Rebento (2018), de André Morais

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Melodrama em cinco atos

João Campos

Rebento (2018) começa com uma sequência de planos fechados das pernas de um bebê recém-nascido. Ouvimos o barulho da água que limpa o sangue do corpo da criança e cai na bacia. O ritmo arrastado prefacia a lentidão que domina todo o filme. Logo vemos uma mulher com expressão atônita, enquadrada de cima, introduzindo-nos ao espírito do longa: entre as formas de um corpo, enxergamos a sofrência nordestina até o extremo do melodrama. A parteira caminha com uma bacia cheia de sangue, mas faz uma pequena pausa dentro do quadro, a fim de que possamos dar uma boa olhada no sofrimento da mulher que jaz na cama. Logo após, a criança é embrulhada no lençol em que nasceu, guiada pelo sertão e, por fim, é afogada num riacho. O pacote boia, nós olhamos. Fade out e uma cartela: Maria.

A mise-en-scène composta por André Morais transborda melodrama, mas com uma roupagem artística que quer encantar o espectador pela duração, pelo tempo vagaroso com que busca contar sua história, sem deixar de lado o enigma do enredo. As ações são espaçadas, os diálogos sussurrados e lentos, como se o filme se arrastasse pelo sertão afora. Seja como for, o resultado é decepcionante. A câmera persegue uma personagem de suposta opacidade. Ela vem de longe, mas o espectador brasileiro já a conhece bem. “Tô de passagem”, diz para um rapaz que oferece carona. “Vem de onde?”, ele pergunta. “Venho de longe”, emendando, “O senhor não sabe onde fica. É muito longe”. A tentativa de embrulhar a personagem numa aura enigmática não condiz com a semelhança que esta carrega em relação a uma gama de personagens da Retomada do cinema brasileiro. Ela poderia estar em Central do Brasil (1998) ou na Guerra de Canudos (1996), mas aqui ela matou seu bebê e o espectador é obrigado a seguir seu martírio sem fim.

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O filme é dividido em cinco atos, intitulados Maria, Rosa, Ana, Clara e, por fim, Eu, marcando os nomes que a personagem recebe em seu percurso. O Eu só emerge no final, quando ela alcança seu pai moribundo, que logo morre e a deixa caminhando na desgraça. Ela beija os lábios do cadáver e, após um fade para branco, caminha rumo à câmera, o rosto distorcido pelo choro, o corpo fadigado, cheio de hematomas, sangrando. A mulher cai na terra e olha para a câmera, estimulando o espectador. Fade out e fim.

Esta é uma obra que procura extrair o máximo de sofrimento da personagem: uma mulher sertaneja que, não bastasse o horror do filicídio, precisa carregar junto ao ventre uma maldita melancia, fantasma que a acompanha em sua jornada para nos lembrar do rebento assassinado. Através do uso da trilha sonora nos momentos mais dramáticos, da prevalência de planos sequência e movimentos de câmera vagarosos, André Morais compõe uma valsa em volta de uma mulher martirizada. Um olhar sádico que se coloca na missão impossível de conciliar harmonia e convulsão.

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Lúcia Nagib[1] nos mostrou que o cinema da Retomada carrega uma nostalgia de momentos anteriores da cinematografia nacional, quando a utopia política era possível. Revisitar o sertão e a favela filmados pelo Cinema Novo e udigrudi foi prática comum de cineastas como Walter Salles Jr., José Padilha, Fernando Meirelles e Kátia Lund, mas a partir de uma estética limpa, harmônica e internacional (nos limites do palatável). Nos últimos anos acompanhamos o surgimento e estabelecimento de jovens cineastas que, de certo modo, abrem novos caminhos para a utopia no cinema (penso em figuras como André Novais de Oliveira e Adirley Queirós, por exemplo). Nesse contexto de tímida fratura, considero deplorável olhar um filme como Rebento. Da nostalgia da Retomada só ficou o melodrama. Tudo pelas lágrimas, nada mais.

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[1]NAGIB, Lúcia.   A utopia no cinema brasileiro: matrizes, nostalgia, distopias. São Paulo: Cosac Naify, 2006.