Pantera Negra (2018), de Ryan Coogler

O paradoxo Killmonger

Gabriel Martins

A San Diego Comic-Con é a principal feira de cultura pop dos EUA. Fundada nos anos 70, ela tem se tornado cada vez mais um ponto de encontro de amantes de quadrinhos, games, animes, filmes de super-herói e outros elementos da cultura nerd global. Um fervor particular existe nos encontros que acontecem no Hall H, espaço destinado a projetos de grande expectativa que, por ali, divulgam seus teasers, trailers, cartazes, equipes e elencos por trás dos filmes. Milhares de fãs passam horas e horas nas filas para ter o privilégio de receber, em primeira mão, qualquer informação ou experiência de seu entretenimento favorito. Para o gênero de filmes fantásticos, especialmente os de super-herói, os encontros neste espaço se tornaram termômetros fundamentais de catarse coletiva. Em 2016, no painel destinado à Marvel, houve um breve encontro com diretor e o elenco de Pantera Negra, filme que já havia sido anunciado anteriormente ao evento. É chamado ao palco Ryan Coogler, um dos roteiristas e diretor do projeto. Com a voz embargada de emoção, o cineasta diz que é fã de quadrinhos e que, em sua primeira Comic-Con, em 2009, sentou lá no fundo, bem atrás de todo mundo. Ele completa dizendo que é louco ter agora essa perspectiva diferente, sentindo-se feliz por estar no meio de “seu povo”. Logo depois, chama ao palco o elenco principal: Chadwick Boseman, Lupita Nyong’o, Michael B. Jordan e Danai Gurira. A reação do público é intensa, devido à energia vibrante de ver um universo tão amado trazido à tela. Algo ainda mais interessante acontece no lugar: não só podemos ver um elenco protagonista negro, como também temos a presença de um diretor negro desenvolvendo esse projeto de mais de 200 milhões de dólares investidos. Esta é uma imagem nunca vista naquele palco do Hall H.

Corta para mais de um ano depois, e Pantera Negra (2018) é uma das cinco maiores bilheterias domésticas da história do cinema – a maior de um filme de super-herói. E isto não é um sucesso acidental, pois não existem acidentes quando se trata da união Disney/Marvel. Em um dos trailers do filme, é executada uma versão remixada do clássico The Revolution Will Not Be Televised (1970), música de Gil-Scott-Heron, enfatizando os trechos “Você não conseguirá ficar em casa, irmão” e “A revolução será ao vivo”. Como uma espécie de convocação a um exército para comparecer às salas de cinema, todo o marketing do filme se deu em torno da ideia de que seria uma inédita representação de um super-herói negro. De fato, é empolgante ver adultos, jovens e crianças negras emocionados com esse espelhamento de heróis e heroínas, imagens de beleza e não de tristeza e sofrimento, como estamos acostumados a ver associadas a negras e negros representados em tela. Um fenômeno como esse se torna um ponto fora da curva e move, no mínimo, a auto-estima de um grupo historicamente mal representado na ficção. Ao mesmo tempo, esse mastodonte que é Pantera Negra não deixa de trazer os seus paradoxos dentro e fora do filme. Não se faz um filme tão caro impunemente e, justamente por essas nuances, que a obra se torna mais interessante ainda.

Reencontramo-nos com T’Challa (Chadwick Boseman) logo depois da morte de seu pai, T’Chaka (John Kani). O percurso que se dará agora é a transição do príncipe a Rei caso não seja desafiado em um duelo justo, sem a “interferência” do poder do Pantera Negra – dado ao protetor de Wakanda. T’Challa é desafiado por M’Baku (Winston Duke) e ganha, tornando-se o Pantera Negra. Neste meio, vamos conhecendo as outras figuras principais, todas encaixadas em tipos facilmente identificáveis e comunicáveis com o público: Okoye (Danai Gurira) é a general rígida que pouco sorri; Nakia (Lupita Nyong’o) é a ativista sonhadora e paixão de T’Challa; Shuri (Letitia Wright) é a irmã mais nova geek viciada em tecnologias; Ramonda (Angela Basset) é a mãe cuidadosa e conselheira; e Zuri (Forest Whitaker) é o sábio  de voz pausada e profunda.

Todo o elenco do filme sustenta fortemente as respectivas energias e potências já previamente antecipadas com todo o hype. Talvez, em um primeiro momento, tudo ali pareça até organizado demais. Se tratando de um filme da Marvel, em sua maioria de estruturas não muito distantes de pactos convencionais de um cinema narrativo (apresentação de personagens, viradas de roteiro, estrutura de três atos etc.), Pantera Negra não será nada diferente em seu modus operandi. Ryan Coogler, definitivamente, tem uma assinatura própria, sobretudo na direção de atores e em algumas cenas de ação. Toda a passagem do cassino, por exemplo, tem uma energia muito próxima dos pequenos momentos em plano-sequência de Creed (2015). No entanto, é inevitável perceber também uma espécie de diretor invisível – também chamado de supervisor de efeitos especiais –, que padroniza boa parte das grandes cenas de blockbusters contemporâneos. Uma pena vermos, novamente, o abandono de um outro tipo de cinema, mais orgânico e menos CGI, como o apresentado pelo próprio Coogler nas lutas de seu filme anterior. Em resumo, Pantera Negra joga com as formas mais convencionais de se narrar uma história, levando o espectador pela mão em seu primeiro ato e nos apresentando a um universo absolutamente mágico. Até esse momento, para além da obviedade de ser um filme de personagens negros, sentimos estar vendo algo muito próximo de importantes franquias desse universo fantástico como Senhor dos Anéis, Star Wars ou Thor. Nada, até então, nos surpreende tanto, principalmente para quem já tinha visto os trailers. A cada plano, uma nova proposta de encantamento, uma nova imersão a algum detalhe do universo cuidadosamente construído pelo filme e um ritmo de apresentação que nos faz querer estar ali e viver aquela fantasia.

De repente, entra na história Erik Killmonger (Michael B. Jordan), e nada será igual a partir daí.

Em sua primeira cena, no Museu Britânico, o jovem de jaqueta cool e óculos redondos finos questiona uma curadora, branca, sobre os artefatos ali presentes. Enquanto toma seu café, ela apresenta um a um, contando suas origens – em todos os casos de países africanos. É mostrado um machado que Erik diz não ser de Benin como a curadora falou, mas de Wakanda – e completa dizendo para ela não se preocupar: ele retirará o elemento de lá. A curadora, estranhando a colocação, diz que os itens não estão à venda. Erik responde: “Como você acha que os seus ancestrais pegaram isso? Acha que pagaram um preço justo ou roubaram como todo o resto?”.

A partir desse momento, o filme cria um bom problema para si. Acabou de nos apresentar o seu vilão com a mais justa das frases e um bom argumento. Antes de tudo, é importante ressaltar como é bonito ver a parceria de Ryan Coogler e Michael B. Jordan dar um passo adiante a cada filme. Algo bastante natural parece acontecer entre ambos, as palavras de Ryan fluindo naturalmente na fala de Michael e um tom de emoção e sinceridade a cada cena que parece nos sugerir que é ali onde o diretor se sente mais confortável – e onde extrai seus melhores momentos. Erik, neste mesmo instante, diz à curadora: “Você mandou seus seguranças me seguirem desde que eu entrei aqui, mas não prestou atenção no que colocou dentro do seu corpo”. A mulher cai, envenenada, e daí segue a narrativa do assalto. Tal fala, obviamente, não teria o mesmo peso, em nenhuma forma e aspecto, caso fosse proferida por um homem branco. Ryan Coogler e Joe Robert Cole (o outro roteirista) ensaiam, a partir daí, um modo interessante de “dar a real”.

Neste texto, quero me ater a esse elemento paradoxal do vilão e herói. Para isto, obviamente serão colocadas questões essenciais da trama, incluindo o final do filme. Em algum momento será revelado, em uma boa virada narrativa, que Erik e T’Challa são primos. T’Chaka matou N’Jobu (pai de Erik), seu irmão, pois ele traficou tecnologia de Wakanda para fora do país, o que é considerado traição. Eis a polaridade dos planos: de um lado, Erik, que quer usar a tecnologia de Wakanda para armar as populações negras do mundo para a revolução; do outro, T’Challa, que não acredita em extremos e quer uma liderança moderada, que ouve todos os lados e contém a anarquia. T’Challa teve uma criação romântica, no paraíso de Wakanda, cheia de privilégios. Erik teve uma infância difícil nas quebradas de Oakland, perdeu o pai cedo e construiu sua filosofia-dinamite a partir do lado treta da vida.

Essa dicotomia do “caminho do bem” e “caminho do mau”, de uma forma ou de outra, sempre esteve presente na cultura negra norte-americana. Há um show de stand-up de Chris Rock, feito em 1996, chamado Bring the Pain, em que ele pergunta: “Quem é mais racista? Os brancos ou os negros?”, no que responde: “Os negros, pois odiamos os negros também”. Em seguida, ele faz uma oposição entre “Black people” e “niggas”, dizendo que os “niggas” têm que sumir, pois não é possível mais “Black people” se divertirem sem os “niggas” para estragarem tudo. Chris está falando aí, também, de rap ostentação (Lil John, Migos) x rap consciente (2 Pac, Kendrick Lamar), de comédia de escracho (DEF Comedy Jam) x comédia de crítica (ele próprio) e, de alguma forma, de institucionalização x freestyle. Obviamente, essas linhas e polaridades nunca são tão claras e, principalmente hoje, se misturam e se cruzam de várias formas. O hip-hop norte-americano, atualmente, encontra sua maior gama de cores em toda a história e é o estilo musical hegemônico, não mais guetificado, rendendo fortunas e impérios a vários artistas – muitos deles como Jay-Z e Dr. Dre, jovens que eram exatamente o que Erik Killmonger era: um “caso perdido”.

Lembrei do rap para pensar esses personagens do filme, pois acho mais interessante se estudar esses caminhos ligados ao heroísmo e à vilania. Pantera Negra traz como protagonista uma realeza negra aos moldes norte-americanos numa época em que, de fato, temos uma pequena “realeza negra” norte-americana, com certa influência midiática – basta perceber o número de séries e filmes com a temática nos últimos anos em plataformas como HBO e Netflix, os prêmios no Grammy e o número elevado de vendas de obras realizadas por artistas negros –, mesmo estando ainda anos distantes de uma justa representação e poder. Ao mesmo tempo, casos de brutalidade policial, assassinatos, guerras de gangues, racismo e desigualdade social são parte cotidiana da história do país. Inclusive, essa disparidade apenas reforça a crueldade do capitalismo e a mentalidade meritocrática da política americana. A pouca presença de negros em proporção na história do cinema americano nos apresenta o problema de maneira muito clara. Em um país-sede de importantes eventos de premiação e competição, valorizam-se intensamente histórias de superação e o trabalho duro com a falsa ideia de que o esforço se recompensa.

Um caso interessante é o do já citado Jay-Z. Na sua adolescência, tentando entrar no mundo do rap, o jovem traficava crack nas ruas do Brooklyn e de Nova Jersey. Em certa ocasião, foi convidado por um amigo, o rapper Jaz-O, para uma viagem para Londres, com o intuito de gravarem um disco. Durante essa viagem, que aconteceu no decorrer de dois meses, uma operação prendeu basicamente todos os amigos de Jay-Z. Foi a sorte de estar no lugar certo e na hora certa que salvou a vida do artista. Claro que podemos pensar o fator “sorte” como algo comum para todos nós, mas me parece evidente que num país de extrema competitividade, dominado pela cultura branca, o jogo a se jogar para ascensão é duro e cruel, um reflexo de uma história de escravidão e políticas públicas, como as leis de Jim Crow, que empurram as minorias em desvantagem para situações limite de sobrevivência. Não existem bases de apoio para as camadas mais pobres obrigadas a jornadas de trabalho duras aguardando sua grande oportunidade na vida.

Ryan Coogler é fruto dessa história, um dos vencedores, e propõe dois caminhos no seu filme. O que parece bastante torto é um impulso de acreditar verdadeiramente na honestidade dos argumentos de Killmonger e, ao mesmo tempo, transformá-lo com esforço em uma figura pouco razoável. No fim das contas, trata-se do melhor vilão de filme de super-herói possível, pois é exatamente alguém com quem podemos nos relacionar e esperar certo tipo de movimento diante de uma constante reafirmação e renovação cínica do sistema capitalista diante dos problemas do mundo. O plano de T’Challa e sua atitude final de abrir um centro em Oakland soa como algo razoável na superfície e na construção deste herói ponderado, mas, no fim das contas, espelha um dos piores gestos norte-americanos no mundo – a constante necessidade de impor modos de vida em lugares mais pobres. Curioso que isso se dá no sentido inverso, de fora dos EUA para dentro, mas a ideia de corrigir o surgimento de novos Erik Killmongers nos deixa espaço também para questionarmos o quanto essa estrutura de poder da qual se ergue o ídolo Pantera Negra não é algo também perverso e opressor.

No terceiro ato, o vilão desafia T’Challa e ganha dele facilmente, atingindo o trono. Algo interessante acontece aí, pois é um momento em que se coloca em crise o próprio sistema que compõe toda aquela sociedade. Todo o entorno é levado a questionar até que ponto essa sistemática vale quando passa a beneficiar um modo de olhar que não o seu próprio. Erik nada faz além de se valer das próprias regras do sistema para adentrá-lo, distorcê-lo por dentro e transformá-lo para o seu próprio gosto. Ele é, no fim das contas, um sabotador. O diretor sabe disso e parece travar uma batalha entre trazer essa experiência sincera de mundo e, ao mesmo tempo, tocar uma superprodução Disney/Marvel de corpo palatável a uma massa gigante de espectadores ávidos por entretenimento. O caminho fácil, neste caso, é fazer do ego do personagem o catalisador de um fascista – sendo as cicatrizes em seu corpo a prova maior de sua perversidade – que demanda uma eliminação inevitável. Por fim, não há espaço para a real quebra do sistema, pois o agitador foi, enfim, eliminado. Ao tentar não espelhar seu pai, T’Challa traçou um caminho igual em busca de manter a ordem. Essa ferida é aberta, de modo que uma potência se anuncia a partir da crise do significado do poder. No meio do caminho, temos um Agente da CIA visto como um nobre herói; um romance (T’Challa e Nakia) que é obrigado a se concretizar; e um final que abre espaço para algum tipo de esperança, aos olhos de grande parte dos espectadores.

Na luta final, T’Challa fere Killmonger de maneira fatal. Agonizando, o vilão é levado para morrer observando o pôr-do-sol de Wakanda, lugar pintado por seu pai como o mais lindo que já viu. T’Challa se oferece para curar Erik, no que ele responde: “Para quê? Para você me trancar? Não. Me enterre no oceano junto com meus ancestrais que pularam dos navios. Eles sabiam que morte era melhor que aprisionamento.” Este momento, o mais belo do filme, resume a contradição das escolhas narrativas de Ryan Coogler e também a beleza de como isso pode revelar um processo interno do autor. Erik fala com T’Challa como se ele fosse um homem branco. Ele expõe a hipocrisia e consegue, inclusive, sair por cima – pelo menos no duelo representativo, tendo a morte como a dignidade maior (ele retira a faca de si, em ato semelhante a um harakiri). Parece estranho, nesse momento, que o mesmo autor que faça esta cena acredite também em um discurso edificante sobre a união entre os países das Nações Unidas no final do filme. Se em Corra!(2017), Jordan Peele pinta uma imagem honesta de uma conciliação muito distante, dado o abismo aberto por sutis e grosseiros gestos de racismo, Pantera Negra resume seu desfecho em uma quase-utopia mal resolvida, na qual Wakanda/EUA são a salvadora de todos – quando sabemos da complexidade cada vez maior dos impasses da política global que a realidade nos coloca, trazendo, inclusive, o significado acerca das superioridades militares e tecnológicas no mundo de hoje.

Com todas as suas pulsantes contradições, é bonito ver Ryan Coogler se aventurando neste território do desconhecido e saindo dele com tamanho sucesso. É um desafio da contemporaneidade lidar com tais temáticas a partir do momento de crises e tensões de representação e uma massiva incorporação cínica de discursos pelo poder hegemônico a todo momento – a propaganda da Pepsi com Kendall Jenner como o exemplo máximo disso. Vale a pergunta também sobre os motivos pelos quais nos debruçamos tão apaixonadamente sobre um filme da Marvel, quase o tratando como revolucionário, quando, por exemplo, a Nigéria já está filmando cinema de gênero com negros há muito tempo. Temos que nos perguntar se a exaltação exacerbada desse “cinema negro” produzido pela Disney reforça ou não uma cultura excessivamente centrada nos exemplos norte-americanos de visão de mundo, eliminando, mesmo indiretamente, expressões que rivalizem ou, pelo menos, disputem essa condição de construção narrativa. Como disse anteriormente, não se faz um filme caro como esse impunemente, e também não se faz mais de 1 bilhão de dólares com apenas boas intenções. Pantera Negra, então, pode ser entendido como um filme único para ser visto e revisto, poço de potências ainda a serem entendidas. Nos próximos anos, com mais distanciamento, será importante voltarmos a essa obra para entendermos como ela se inscreve no momento histórico em que estamos vivendo.