O Filme da Minha Vida (2017), de Selton Mello

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Entre o lirismo e a superficialidade

Veriana Ribeiro

O Filme da Minha Vida (2017), terceiro longa-metragem de Selton Mello, baseado no livro “Um Pai de Cinema”, do escritor chileno Antonio Skármeta, tenta conquistar o público através da nostalgia: as câmeras analógicas, os programas de rádio, a cidade do interior, a chegada da televisão e a importância do cinema nas relações humanas são representados a fim de nos transportar para uma época que já passou. Com pitadas de humor e drama pessoal, conta a história de Tony Terranova, um jovem professor recém-formado na capital que volta para sua pequena cidade na Serra Gaúcha e, no mesmo dia, vê o pai partir sem explicações.

A ausência de Nicolas torna-se um peso para o personagem principal e motiva sua jornada de autoconhecimento. Quem é Tony sem a presença daquele que ele tanto admirava? Quem é o pai, essa figura quase mitológica de suas memórias? Perdido, o protagonista acaba encontrando em Paco(interpretado pelo próprio Selton Melo) um substituto, a quem Tony confia seus problemas e pede conselhos.

Não é a primeira vez que um filme decide homenagear a sétima arte e a relação entre as pessoas e o cinema. Cinema Paradiso (1988), A Invenção de Hugo Cabret (2011), Cantando na Chuva (1952) ou até o recente La La Land (2016) possuem tal temática. No âmbito do cinema nacional, Cine Holliúdy (2013) e Lisbela e o Prisioneiro (2003) vêm à mente. No primeiro, somos fisgados pela nostalgia do cinema em uma cidade interiorana – história que, mesmo quando não vivida, está em nossas memórias através das lembranças dos nossos pais e avôs – e o segundo emociona pelo romance entre os personagens principais. O mesmo não acontece em O Filme da Minha Vida, que não consegue cativar nem pela nostalgia, nem pelo enredo.

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Quanto à nostalgia, o filme se esforça demais, dando importância para propagandas de rádio e a relação com a televisão só para enfatizar o período da época, quando a inserção desses elementos poderia acontecer de forma mais fluida. Por exemplo, existe uma cena em que Paco e Tony estão tomando café da manhã e começa a tocar no rádio a música de uma propaganda. Os personagens param o que estão fazendo, apenas para cantarolar a música. Qual a utilidade disto no roteiro além de tentar forçar um saudosimos em pessoas que viveram naquela época e talvez se lembrem do jingle? O trabalho na fotografia, na trilha sonora e na direção de arte já cumpre esse papel, não é preciso dar atenção para coisas que deveriam ficar em segundo plano.

Mas é a a superficialidade dos personagens que incomoda na trama, que ficam presos aos arquétipos que representam. Tony é o protagonista passando pela jornada do herói, Luna é a mocinha que lhe dá forças para enfrentar os desafios, Augusto é o alivio cômico, que funciona nas primeiras cenas, mas vai perdendo força à medida que a trama avança. Um exemplo disso é Petra, que fica engessada no papel de femme fatale. O enredo poderia ter usado a personagem para explorar a questão dos valores familiares, a gravidez em uma sociedade conservadora ou até a dificuldade de aceitar a passagem do tempo. Mas o diretor se limitou a algumas cenas em que Petra flerta com Tony de batom vermelho e usa pijamas sensuais pela casa. Nunca entendemos porque ela foge. Em nenhum momento o pai de Petra aparenta ser um personagem conservador, por isso, ficamos sem entender a decisão da garota em esconder a gravidez e abandonar o filho com Nicolas. A sensação é que se tivéssemos menos piadas sobre a zona e momentos de Tony melancólico, o filme poderia ter explorado melhor seus personagens secundários.

Apenas Paco apresenta uma maior complexidade em tela, com seu conflito em saber se é um homem ou um porco. Uma metáfora que o espectador vai entendendo aos poucos, primeiro no sentido estético – já que Paco é alguém bruto, fedido e sem cultura – mas que ganha cada vez mais camadas à medida que vamos descobrindo sua relação dúbia com os outros personagens da trama.

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Ainda assim, em seus melhores momentos, O Filme da Minha Vida consegue atingir um certo lirismo, evidenciado, por exemplo, através da presença do veterano Rolando Boldrin. Com seu rosto forte e expressivo, ele torna-se um símbolo para passagem do tempo. Não por acaso, é o responsável por conduzir o trem entre a cidade em que os personagens moram e o município vizinho, mais desenvolvido, onde muitos vão a fim de frequentar o cinema ou a zona.

É bonito ver a relação de Tony com a motocicleta do pai, que representa para ele a liberdade e a capacidade de conduzir a vida adulta. Grande é sua dificuldade em aceitá-la, preferindo andar de bicicleta e se apegar ao passado e à inocência da infância. Uma metáfora singela, mas que resume o conflito principal do filme: a dificuldade em abandonar o passado e parar de idealizá-lo. Seja o pai das lembranças, que é sempre incrível, mas que na realidade tem seus próprios traumas e defeitos para enfrentar, ou Petra, que de longe parece bela e perfeita, mas que é uma pessoa insegura que se agarra aos antigos troféus de concurso de beleza.

A vida obriga Tony a perder sua inocência, fazendo com que personagem vá mudando, ganhando mais confiança a cada cena, tornando-se mais rebelde em contraste com o personagem tímido que é apresentado no começo do filme.

O Filme da Minha Vida empreende um grande esforço para encantar o espectador: o filtro alaranjado que dá um ar vintage a todas as cenas; o uso da metalinguagem e referências cinematográficas; o saudosismos através da direção de arte e da escolha das músicas; a belíssima fotografia de Walter Carvalho; as frases de efeito que devem cair nas graças das redes sociais. Funciona em alguns momentos, é um filme que cumpre o seu papel de entreter. Mas não será o filme da minha vida.