produção do americano Paul Thomas Anderson, trata do temperamental e idiossincrático Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), celebrado alfaiate da alta classe europeia, operando em meados dos anos 50, numa Londres da qual mal temos notícia – em sua maior parte, o filme transcorre nos elegantes e claustrofóbicos interiores da Casa Woodcock, com algumas eventuais lufadas de ar frio pelo campo inglês.

A história é, em parte, de fantasmas, pois Reynolds vive numa espécie de luto não incapacitante: nunca superou a perda da mãe, que lhe aparece em espírito ou alucinação. “É reconfortante saber que os mortos velam pelos vivos. Não vejo nada de assustador nisso”, diz Woodcock à irmã, Cyril, misto de agente linha dura do alfaiate e temporária substituta maternal.  O elemento edipiano é bem marcado: Reynolds aprendeu com a mãe o ofício que lhe trouxe fama e riqueza; aos 16, teceu para ela seu primeiro vestido de casamento. A obsessão é tamanha que o personagem chega a costurar no forro do casaco uma mecha de cabelo da mãe morta, para tê-la sempre “perto do coração”.

A incapacidade de se afastar da figura materna condena o alfaiate a um desamparo infantil mal disfarçado, ao qual Reynolds se entrega regularmente, uma vez por mês, nos dias que passa de cama, deprimido e vulnerável. Contudo, compensa a orfandade por meio de uma personalidade tirânica, o que vale alguns diálogos deliciosos de humor irritadiço, destilado à mesa de café da manhã. O apego patológico à mãe revela-se ainda na recusa ao casamento: “Tenho certeza de nunca vou casar. Sou um solteiro convicto incurável”, diz à futura esposa, Alma, explicando que o casamento o tornaria “traiçoeiro”. A implicação é a de que, na eventualidade de um casamento, teria de conceder parte de sua autoridade à mulher: solteirão, sua vida pode ser consagrada aos seus próprios caprichos, sem necessidade de tramoias e falsidades. Um dos caprichos é, sem dúvida, a obsessão pela mãe.

É Alma quem leva Trama Fantasma para o território dos contos de fadas. Reynolds a avista servindo mesas num restaurante nos arredores de sua casa de campo. O interesse é imediato, e imediatamente correspondido. Poucos quadros depois, o alfaiate já está em seu estúdio, tomando as medidas da garçonete, numa das melhores cenas do filme: partindo de um erotismo romântico sutil, chega-se muito perto do abuso psicológico, quando a irmã, Cyril, entra no aposento e se põe prontamente a anotar as medidas de uma confusa e surpreendida Alma, interpretada por Vicky Krieps. Alma rapidamente se restabelece, numa primeira demonstração de resiliência que é a marca da personagem: seguidas vezes, ao longo do filme, ela compreende a real e incômoda natureza de sua situação, adapta-se instintivamente e ataca. De acordo com Cyril, Alma tem “as medidas perfeitas”; numa caminhada pela praia, Reynolds confessa que procurou por ela a vida inteira. Assim, de garçonete, a moça eleva-se ao papel de musa inspiradora de um dos mestres da alta costura europeia. Terá de lidar, contudo, com o temperamento ditatorial do benfeitor. E é aqui que o conto de fadas toma direções inusitadas.

“Não posso começar meu dia com um embate”, diz o narcísico Woodcock, à mesa do café, irritado com os modos barulhentos e respondões da garçonete. Não obstante, o filme a partir desse ponto é todo composto de embates, pois Alma recusa o destino das amantes anteriores do alfaiate – definhar silenciosamente num canto da mesa, mendigando amor e atenção. Disso surgem pelo menos duas cenas memoráveis: o jantar surpresa, que termina numa discussão virulenta, temperada pela perversidade –cômica, de tão infantil – do alfaiate, e a festa de ano novo, em que Reynolds é obrigado a resgatar Alma de um exótico baile felliniano.

O embate central do filme, contudo, é a estratégia maliciosa que vira o conto de fadas do avesso: nos jardins da casa de campo de Reynolds, Alma recolhe cogumelos venenosos, que prepara cuidadosamente e serve ao amado. Doente, à beira da morte, Reynolds vê o fantasma da mãe ainda jovem, mas quem lhe socorre e lhe traz de volta à vida é Alma, que assume as funções maternais, expulsando de cena a irmã Cyril. Esse é o grande trunfo do roteiro de Paul Thomas Anderson: a princesa aqui não é resgatada das mãos do tirano por nenhum outro príncipe; embora idolatre Woodcock, essa idolatria não oblitera seu amor próprio, e só lhe torna mais ávida a dobrar as circunstâncias a seu favor.

E, de fato, é isso que ela faz: tendo discernido as recorrentes quedas do alfaiate em estados de depressão, ocasiões em que ele se torna acessível e amoroso, Alma decide assumir a coordenação dessas crises de melancolia, servindo, primeiro secretamente, depois, ao final, com permissão do marido, refeições venenosas pontuais. Aqui o filme ganha um pouco mais de complexidade psicológica e se torna um prato cheio para os psicanalistas de botequim ou de revistas de cinema: é só por meio desses repastos sadomasoquistas que o relacionamento dos dois pode florescer num equilíbrio de forças; malgrado o patriarcalismo superficial, a postura autoritária e dura, Reynolds é apenas mimado e caprichoso, e, preso a um infantilismo insatisfeito e lutuoso, quer ser simultaneamente dominado e amparado, pois só encontra o gozo nesse estado de fragilidade absoluta – Alma, apesar da alcunha espiritual, na verdade empurra o alfaiate para uma experiência radical do corpo e da mortalidade, em que ele vomita e se desmancha de suor e febre, para ser novamente amparado como criança indefesa. A dinâmica é sintetizada por Alma: “Eu quero você no chão, indefeso, doce, acessível, sem ninguém para ajudá-lo além de mim. E, depois, quero você forte de novo.”

A sugestão, ao final do filme, é que Reynolds precisa de períodos de força, nos quais possa exercer sua vocação artística, e de períodos de fraqueza, que o tornem humano. Alma atuará nesse equilíbrio, não de forma subjugada, mas em seus próprios termos, pois ambos aceitam conscientemente uma dinâmica literalmente tóxica. O que, aliás, não deixa de oferecer aos tempos atuais uma lição rodrigueanamente iconoclasta: a natureza do amor é confusa e, não raro, apimentadamente doentia. Como Reynolds diz à Alma, depois de uma garfada de cogumelos venenosos: “Beije-me, garota, antes que eu adoeça”.