Matador Implacável (1975), de Luigi Cozzi

O operário da morte

Adolfo Gomes

É preciso ter escrúpulos para se escrever sobre uma obra-prima. Ao leitor, permita-me o desejo de que já tenha visto este Matador Implacável (1975) – e desde já sejamos cúmplices de tal prodígio. Ou, se ainda não conhece, que o encontro com o filme de Luigi Cozzi seja o mais breve possível.

Quando menciono escrúpulos, não me refiro à exigência pragmática (e algo paranoica) de manter o segredo, de guardar discrição sobre qualquer aspecto e eventuais surpresas da trama – precaução que não nos absolveria de nada!

Pode um crítico – e é comum isso – descrever, nos mínimos detalhes, um filme sem dele tocar sequer a superfície da sua poética. Devemos reconhecer: é trabalhoso partir sempre das aparências, do mundo exterior, no curto espaço-tempo que dura uma obra; e diante desse desafio projetar algo que dê conta de uma pequena parte (já podemos nos contentar), de tudo visto e originado na tela até o final da duração objetiva da obra.

Os portugueses batizaram de “O Segredo por trás do Segredo”, a primeira retrospectiva dedicada ao francês Jacques Rivette em Lisboa. Apropriada assertiva para resumir meu intento com esta espécie de carta-homenagem endereçada a Cozzi.

Nome oculto e obliterado da grande viagem do cinema italiano, relegado aos derradeiros vagões da historiografia convencional, Cozzi mantém, apenas, como traço de reconhecimento e humilde notoriedade, sua amizade e colaboração com Dario Argento. É só.

Mas Luigi Cozzi, se não tivesse sequer um cêntimo nos bolsos, bastava-lhe dos seus pertences apresentar Il Ragno, para que, de nossa parte como espectadores, despontasse uma fortuna. Que filme!

Godard sempre celebrou “os conquistadores” do mundo, não pelos feitos territoriais e ilusões de controle material dos desígnios do homem, pela imposição da força. Para Godard a conquista – a única duradoura e legítima – é a construção de uma memória comum, que possamos acessar e nos abrigar nos momentos de desespero, ao sentir os escombros dos nossos projetos de organização do meio que nos cerca (a mise-en-scène), começarem a irromper sobre nossas cabeças.

Consolidar uma memória que poderia ser transmitida de geração para geração, como gesto ancestral: caberia ao cinema isso? Se continua incerto afirmar que sim, há, de qualquer maneira, a hipótese. E se existe essa possibilidade, é por causa de filmes como Matador Implacável.

Quem não viu, pode zombar, reagir: “É exagero!”. Porém, respeitosamente, me concedam, uma vez mais, conjurar “o segredo por trás do segredo”, que impulsiona esse assassino monocórdio, pacífico e resiliente, do qual não podemos, em momento algum, atribuir-lhe o “pathos” de sádico ou psicopata. Talvez, com maior propriedade, possamos considerá-lo um operário, operário da morte.

Flagrado num momento de transgressão (o prazer de matar para o seu próprio deleite, incólume e livre das demandas externas), atacha-lhe a um homem (testemunha) disposto a se livrar da esposa. Então, ele, o “killer”, é, novamente, tragado pelas forças econômicas e de poder, agora sem a menor possibilidade de gozo. Tem que matar de novo, a mando de outros, às ordens do mundo que lhe encerra nos seus ardilosos acasos.

Há uma sequência exemplar da dimensão concreta dessa tragédia arquetípica: o paralelismo assombroso entre a violação da namorada de um jovem galanteador e o sexo casual do rapaz com uma loura apanhada à beira da estrada, após a pane do seu carro. A cada plano do frívolo recém-formado casal, um contraplano do estupro, sobretudo, do rosto do violador a reforçar e por em marcha a mecânica demoníaca detonada de forma aleatória (os carros, sempre os carros, submersos ou roubados).

Que este filme surja, conciso nas teias que enreda seus personagens, no pleno apogeu dos Gialli italianos, na seara dos filmes de gênero (tão aviltados pelas leituras simbólicas/semióticas ou pelas tentativas de decupagem artística); é demonstração do vigor e da transparência preservadas nesses “excluídos” da boa consciência cinéfila.

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Subversão

Deve-se considerar, num primeiro momento – como era intrínseco à natureza do cinema popular italiano da época (além dos gialli, os spaghetti westerns, as fitas policiais – poliziotteschi – e as comédias eróticas) – a prevalência do modelo norte-americano; mais associado aos anos 1950, do que a então Nova Hollywood em vigor. No entanto, essa espécie de mimetismo “mercantil”, no fundo – e na forma – provou-se extremamente subversivo na sua antropofagia “tricolori”.

O ritmo compassivo do assassino, a tentar impor sua cadência ao mundo, é outra das linhas de força do filme de Cozzi – e também instrumento da dialética de resistência do personagem a essa apropriação industrial, portanto veloz (a linha de montagem), da sua força de trabalho (matar).

O título original, Il Ragno (para além da “tradição gialli” em usar nomes de animais e até insetos nos seus genéricos), não evoca somente a rede fatalista tecida contra as vítimas dessa aceleração mortífera dos “tempos modernos”; acima de tudo, é um correspondente ambiental: a aranha se desloca pelo seu meio dentro de um paradoxo curioso; constrói lentamente seus caminhos e pontes com outras superfícies para lhe garantir a subsistência, porém, por assustadora e sorrateira que seja; em geral, ela é presa da sua própria parcimônia, diante, sobretudo, do seu irremediável caráter artesanal.

Assim, se a lentidão do matador de Cozzi, no âmbito da fauna do cinema de suspense e terror, antecipa/prepara a nossa sensibilidade para “os passos” de Michael Myers (Halloween, 1978) e Jason Voorhess (Sexta-feira 13, 1980), o desfecho dessa sistemática da morte é, radicalmente, diverso: enquanto seus pares norte-americanos, na serialização dos filmes, vão adquirindo traços cada vez mais sobrenaturais; o assassino à la italiana é, logo, logo (por sua latente e preservada humanidade) aniquilado.

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Enfim, eis-me aqui, no último parágrafo, no meu último esforço de evitar – pelo acúmulo de detalhes da narrativa e no desvelo das cenas – restringir a amplitude da experiência proporcionada por Il Ragno. A meu favor, requisito a irmandade e compreensão, infundida pela memória coletiva daqueles que já foram tocados pela encenação de Cozzi. Aos que não viram Matador Implacável, deixo um conselho/constatação do Mefistófeles, de Goethe: “A vida é curta e muito longa a arte”.