Paterson (2016), de Jim Jarmusch

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O todo numa caixa de fósforos

Fábio Feldman

The supreme importance
of this nameless spectacle

sped me by them
without a word—

(William Carlos Williams, “The right of way”)

O mundo de Jim Jarmusch é um mundo de repetições e coincidências: as letras cor-de-rosa; o homônimo de William Blake; dois espressos num café espanhol; “I scream, you scream, we all scream for ice cream”. Trata-se de um mundo de padrões, estruturas fixas ordenadas de modo quase geométrico. Entretanto, suas formas reiterativas parecem ser regidas por normas que nos são incompreensíveis. Entre a roda de Dharma e a pedra de Sísifo, a percepção desencantada e algo irônica de que a máquina do mundo é uma fábrica de mistérios. Nela, jovens cruzam continentes em busca do fantasma de Elvis; o riso seco eclode, feito engasgo, diante do correr de táxis solitários; e as diferenças, todas, insistem em nascer do cerne da repetição. É o constante comunicar de pólos opostos, incluídos dentro de uma engrenagem rigorosa, que dá a tônica da filmografia do autor, esse Beckett pós-moderno, esse hipster avant la lettre, esse Antonioni pop – meio mestre zen, meio gauche, meio fã de rock.

Em Paterson (2016), mais do que em qualquer outro de seus filmes, o mundo se torna protagonista. Para além do personagem cujo nome espelha o da cidade que habita, a figura central da obra é uma Estrutura, que pode ser lida como cinema, mas também como versão metonímica do cosmo.

Cosmogonia do micro: o todo numa caixa de fósforos.

Tudo em Paterson parece se constituir circularmente. Tanto no tempo quanto no espaço, corpos, objetos, ideias e desejos se movem como numa roda: o mesmo beijo ao acordar, a mesma rota do mesmo ônibus; os mesmos outros papos, o mesmo outro jantar; a mesma noite no mesmo bar, enquanto o mesmo cão aguarda diante da fachada; o mesmo sono, o mesmo beijo, a mesma rota do mesmo ônibus. E dentro desse quadro, a irrupção constante de coincidências, duplos que pululam por todas as partes, signos que tanto apontam para a ordem quanto para a absurdidade.

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Seriam os gêmeos, os poetas, os nomes e os astros a comprovação de que, como a arte, a vida é feita de temas, motivos, refrões, rimas, jogos reiterados de significantes produzidos por um Grande Criador? Ou seriam, ao contrário, a prova cabal de que um lance de dados jamais abolirá o Acaso? Seria o mundo uma obra de arte moderna, meticulosamente criada a fim de produzir o máximo de ambiguidade? Seria, ao contrário, um kierkegaardiano jogo de cartas cujas regras jamais são divulgadas? Ou seria puro movimento, desvelar heraclitiano de banalidades arremessadas dentro de uma espiral?

O sentido nos elude, mas o processo é claro: o mundo como conjunto de gestos leves, bem estruturados, coincidentes ou não, e, acima de tudo, essencialmente repetitivos.

Como o arqueiro zen, Paterson, o personagem (interpretado brilhantemente por Adam Driver), sustenta uma postura de aceitação diante dos cenários e situações que o cercam. Ex-militar, correntemente um motorista de ônibus, ele organiza sua rotina circular dividindo o tempo entre a vida em família, o trabalho e a cervejinha no bar. Em casa, interage com a espirituosa mulher e um cachorro hostil. No ônibus, seguindo os mesmos caminhos, ora ouve atento aos dramas cotidianos de desconhecidos, ora se entrega ao prazer do movimento. Através de procedimentos de montagem e sobreposição, Jarmusch nos leva a flertar com o transe: a circularidade induz seu personagem a momentos de iluminação meditativa. Onde alguns veriam tédio, Paterson encontra uma via para a ascese. O movimento do ônibus é o movimento da vida; alinhar-se a ele é encontrar equilíbrio.

Porém, Paterson é também poeta. Desprovido de ambições, comprometido unicamente com o próprio labor, ele ocupa instantes livres cunhando versos. Versos à moda daqueles que popularizaram William Carlos Williams, seu famoso conterrâneo, e muitos artistas que o sucederam, como Frank O’Hara, John Ashbery, Barbara Guest e Ron Padgett[1], luminares da dita Escola de Nova York. Todos eles integram uma tradição que busca valorizar o raso: poesia de miudezas, repleta de vigor e coloquialismo, focada nos aspectos mais mundanos da experiência humana. Laranjas, carrinhos vermelhos, gafanhotos, uma lata de coca-cola; toques, tropeços, passos pesados em calçadas lotadas; a história do Homem a partir de seus rastros; Ideias advindas tão somente das Coisas.

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O poeta Paterson ouve a voz-de-megafone das caixas de fósforos, rejeita o peso das dimensões diante de um copo de cerveja, ignora trilhões de moléculas enquanto a vida prosaica segue, implode diante das formas da amada e a ela confessa: “Se você me deixasse / eu arrancaria meu coração / e nunca o colocaria de volta.”. Como Williams, Ponge ou Bashô, o poeta Paterson faz do mundo pequeno o palco para algo épico e arquiteta uma odisséia entre grãos de areia. Cabe, porém, a pergunta: ao fazê-lo, celebra a Estrutura ou se choca contra ela? Dando dimensão poética ao cotidiano, ele cria um elogio ou uma forma de negação? Compondo versos aos moldes do Cosmo – circular, gradual e metodicamente –, ele fortalece o círculo ou o rompe? Poesia enquanto ato de resistência: bebendo do mundo, o poeta Paterson o ultrapassa. Poesia enquanto experiência mística: reconfigurando as Coisas, o poeta Paterson se livra delas. Poesia enquanto transcendência: ao representar o micro, o poeta Paterson salta para fora do macro.

Ying & Yang: celebração/superação.

Em determinado momento do filme, a máquina do mundo quebra. O colega lamurioso não divide suas fontes de sofrimento, o ônibus enguiça, a esposa não faz o jantar, Romeu tenta matar Julieta – e toda a poesia é, literalmente, despedaçada. Os movimentos leves, bem estruturados, entram em colapso. E a espiral parece se desfazer feito um fraco facho de luz. Mas logo tudo retorna. Como um momento de tensão necessário para que uma narrativa seja propulsionada adiante, a morte da ordem é apenas um respiro. Desolado, observando a cachoeira, Paterson recebe consolo de uma figura ambígua, tipicamente jarmuschiana. Semideus? Enviado da Máquina? Um simples japonês de férias? Quem se importa. O poeta abre um novo caderno em branco e, diante das águas – sempre iguais, sempre outras – inicia um novo capítulo.

Vida que segue, em círculos, exata, absurda, plena.

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[1] Padgett, inclusive, escreveu os poemas de Paterson, a pedido de Jarmusch, fã assumido de toda essa tradição literária