Sexo e zumbis na cidade que deu errado

 

Leandro Afonso

Em O Mito da Liberdade (2010), sua estreia no longa-metragem, David Robert Mitchell reprimiu e desiludiu seus personagens, deixando claro o interesse numa certa crítica ao mito, ali implicitamente ligado a John Hughes. No seu filme seguinte, porém, Mitchell assume, abraça e afaga o imaginário coletivo do horror americano. Se O Mito da Liberdade é um possível contraponto a Clube dos Cinco (1985), A Corrente do Mal (2014) demonstra fidelidade quase cega a Halloween (1978), o que nos leva à pergunta: o que há no filme de David Robert Mitchell que não há no filme de John Carpenter?

Em Halloween, existem pelo menos três passagens que ligam explicitamente Michael Myers a algo impessoal, a uma coisa. Na apresentação de Samuel Loomis (Donald Pleasance), o psiquiatra repetidas vezes chama seu paciente de it, minutos antes de frisar que “isso (Michael) não é um homem”. Quando Laurie (Jamie Lee Curtis) percebe que de fato está sendo acossada por Myers, ela diz que vai matar o boogeyman e ganha como resposta infantil um “você não pode matar o bicho-papão”. Nada ingênua, a criança é precisa: o boogeyman, o bicho-papão, o ser mitológico, não pode ser morto. O mito não tem fim.

Corrente Michael Myers

Em Halloween, após o assassinato de Judith Myers, presenciamos o de Annie, mesmo nome da primeira vítima em A Corrente do Mal. No longa de Mitchell, o mito recorrente vem travestido de DST sem cura, em releitura que beira a refilmagem estilizada. A principal vítima é a mulher, de preferência loira, sempre vulnerável. A busca por sexo eventualmente deve matar. O algoz é um ente querido: um namorado, uma mãe, um irmão. Numa sala de aula, a protagonista perseguida vê seu potencial assassino do lado de fora. Em casa, ela assiste a um filme de sci-fi em companhia da pessoa com quem, futuramente, vai transar. A música minimalista, com sons que remetem a teclados, se liga à memória sonora dos anos 1980. Tudo isso está em ambos, Halloween e A Corrente do Mal, sem tirar nem pôr.

Da mesma forma que Michael atormenta Laurie no desfecho de Carpenter, esta coisa tende a atacar Jay no clímax de Mitchell. A imagem potente da piscina de sangue não só é o equivalente do cartucho descarregado em Halloween, como existe graças a uma ideia tola e a dois tiros num vilão que, naquele momento, deu adeus à sua lógica interna e ficou menos crível. Tiros fatais têm prazo de validade ou só funcionam quando acerta um setor específico e milimétrico do rosto? Com tempo para pensar numa solução, a escolha da piscina estaria entre as mais plausíveis? Ok, faz parte, o que importa é a continuação do decalque na resposta à pergunta: a corrente morreu?

No último plano de A Corrente do Mal, acompanhamos Paul e Jay de costas, no que pode ser a visão subjetiva aproximada desse alguém que não sabemos quem é. Alguém que os personagens não enxergam, mas que nós espectadores notamos; pelo som em Halloween, pelo quadro anterior em It Follows. Alguém que parece nunca morrer, não importa quantas balas você acerte. A corrente Michael Myers.

Zumbi Michael Myers

Na cena subsequente à transa entre Jay e Paul (Keir Gilchrist), ele dirige por Detroit, onde enxerga o que parecem ser prostitutas. Elas são o emblema, ressaltado em câmera lenta, de uma sociedade cujos membros encontram no sexo, ao mesmo tempo, uma DST incurável e a única salvação. O impasse fica maior, no caso delas, porque o sexo é também o ganha-pão.

De volta à cidade que capta, Mitchell faz questão de mostrar uma riqueza com validade vencida, uma urbanização que deu errado, uma Detroit que, outrora próspera, hoje vai pouco além de um pobre e desgastado espectro de metrópole. Para a mise-en-scène de Mitchell, a degradação de quem vende o corpo é tão importante quanto a do entorno devastado. Mais cedo ele trouxe para um diálogo a 8 Mile, dividindo a cidade em duas: a menos e a mais perigosa. O subúrbio pacato da fictícia Haddonfield de Halloween é substituído por uma Detroit que recebe um marca-texto nas suas mazelas, no seu esfacelamento que foi dividido em nada suaves prestações nas últimas décadas. Uma cidade que deu errado.

Outro ponto, talvez até mais importante, diz respeito à forma do filme jogar com a tradição slasher e com parte da tradição do horror, onde transar ou querer transar é uma passagem comprada ao desencarne. A Corrente do Mal não só usa como intensifica essa ideia: fazer sexo é conseguir uma promoção, dois bilhetes pelo preço de um: a morte vai buscar você e o parceiro. Em contrapartida, o sexo é, simultaneamente, uma certidão de óbito e de renascimento. Ou pelo menos de uma sobrevida. A única maneira de escapar é transar com outro, que então passa a ser perseguido como você. Logicamente, contudo, se todos agirem assim, a resolução dessa conta tende a zero. Ninguém poderá fazer sexo impunemente, ou, bebendo o copo meio cheio, o sexo livre não tem consequências, já que todos estão perseguidos e agora pode-se transar sem a preocupação de transmitir uma DST mortal. Todos est(ar)ão contaminados.

Assim, transar não é mais (apenas) o caminho para a morte, transar é (também) o caminho para postergar a morte. Se fugir, você cansa ou enlouquece; se transar, você salva sua vida e assume o assassinato de uma outra. Não sobram muitas opções. Morrer sem saber que esse ente estava travestido de sua mãe para matá-lo? Ver um ente querido e ter que matá-lo para não morrer? Ser uma mártir e morrer sozinha? Assassinar para não ser assassinada (agora)?

A lembrança clássica natural é A Noite dos Mortos Vivos (1968). Em A Corrente do Mal, Carpenter predomina na superfície, na narrativa e na mise-en-scène, mas a piscadela do subtexto é para Romero. Há não (apenas) uma cópia do estilo de um e da crítica do outro, mas uma boa prole dessa miscigenação.