A Trilogia dos Animais

Beatriz Saldanha

Trilogia dos animais é como ficou conhecido o conjunto composto pelos três primeiros longas-metragens realizados por Dario Argento. Pássaro, gato e mosca aqui não possuem um significado literal, mas funcionam como representações alegóricas essenciais para a resolução dos crimes que figuram em nestas obras. Tal recurso é comum em narrativas de mistério, já que provoca curiosidade e instiga, de modo intenso, seus espectadores. Sendo assim, é importante salientar que essa ideia é um ponto de partida fundamental para a cinematografia de Argento, cujos filmes se assemelham a um jogo no qual somos peça fundamental.

De forma geral, a trilogia segue a fórmula tradicional dos gialli estabelecida por Mario Bava em Olhos Diabólicos (1963), por sua vez, baseada na cinematografia hitchcockiana: uma pessoa comum – frequentemente um turista em um país estrangeiro – se envolve em uma trama de assassinato e precisa resolver tudo por conta própria. A premissa remete a diversos filmes de Hitchcock, mas em especial O Homem que Sabia Demais (1956). Tal influência é evidente desde o primeiro filme da trilogia, O Pássaro das Plumas de Cristal (1970), no qual um escritor americano (Tony Musante), em viagem à Itália, testemunha uma tentativa de assassinato e acaba assumindo a investigação. O Gato de Nove Caudas (1971) tem dois protagonistas, um senhor cego (Karl Malden) e um repórter (James Franciscus), envolvidos na averiguação de uma série de mortes. Em Quatro Moscas sobre Veludo Cinza (1971), um músico se vê encurralado por um chantagista que o flagrou matando um homem que o perseguia. Ele também vai ter que arregaçar as mangas para assumir o controle da situação.

As semelhanças com o cinema de Hitchcock, no entanto, não se limitam à premissa básica ou aos galãs americanos e suas belas amantes loiras. A curiosidade que move o protagonista e a obsessão que o leva a discutir o assunto com outras pessoas, por exemplo, evocam um cinismo muito associado ao cinema hitchcockiano. Com efeito, ao pensar na trilogia de Argento, de maneira sistemática, muitas outras semelhanças surgirão, quase como citações diretas. Em O Pássaro das Plumas de Cristal, temos um tipo caricato, o pintor que se alimenta de gatos, algo próximo ao que acontece em Ricos e Estranhos (1931). Além disso, também contamos com a presença de Reggie Nalder, ator que interpreta o assassino contratado para matar o Primeiro Ministro em O Homem que Sabia Demais, reprisando o mesmo tipo de papel. Outros importantes fatores associativos que podemos perceber são o mote da culpa católica, com o vilão despencando como quem cai para o inferno (Sabotador, 1942), e o reflexo do famigerado final pleonástico de Psicose (1960), com uma explicação um tanto leviana sobre transferência psicótica.

Já em O Gato de Nove Caudas existe uma vontade ainda maior de emular o estilo do mestre inglês, com a trama secundária sobre espionagem industrial; a teoria sobre delinquência juvenil que serve de MacGuffin; o momento pitoresco no barbeiro que lembra o desconforto de Leslie Banks no consultório do dentista na versão original de O Homem que Sabia Demais (1934) ou os constrangimentos do pequeno Desmond Tester em O Marido Era o Culpado (1936), assediado por um obstinado vendedor de rua em uma cena tragicômica; o copo de leite envenenado (Suspeita, 1941); e, o mais interessante, a divisão de protagonismo entre os personagens de Karl Malden e James Franciscus, causando efeito semelhante ao que Hitchcock fizera em Intriga Internacional (1959). No filme de Argento, Karl Marden representa o cérebro da trama, ajudando a resolver o enigma através de sua inteligência, enquanto resta a Franciscus o confronto corporal, ou seja, a prevalência física.

Por fim, em Quatro Moscas sobre Veludo Cinza, há um maior distanciamento referencial em relação à obra de Hitchcock. No filme, cada cena é carregada com o frescor e a euforia de um iniciante que desejava dizer a que veio. São longos e desafiadores os travellings; é contundente a recorrência aos cortes secos na montagem, bem como ao uso subjetivo da trilha sonora; a decupagem é repleta de angulações inusitadas de câmera como, por exemplo, aquela em que vemos uma subjetiva de um violão. Além do mais, há um empenho comovente em filmar as cenas de assassinato da forma mais cruciante possível, mas de maneira poética e orquestrada, como quem quisesse dar à morte um status de arte. Outro dos recursos usados por Argento é, evidentemente, a câmera subjetiva do assassino, uma das características mais presentes dentro do giallo, mas que sempre alcança efeitos inesquecíveis.

A trilogia já traz, com força, a característica mais autoral do cinema de Argento: a obsessão pela imagem. Há também uma influência de Blow-up (1966), de Michelangelo Antonioni, que se manifesta com maior evidência em Prelúdio para Matar (1975), mas que o acompanha em toda a sua carreira. É fascinante como, para desvendar o enigma de seus filmes, o protagonista precisa interpretar uma imagem estática. Algo que ele viu anteriormente ficou registrado em sua memória, de modo que se torna necessário que essa lembrança seja acessada para a obtenção de uma resposta. O herói não tem uma motivação muito clara da razão de estar envolvido com aquilo, trata-se muito mais de uma busca espiritual do que uma batalha por justiça. É como se, interpretando a imagem, ele pudesse encontrar a si mesmo. Por esse motivo, seus filmes são muito visuais, com Argento chegando a reproduzir em estúdio, com pessoas, o mais célebre quadro de Edward Hopper, “Nighthawks”.

Em O pássaro das Plumas de Cristal, o quadro de um pintor naïf, representação de uma cena violenta, nos leva à conclusão do mistério, além de ser a motivação para os assassinatos que tomam conta do filme. Já em O gato de Nove Caudas, uma fotografia dá pistas para chegarmos ao criminoso. Isso porque, mesmo cego, o personagem tem a sensibilidade de reconhecer o potencial da imagem. Para isso, ele conta com a ajuda de sua sobrinha pequena (Cinzia De Carolis), cuja presença funciona como a representação de seus próprios olhos. Quatro Moscas sobre Veludo Cinza, igualmente, é sobre a imagem, já que o protagonista é visto e fotografado lutando e supostamente matando um homem. Nesse filme, pesquisadores criam um artefato que consegue identificar a última imagem visualizada pelo olho humano, o que nos auxiliaria no desvendamento dos assassinatos, já que certamente a última visão da vítima seria o seu algoz (curiosamente, esse detalhe da trama é similar a um projeto de Hitchcock que nunca foi filmado: The Blindman, um roteiro original cuja trama era sobre um pianista cego que recebe as córneas de um homem assassinado – um caso nunca solucionado – e passa a enxergar a imagem do criminoso). Contudo, o exame revela que a última coisa vista foram quatro moscas sobre veludo cinza. E essa é a imagem que deve ser investigada. Através da obsessão pelo pictórico, Argento cria ícones com muita eficiência, como se quisesse gravar seus filmes na retina do espectador, ou, como diz Godard sobre Hitchcock, quisesse assim ter o controle do universo.