Confronto no Pavilhão 99 (2017), de S. Craig Zahler

Descida aos infernos

Adolfo Gomes

Se acreditamos na dimensão física – tátil mesmo – do cinema, então Confronto no Pavilhão 99 (2017) é como a própria musculatura exposta desta arte. Nada escapa à retidão material de S. Craig Zahler. O cineasta norte-americano retesa cada fibra do filme com acachapante objetividade. É um trabalho volumoso, que se ergue sobre nós, em constante operação de encarceramento.

A história de amor que principia a queda, a descida aos infernos (a cela 99), é desidratada de qualquer idealismo. Um casal em ruínas quer reconstruir sua morada em outro lugar, ter um filho e continuar a vida juntos, a despeito das cicatrizes que vão levar consigo, sobre os corpos. Se há afeto ali, só pode ser infundido nos gestos exteriores – “afaste-se de mim, me dê um tempo, por enquanto”, diz Vince Vaughn a Jennifer Carpenter, após a reconciliação.

Para confiar nesse homem não será preciso fé, nem empatia. Sua integridade parece prescindir da usual composição dramatúrgica, vem de antes, do seu movimento em cena. O personagem é algo rude, intransigente, inarredável. Ao longo da narrativa, vai fundamentar em gestos (e em pouquíssimas palavras), o tipo de amor que tem a oferecer – e a defender. Do tipo capaz de gerar outra vida e garanti-la vir à luz à custa de si mesmo, da sua aniquilação na treva.

O automatismo de Vaughn, porém, não o isenta de cumprir a via-crúcis do herói trágico, nem o afasta do declínio e perdição. Cabe-lhe cerrar os punhos e fazer correr, entre socos e pontapés, as engrenagens da violência. O que, nesta altura, já lhe é também tudo que resta.

Ecologia vigorosa essa em que metal, vidro, sangue, osso, eletricidade e carne convergem para um vácuo inescapável; alinhada entre a tradição cinematográfica ateísta de Arthur Penn, Rafaelson e Siegel, e o ascetismo de Bresson e Dreyer – quaisquer desses polos, registre-se, não admite evasão.

Confronto no Pavilhão 99 pode ser visto, no seu entrecho gore, como um filme de horror, a serviço da premissa fulciana de que a alma não passa de um engodo (onde ela está, ao fim dos trabalhos de mutilação?). Mas, é, sobretudo, um filme de prisão, que estreita, estreita, até afundar-se num buraco abissal. No fundo dele, vislumbra-se a silhueta de um prisioneiro. Não é Kurt (Apocalipse Now (1979)): “Terás um filho, estás salvo!” É a promessa que ouve. Existe prova maior de vida? Pode existir algo mais materialista?