21ª Mostra de Cinema de Tiradentes – Em Busca do Real Perdido

 

Fábio Feldman & Roberto Cotta

Completando sua 21ª edição, a Mostra de Cinema de Tiradentes, mais uma vez, difundiu parte da produção cinematográfica autoral contemporânea, abrindo suas portas para realizadores de diversas formações e concentrando obras inéditas (ou pouquíssimo exibidas) no interior de um evento abrangente.

Apesar da quantidade prolífica de mostras e sub-mostras, homenagens e exibições paralelas, grande parte das produções pareceu se alinhar sob um mesmo gesto curatorial. Tal gesto valorizou um amplamente divulgado “chamado realista” – cinema enquanto forma de “intensificação do real”, abertura do real para aqueles que o experienciam, fabulação do todo-dia que lhe dá “dignidade estética”…

O fato de, ao longo dos debates relacionados aos filmes, tão pouco ter sido discutido acerca do sentido de termos como “real”, “realista”, ou mesmo “arte”, já se apresenta como um problema, por vezes evidenciado em alguns dos textos que compõem nossa cobertura. O maior deles, porém, diz respeito a parte substancial dos filmes exibidos nas três principais mostras do evento: Olhos Livres, Foco e Aurora – espaços oscilantes, mas preponderantemente reservados à validação de certas visões de mundo (e, por que não, de formas específicas de representação de tais visões).

Mais do que um lugar de liberdade, um laboratório de estruturas estéticas onde o “real” (seja lá como for compreendido) pudesse ser ressignificado, tais mostras apresentaram longas e curtas, bons e ruins, quase inteiramente associados a um conjunto unitário de temas e procedimentos. Olhos raramente foram menos livres.

Entre algumas evidentes exceções, salientamos o cinema pulsante de Sérgio Ricardo, que, depois de um hiato de 44 anos sem dirigir um longa-metragem, retorna com o filme Bandeira de Retalho (2018), e, claro, a direção cuidadosa de jovens cineastas que já apresentam um domínio maior de suas proposições formais, como é o caso de Marcus Curvelo e Marco Antônio Pereira, através dos curtas-metragens Mamata (2017) e A Retirada Para um Coração Bruto (2017), respectivamente.

Na presente cobertura, apresentamos críticas dedicadas a analisar os sete filmes exibidos na Aurora, todos inéditos, como exige a Mostra: Ara Pyau – A Primavera Guarani, de Carlos Eduardo Magalhães; Baixo Centro, de Ewerton Belico e Samuel Marotta; Dias Vazios, de Robney Bruno Almeida; IMO, de Bruna Schelb Corrêa; Lembro Mais dos Corvos, de Gustavo Vinagre; Madrigal Para um Poeta Vivo, de Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho; e Rebento, de André Morais. Além disso, disponibilizamos um texto panorâmico relacionado aos dez curtas que compuseram a Foco.

Em relação à Olhos Livres, dada a inesperada desistência de alguns colaboradores, optamos por não cobri-la. Ainda assim, fica aqui registrado nosso apreço pelo documentário experimental Inaudito (2017), de Gregorio Gananian (vencedor do prêmio atribuído pelo Júri Jovem), e o pungente O Nó do Diabo (2017), longa episódico assinado por Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhesus Tribuzi: pedacinho imperfeito de um Cinema Real – maior que bandeiras, maior que Chamados, maior que o tempo.