Madrigal para um Poeta Vivo (2018), de Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho

mad2

Mais um vagabundo iluminado

Fábio Feldman

Logo no início de Madrigal para um Poeta Vivo (2018), nos deparamos com um senhor sentado próximo a uma lápide, falando sobre a passagem do tempo, a efemeridade da vida e Fernando Pessoa. Seu nome é Tico, protagonista do documentário, escritor e coveiro.

Uma vez delimitado seu principal objeto de observação, o filme se abre como um fractal, valendo-se de estratégias formais muito distintas: gestos experimentais se cruzam com procedimentos jornalísticos; cenas ficcionais extremamente estilizadas são sucedidas por planos documentais que primam pela simplicidade. A divisão em quatro atos (aparentemente, uma homenagem a Brecht) não parece fazer muito sentido estrutural, uma vez que o foco do filme é cambiante: pontos levantados num dado momento são aleatoriamente retomados em outro, caminhos promissores são abertos só para serem abandonados em seguida, e nenhum arco parece ser devidamente desenhado.

Dito isso, há uma constante em Madrigal: o desejo de representar a vida de um mito. Na verdade, Tico não é o protagonista. O herói da obra é o Vagabundo Iluminado, o Artista Marginal, a Voz das Ruas, etc. Para tanto, o filme se vale de uma série de procedimentos, sendo o mais usual a fetichização do gesto literário enquanto forma de resistência. O interlocutor de Tico, interpretado por Renan Rovida, parece espelhar uma imagem inexistente, didaticamente representando para a audiência o gênio inconformista e contracultural daquele com quem interage. Para tanto, grita, em meio às águas, os nomes de Dostoiévski, Hemingway, Pessoa e Guimarães Rosa (como se a mera menção a tais nomes canônicos comprovasse o amor de Tico pela arte e o colocasse na posição de intelectual “perigoso”), embriaga-se diante de uma máquina de escrever e emula práticas surrealistas enquanto esbraveja contra a burguesia.

mad1

O próprio Tico parece embarcar no projeto, mas, por vezes, apresenta visível desconforto diante do papel a ele relegado. É o primeiro a desafiar a noção romântica do “escritor coveiro”. Suas interações com o parceiro de cena não refletem grande entusiasmo ou habilidade. E quando divide suas visões de mundo, repete, sobretudo, clichês: o elogio dos loucos (“loucos pra viver, pra falar, pra serem salvos”…), o pessimismo diante da finitude e da absurdidade das coisas, a crítica ao capitalismo, e por aí vai. Assim como Renan, interpreta um papel. Porém, muitas vezes, não parece caber no figurino.

Curiosamente, os poucos momentos em que o filme brilha são aqueles em que Tico se impõe. Não a figura marginal, mas o homem: tímido, melancólico, desencantado, comum. Infelizmente, esses são instantes raros. Madrigal para um Poeta Vivo prefere, de modo canhestro, homenagear o indivíduo que nunca houve, optando por empregar adjetivos que, no afã de adornar um corpo vivo, acabam por sacrificá-lo.