Entrevista com David Nicholas Wilkinson

Douglas König de Oliveira

(Tradução e edição: Fábio Feldman)

Em que lugar teria surgido o que conhecemos hoje como Cinema? De acordo com muitos historiadores e críticos, as exibições públicas dos irmãos Lumière em Paris e a produção de filmes nos estúdios de Thomas Alva Edison em New Jersey marcaram o nascimento de uma nova expressão artística – e também de uma indústria.

David Nicholas Wilkinson é um cineasta, produtor e ator inglês, nascido em Leeds, Yorhshire, na Inglaterra. Sua cidade abrigou um francês chamado Louis Le Prince que, em 1888, realizou uma séries de fotografias animadas, diferentes das cronofografias de Marey e Muybridge: tratavam-se de registros que cristalizavam a vida e o mundo de maneira inédita, com imagens vivas e dinâmicas.

Porém, até recentemente, Le Prince não figurava de forma unânime no panteão dos grandes inventores do cinema. Em seu documentário, The First Film (2015), Wilkinson resgata os fatos e instrumentos relacionados a esta figura enigmática da historia do cinema para defender que, na verdade, Le Prince antecipou o nascimento de tal arte em vários anos. Tendo realizado uma pesquisa que durou mais de três décadas, Wilkinson conversa com a Rocinante sobre alguns pontos fundamentais de seu trabalho.

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Quais foram as maiores dificuldades que você teve durante a realização de seu documentário? Além disso, o controverso papel de Louis Le Prince dentro da “história oficial” do cinema lhe motivou ou desencorajou em algum ponto do processo?

A princípio, ninguém acreditou na história que eu tinha para contar. Antes da internet, não havia praticamente nada disponível sobre Le Prince. Mesmo quando comecei a fazer o filme, havia pouquíssimo material para pesquisa. Pelo fato de ninguém acreditar, eu não conseguia financiamento. Precisei colocar o projeto em segundo plano muitas vezes.

Minha motivação sempre foi provar que o primeiro filme já feito foi filmado em minha cidade de nascimento, Leeds. Se Le Prince tivesse feito seu filme em, digamos, Bradford of York, não tenho certeza se eu teria encarado a empreitada. Tivesse sido feito em Nova York ou Paris, eu certamente não teria.

O nomadismo de Le Prince serviu, de alguma forma, como barreira para o reconhecimento de seus filmes (os franceses reivindicaram os Lumière como criadores do cinema, os americanos fizeram o mesmo com Edison, os alemães com os Skladanowsky…)?

Em uma cena que filmei, mas acabei não incorporando ao filme, eu defendi que a razão pela qual Le Prince não é mais amplamente reconhecido é porque se tratava de um cidadão americano nascido na França, cujos filmes foram feitos na Inglaterra. Assim, nenhum país o reivindicou. Até hoje, há muitos na França que não acreditam que sua história seja verdadeira.

Parece claro o quão mais plasticamente atraentes, brilhantes e dinâmicos Roundhay Garden Scene (1888) e Traffic Crossing Leeds Bridge (1888) são em comparação a certos registros posteriores, como Monkeyshines n.1 & 2 (1890) de William Dickson. Como Le Prince atingiu esse nível de excelência?

Bem, em primeiro lugar, lembre-se que os filmes de Le Prince não existem. O que temos são fotografias de cada frame tiradas na década de 30. Se isso tivesse sido feito com as obras de outros pioneiros, acredito que alguns de seus filmes pudessem também conservar uma melhor aparência.

Dito isso, outros antecessores precisaram adaptar seus “filmes” porque eram apenas fotografias. A câmera de Le Prince podia gravar a vida real. Ele não precisava “adaptar”, suas criações em nada remetiam a cronofotografias. Ele, realmente, podia capturar um momento real no tempo, como fez na Ponte de Leeds. É isso que faz dele o inventor da primeira câmera.

Você acredita que as circunstâncias por trás da morte de Le Prince ajudaram ou dificultaram a apreciação de seus filmes e a compreensão da real importância de seu trabalho?

Apesar de todas as extravagantes teorias, o desaparecimento dele foi o que o tornou conhecido. Caso tivesse vivido, mas outros houvessem se aproveitado de seu trabalho, ele teria se tornado alguém como Wordsworth Donisthorpe, também de Leeds e o responsável pelo segundo filme feito, London’s Trafalgar Square (1890). Donisthorpe não é lembrado ou celebrado em absoluto. A propósito, acredito que Donisthorpe dividiu com Le Prince a ideia de um “moving picture”, mas não posso provar essa asserção.

Hoje em dia, Le Prince é amplamente reconhecido como um dos grandes inventores do cinema. Muito desse reconhecimento nasceu em função das pesquisas que você iniciou durante a década de 80 e do lançamento de seu extraordinário documentário, The First Film. Dito isso, o que você acha do trabalho de outros pioneiros como Wordsworth Donisthorpe e Étienne-Jules Marey?A história acabou ou há espaço para novos desdobramentos?

Não tenho certeza se Le Prince é amplamente reconhecido como um dos grandes inventores do cinema. De qualquer modo, toda pesquisa feita acerca de seu trabalho tem a mesma fonte primária: um panfleto assinado por E. Kilburn Scott. Qualquer um que já tenha pesquisado Le Prince usou Scott como ponto inicial. Esse material sempre esteve disponível na Biblioteca Central de Leeds e poucas pessoas se depararam com aspectos novos da história que não estejam lá. O trabalho feito por Christopher Rawlence, “The Missing Reel” (que nunca li, pois queria fazer minha própria pesquisa e chegar a minhas próprias conclusões), não menciona Donisthorpe, por exemplo.

A única coisa que eu realmente descobri e que ninguém havia notado antes é que os personagens de Roundhay Garden Scene se movem para trás no começo do filme, levando-me a pensar que Le Prince estava jogando com as imagens e, portanto, já possuía alguma familiaridade com aspectos da forma fílmica. Assim, acho que ele filmou algo em Leeds antes de Roundhay.

Finalmente, o trabalho de Marey não tinha a ver com cinema. Ele criou uma série de fotografias. Donisthorpe, um homem bastante desagradável, foi, sim, muito importante para a história.

Quais foram as consequências comerciais de Le Prince não ter obtido as patentes de sua câmera de lente-simples nos Estados Unidos, de seu projetor de três lentes e do carretel em celulóide, tendo-se em mente as patentes posteriormente obtidas por Edison?

Difícil responder. Os pioneiros raramente fazem dinheiro. O inventor Trevor Bayliss morreu poucos antes atrás. Ele não ganhou quase nada pela criação do “rádio à corda”. Muitas outras pessoas geniais também se deram mal.

De acordo com seu documentário, Le Prince criou, entre 1888 e 1890, a maioria dos artefatos técnicos que permitiram ao cinema tornar-se o que se tornou. Com toda a evidência acumulada, não seria o caso de críticos e historiadores passarem a se engajar num processo de revisão histórica? Por que tantos de nós ainda optamos por imprimir a lenda ao invés dos fatos?

Aqueles que têm dinheiro reescrevem a história. Olhe para o Steve Jobs: homem brutal, ganancioso e egoísta que sabia pouco sobre computadores, nunca inventou nada, mas é visto como um gênio. Ele não era! Homem horrível… Bill Gates é um bom homem, mas não é visto como “cool”, do mesmo modo que Jobs… A História é escrita para encaixar a pessoa que a conta. A verdade completa é, geralmente, deixada de fora.

Durante a fase final da produção de seu filme, você encontrou uma carta explosiva. De acordo com ela (embora não haja nenhuma evidência segura de que seu conteúdo seja verdadeiro), o berço do cinema pode não ter sido aquele que a maioria de nós acredita ter sido. Você poderia nos explicar esse caso?

Você precisa entender como, inicialmente, abordei o filme. Eu só queria compreender os elementos básicos da história antes de começar a filmar. Nada mais. Meu desejo era aprender à medida que filmasse, me valendo, sobretudo de takes únicos (há 42 cenas que foram apenas “one take scenes”). É por isso que, em várias, eu pronuncio certas palavras errado, não finalizo frases, entendo as coisas equivocadamente – apenas takes únicos.

Irfan, que co-escreveu o roteiro comigo, estava sempre lá para me supervisionar e não permitir que acabasse caindo numa rua sem saída. Ele descobriu a carta uns três anos antes de mim. Eu a encontrei exatamente quando disse que a encontrei. Alguns queriam que eu não a incluísse no filme, pois enfraqueceria meu caso. Mas eu tive que a incluir. Apesar de tudo, tratava-se de uma investigação.

Estou seguro de que Le Prince filmou algo em Nova York, onde morava em 1882. Não acho que tenha usado filme propriamente, pois o que ele captou em Paris, em 1887, não era composto por tal material. E não há evidência que ele tenha retornado a Nova York depois disso. Mas acredito que algo tenha sido, de alguma forma, filmado.

Após esse período, creio que foi para Leeds e passou todo seu tempo trabalhando em sua câmera de lente-simples. Ele pôde, muito bem, ter feito vários outros filmes lá… Mas nunca saberemos. Eis a vida. Eis a história.