Lucky (2017), de John Carroll Lynch

Expulsos do Paraíso

 Adolfo Gomes

É, irredutivelmente, do mundo material que emerge a poética de Lucky (2017). Não há, aqui, nada além da natureza e dos homens, nem sequer a morte dá as caras. Calhou de ser o último filme de Harry Dean Stanton, mas está muito, muito longe de ser uma mera despedida/homenagem.

Antes de qualquer coisa, o cineasta John Carroll Lynch (ator de formação) evoca, através da rigorosa observância aos mínimos movimentos dos seres e da paisagem, um sentimento quase físico da permanência. Para isso, se vale, entre outros recursos, de uma estrutura narrativa coral; toda ela conjurada, tão somente, pelas vozes e corpos dos atores – e também pelas perseverantes presenças dos cactos e de um cágado (coetâneos do mesmo buraco da terra, conforme assinala, com discreta melancolia, o personagem de David Lynch).

Essa ontologia realista nos faz lembrar o que dizia Howard Hawks, outro grande cineasta materialista, a respeito do uso dos flashbacks no cinema: “Se você não é capaz de contar uma história diretamente, então você não é, com efeito, um bom realizador. Os flashbacks não me parecem necessários. Eu posso contar um flashback em um par de palavras e conseguir que o público saiba o que aconteceu antes”.

É bem o caso de Lucky, um filme permeado de reminiscências, relatos curtos e sutilmente epifânicos, de uma imanência impressionante (“the realism is a thing”). Mas se o princípio hawksiano reverbera na opção formal de Carroll Lynch, a placidez do cinema clássico, sua fluidez, já não é mais possível – e disso temos prova: há um jardim interditado, o Éden do qual fomos expulsos por volta dos anos 1960, que Dean Stanton/Lucky amaldiçoa a tantas, para só no finalzinho da sua trajetória diegética oferecer um olhar resignado.

Sabemos que o filme foi escrito a partir das conversas e pensatas ocasionais do próprio Stanton com os roteiristas da obra. De modo que não seria, de todo, um desatino relacionar o desencanto comovente da sua verve, com a gradativa imposição da realidade, da derrisão, do irremediável esgarçamento do gesto, em si, de contar histórias, como outrora se podia fazer por meio das metáforas – o realismo utópico da era de ouro de Hollywood (“bigger than life”).

Em última instância, tanto para nós, quanto para Stanton, foi como um Paraíso Perdido, do qual só restou o vazio.

Por sorte (nossa), Carroll Lynch preenche essas lacunas com a carnalidade que preservamos. Faz um filme autônomo, para além da persona que Stanton consolidou ao longo das décadas. Na viagem que propõe não há deslocamento/busca, estamos todos num círculo e já a milhas, por exemplo, de Paris, Texas (1984) ou História Real (1999) – dois filmes seminais da sua carreira.

De cuecas e sem camisa, destituído da menor ilusão sobre o controle do tempo, não temos um personagem, nem necessariamente o ator. Temos o homem. Quantos filmes, hoje, nos entregam tanto? Uma beleza assim, “drenada de qualquer sentimentalismo” – para citar o comentário do crítico Calac Nogueira sobre o estilo de William Friedkin, que aqui podemos aplicar com igual justeza?

E, sim, a morte é iminente, para qualquer um, para qualquer arte. Deixemos, no entanto, por ora, ela continuar fora do quadro e apreciemos, com a cumplicidade de Stanton, um cacto se erguendo até o céu para, fora do alcance de nossas mãos, começar a florir. Há de nos bastar. É tudo o que teremos da terra. É, apenas, uma das forças que emanam desse extraordinário filme terreno.