Giselle: Uma Realidade de Desencontros

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Beatriz Saldanha*

Assim como na antiga civilização romana, como em Sodoma e Gomorra, todas as vezes que uma sociedade está em decadência, a principal característica é a falta de valores morais, a promiscuidade sexual, o desamor, as frustrações e os desencontros. Os dias que hoje estamos vivendo não diferem muito daqueles que antecedem a destruição daquelas sociedades. Em Giselle retratamos através de uma célula da nossa sociedade, a família, uma família qualquer, um momento da nossa realidade atual. Uma realidade de desencontros, desamores, promiscuidades, procuras e frustrações através do sexo, que por modismo e desinformações, passou a ser algo sem nenhum valor, ao mesmo tempo em que inconscientemente, é uma tábua de salvação.

Em 1980, Carlo Mossy já havia se consagrado como o maior galã das pornochanchadas quando teve a ideia de fazer Giselle, pegando carona em Emmanuelle (1974), filme erótico softcore francês de sucesso mundial que teve uma série de sequências e desdobramentos em diversos países – o filme original consagrou a holandesa Sylvia Kristel como uma das primeiras grandes estrelas do gênero, protagonista dos primeiros exemplares da saga e em filmes de apelo similar; na Itália, a javanesa Laura Gemser foi a “Emanuelle Negra”, acrescentando uma dose extra de exotismo e perigos; no Brasil, coube a Monique Lafond estrelar Emanuelle tropical (1977), o maior sucesso da carreira de J. Marreco, e assim por diante.

Mossy fundara anos antes a Vidya Produções Cinematográficas, tendo um objetivo muito claro em mente: fazer filmes populares que tivessem retorno financeiro garantido. Na lista dos filmes que conseguiram mais de meio milhão de espectadores, dados computados somente a partir de 1970, a produtora Vidya emplaca oito títulos – incluindo Quando as Mulheres Paqueram (1972) e Essa Gostosa Brincadeira a Dois (1974), ambos dirigidos por Victor di Mello, Com as Calças na Mão (1975) e Manicures a Domicílio (1980), dirigidos pelo próprio Mossy, e Oh! Que Delícia de Patrão (1984), de Alberto Pieralisi – somando perto de dez milhões de ingressos, todos com apelos eróticos evidentes a partir do título. Dirigido pelo experiente Victor di Mello, responsável também pelo argumento, roteiro e diálogos, Giselle foi um grande êxito de público, levando às salas de cinema mais de dois milhões de espectadores (o mais lucrativo da empresa), além de ser o filme pelo qual Mossy é mais conhecido até hoje.

Pau-pra-toda-obra

Ângelo (Carlo Mossy) é uma espécie de faz-tudo, um capataz que cresceu na fazenda da família em que trabalha, herdando as funções que eram de seu pai. Praticamente um bon vivant, trabalho de fato quase não se vê Ângelo fazendo, mas ele se ocupa,com muito gosto, de cada um dos membros da casa. Ao contrário do personagem que desempenhou em Ódio (1977), agindo como transmissor da raiva oriunda de uma vontade incontornável de vingança, Ângelo atende às necessidades eróticas de suas patroas: Haydée (Maria Lucia Dahl) e Giselle (Alba Valéria), respectivamente esposa e filha de Luccini (Nildo Parente).

A pitoresca cena inicial, embalada por uma versão instrumental de “San Francisco”, a utópica de Scott McKenzie, parece ter sido retirada de um documentário para estudantes de Zootecnia: empregados da fazenda conduzem passo-a-passo o cruzamento de um cavalo com uma égua, desde a limpeza das partes íntimas do animal até a consumação do ato. (Obviamente, estamos aqui a anos de distância do cinema de sexo explícito e da sempre discutível – sob todos os aspectos – ramificação da zoofilia que se tornaria um filão explorado desavergonhadamente por alguns cineastas, tendo como atração preferida os “garanhões” de quatro patas… O efeito aqui é muito mais próximo do que se vê em Êxtase, de 1933, o quase mítico filme erótico que Hedy Lamarr fez na Tchecoslováquia em início de carreira.) A cena serve para pontuar a energia erótica de Ângelo e Giselle, animalesca, contrária ao processo civilizatório, e é intercalada por olhares insinuantes entre os dois, que em seguida fazem sexo em um rio, à vista de Haydée.

Característica comum entre as pornochanchadas, Giselle é um filme bissexual. Apesar da usual confusão entre identidade de gênero e orientação sexual presente em fitas semelhantes, quase sempre representando homossexuais de maneira afetada e caricata, o filme abraça a homossexualidade de forma muito natural e agregadora. Uma das cenas mais marcantes acontece com a chegada de Serginho (Ricardo Faria), filho de Haydée, que vai para a fazenda passar as férias. Sensível, fuma cigarros “fraquinhos” e tem mãos de veludo. Uma vez sozinho com o garoto, Ângelo tasca-lhe um beijo apaixonado, sem a menor cerimônia, e dois fazem sexo, longe dos julgamentos de outrem.

A destruição do corpo ou o desencanto do amor

Giselle é uma romântica. Criada na Europa, onde viveu muitos anos longe da família, nossa heroína cede aos encantos de Ana (Monique Lafond), uma parente distante que se encontrou na Medicina, que exerce voluntariamente em comunidades carentes. A história de Ana impressiona Giselle: aos 17 anos, foi presa e torturada. Ainda assim, acredita no socialismo pacífico. Ela cura, reconstrói, diferente dos homens que a tentaram destruir.

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Idílico e puro, o amor entre as duas parece ser a única coisa que poderia salvá-las, mas desagrada profundamente Haydée, a madrasta de Giselle, que à essa altura havia desenvolvido uma paixão não-correspondida pela enteada. Como uma heroína trágica, Giselle perde a companheira de maneira violenta e decide voltar à fazenda, mas o seu relacionamento com Haydée já está desgastado. O casamento da madrasta também vai de mal a pior, com a mulher rejeitando o marido quando este a procura e mostrando que o sexo casual com quem quer que fosse é mais interessante e menos tedioso.

O filme transita entre cenas eróticas e cenas de violência, enfatizando a beleza do sexo consensual, livre de preconceitos, e a feiura do estupro. Apesar de ter sido uma das vítimas de um trio de abusadores, Giselle testemunha seu linchamento e reage com absoluto horror. A situação vivida pela personagem soa como ecos de Ódio.

O jogador

Muito mais do que um filme sobre sexo, Giselle é um filme sobre poder, uma escala de dominação. Desde o início, através do pretexto de que Giselle deve cuidar para que não seja vista fazendo sexo ao ar livre, Haydée se esforça para moldar seu espírito telúrico. Sugere que o faça dentro de casa, esta estrutura tão simbólica que, ao mesmo tempo em que permite que Haydée controle os movimentos de Giselle, serve como um esconderijo onde a família comete seus pecadilhos longe dos olhos uns dos outros a um girar de chaves.

Quando Giselle troca Haydée por Ana, a madrasta sofre profundamente com a desilusão amorosa e todos tentam convencê-la de que, na verdade, padece de algum tipo de neurose. Ofendida, ela inicia uma espécie de disputa em que tenta sair por cima na posição de patroa, chamando-lhe de nomes como “empregadinho de merda” e “lacaio”. Ângelo termina por controlá-la na base da violência, e nesse sentido há um trecho ainda mais significativo: em uma cena de orgia, Jorge (Zózimo Bulbul), um amigo negro de Serginho, é preso na cama e açoitado pelos outros. Serginho berra: “Bate mais, porra! Arrebenta com ele, que ele adora apanhar!” Em entrevista, Mossy admite que idealizou uma cena racista, a fim de mostrar que o racismo ainda existe no Brasil, e garante que Zózimo se divertia bastante ao lembrar dela. Contudo, parece claro que ela foi inserida para reforçar o personagem de Ângelo como um homem machão e dominador.

O abuso de poder na relação entre patrão e empregado é um lugar-comum nas pornochanchadas, principalmente no que diz respeito ao sexo. A iniciação sexual de meninos através de empregadas domésticas faz parte do imaginário erótico brasileiro e foi reforçada em filmes tais qual Como É Boa Nossa Empregada (1973), dirigido por Victor di Mello em parceria com Ismar Porto. Mossy sempre pareceu querer explorar o imaginário dessa relação entre profissão e prazer; chefe e empregado, como sugerem os títulos de outras pornochanchadas da Vidya: As Massagistas Profissionais (1976), Manicures a Domicílio e Oh! Que Delícia de Patrão. Em Giselle, a exploração sexual é assunto de família e, ainda por cima, hereditário, começando com o pai de Ângelo, passando por ele mesmo e refletindo em uma criança, filho de uma empregada. Luccini, o patriarca, que parecia inocente diante de toda aquela perversão, possui o pior dos vícios: é um pedófilo. Ao perceber a fraqueza do patrão, Ângelo vê na situação uma oportunidade de chantageá-lo e, com o dinheiro, realizar o seu sonho de ir embora do Brasil. Nem pensa duas vezes. Quer estudar Agronomia nos Estados Unidos. O pacato capataz que tinha medo de ir até o Rio de Janeiro é, na verdade, um jogador. E acerta a caçapa com um toque de mestre.

Decadência com elegância

“Esse é o dia da dissolução da nossa família. Nunca mais nos veremos. Cada um pro seu lado, sendo e fazendo exatamente aquilo que queria”, são as palavras do patriarca, em um jantar formal de despedida. Como um personagem pasoliniano, Ângelo chega para despir, desestabilizar e desintegrar uma família burguesa, dando aos seus membros a oportunidade de se reconhecerem verdadeiramente.

A epígrafe deste texto faz parte da abertura e do fechamento de Giselle, pois era necessário dar conta de inventar estratégias para driblar a censura. Além deste discurso, posicionado como duas fatias de pão moralistas em um sanduíche recheado de cenas de perdição, Mossy e di Mello filmaram vinte minutos de sobras para garantir que nada de importante seria cortado. Uma espécie de esquizofrenia consciente.

Aliás, diferente do que se costuma supor sobre as pornochanchadas e, mais especificamente, sobre Giselle, não há nada de naif em sua realização.

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*Ensaio originalmente publicado no catálogo da 16ª edição da Mostra Curta Circuito.