Entrevista com Maria Hirszman

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Pedro Veras

Uma das responsáveis pelo acervo de Leon Hirszman, bem como por sua manutenção e disseminação, e também filha do diretor, é a jornalista e crítica de artes Maria Hirszman. Depois de anos trabalhando na cobertura do circuito de exposições de arte, principalmente em São Paulo, Maria se dedicou a um mestrado em que estudou a obra de Christiano Jr., fotógrafo açoriano que, por volta de 1865, realizou uma série de fotos de estúdio de pessoas escravizadas vivendo em situação de rua. Atualmente, ela contribui com várias publicações e instituições como Itaú Cultural, Revista Arte!Brasileiros e Revistam Zum.

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Como é a sua relação com o trabalho de Leon Hirszman?

Além da admiração como filha e espectadora, a gestão de sua obra faz parte da minha rotina, em parceria com meu irmão, João Pedro. Recebo semanalmente pedidos de exibição, de autorização do uso de trechos, de informações, o que consome bastante tempo e atenção.

Historicamente, um dos maiores problemas enfrentados pelo cinema brasileiro é a preservação e a disseminação de cópias de filmes. Qual a situação da obra de Leon Hirszman nesse contexto? Qual o estado das cópias de seus longas e curtas-metragem? Há filmes e/ou vídeos perdidos? Sobre a obra televisiva dele, onde se encontram os arquivos? É possível para o público acessá-los com facilidade?

Sem dúvida. Neste quadro, temos notícias boas e notícias ruins. Felizmente conseguimos realizar há alguns anos um projeto de restauro e preservação da obra de meu pai, restaurando digitalmente praticamente toda a sua obra e lançando esses filmes em uma coleção de DVDs. Parte deste material ainda está disponível, agora na coleção do Instituto Moreira Salles. Também distribuímos cópias desses DVDs pelas principais bibliotecas do país e volta e meia são exibidos pelos canais especializados, como TV Brasil e Canal Brasil. Gostaríamos de disponibilizar os filmes em streaming mas aparentemente o interesse das empresas se volta para as produções recentes e não as produções históricas. Todas as tentativas fracassaram até o momento. Quanto ao acesso às cópias, a situação agora está bastante complicada em função da crise da Cinemateca. O desmonte desta instituição é um dos maiores crimes cometidos contra o cinema brasileiro.

Há, sim, filmes perdidos. Os dois casos mais terríveis são a perda do negativo de “Garota de Ipanema”, o que impediu o restauro desta obra, e a perda completa do filme “Que País é esse”, feito para a RAI italiana e que simplesmente desapareceu. Várias tentativas de localizar esse material foram feitas sem sucesso e aparentemente a RAI simplesmente descartou as fitas.

E não, ele não produziu para televisão, a não ser um trabalho para a RAI Italiana.

O acesso a obras antigas da nossa cinematografia é outra questão problemática. Existe algum acervo aberto com os filmes de Leon Hirszman? Sabe-se que alguns deles já circulam na internet em arquivos digitais para download ou acessíveis no YouTube, é o caso de São Bernardo, Megalópolis, Maioria absoluta e ABC da greve dentre muitos outros. Por acaso existe a ideia de criar um canal oficial para alguma plataforma digital online (como foi feito com a obra de Aloysio Raulino, disponibilizada na íntegra no YouTube) para disseminar gratuitamente a obra de Leon?

Esse é um sonho meu. Até porque essas obras disponíveis no Youtube muitas vezes não são as de melhor qualidade, não disponibilizam a versão restaurada. Mas é um trabalho insano retirar esse material do ar e criar um canal, gerir tudo isso. Não conheço esse projeto do Raulino, vou dar uma olhada.

Em 2005 o projeto “Restauro digital da obra de Leon Hirszman” ganhou vida. Você poderia falar um pouco sobre ele? Durante quanto tempo o projeto foi elaborado e como foi esse processo? Quando ele começou efetivamente? Como foi o processo de curadoria dos filmes (realizada por Carlos Augusto Calil)? Até o momento foram lançados 5 volumes da coleção em DVD (dois deles reunidos no box de Eles Não Usam Black-tie), há previsão de lançamento de outras obras dele em DVD?

As conversas sobre esse projeto começaram bem antes. Depois de muita conversa com Calil e com Lauro e Eduardo Escorel, formatamos a ideia desse projeto que gerou cinco DVDs. A estrutura pensada previa o lançamento de um conjunto de DVDs, articulados em torno de um filme longa metragem, que aglutinasse questões importantes na obra de meu pai, com a inclusão dos curtas e de um rico material extra, produzido especialmente para isso. Assim, começamos com a caixa dupla que vc menciona, na qual ABC da Greve e Eles Não Usam Black-tie assumem o papel de carro chefe. Esse dvd duplo contempla também o documentário feito por Eduardo Escorel sobre meu pai, que é uma bela análise sobre sua obra e o cinema brasileiro. Os DVDs contendo São Bernardoe A Falecida vieram na sequência. A ideia era lançar um por ano mas o financiamento foi se mostrando cada vez mais difícil. Apenas há dois anos conseguimos concluir o projeto inicial de restauro, com o lançamento da caixa dedicada à trilogia “Imagens do Inconsciente”.

Quanto à disponibilidade, a primeira caixa está esgotada. Negociamos o relançamento mas ainda não saiu do papel. A Falecida também não teve uma segunda edição. Não saberia dizer se ainda restam cópias da primeira, mas neste caso o relançamento seria mais difícil pois é uma das poucas obras de meu pai cujos direitos não pertencem a ele.

Há alguma extensão desse projeto com o intuito de expandir o alcance da obra de Leon, por exemplo, em escolas, universidades, bibliotecas, acervos públicos e outras instituições culturais? Do contrário, existe esse desejo?

Esse desejo é sempre presente. Não temos no entanto nenhuma estrutura que permita isso. Na verdade isso acaba acontecendo a partir da demanda dessas instituições, que nos procuram em busca de material.

Para além da obra, sabe-se que outro registro valioso são as entrevistas que Leon Hirszman deu ao longo da vida. É possível encontrar algumas delas em meios impressos e periódicos que foram digitalizados, mas são raros os registros gravados de entrevistas com ele. Existe algum trabalho de organização e/ou divulgação dessas entrevistas em vídeo e/ou áudio?

No filme do Eduardo Escorel ele mapeou esse material, que não é tão pouco nem tão raro assim. Só está disperso em diferentes instituições.

Quais são as maiores dificuldades que você destacaria, hoje, para a preservação, manutenção e disseminação da obra de Leon Hirszman?

A impossibilidade de ter acesso ao acervo dele depositado na Cinemateca. O apoio de uma instituição como essa é vital para a preservação da memória do cinema brasileiro e hoje os filmes estão praticamente inacessíveis. A inexistência de financiamento ou de suporte também é bastante prejudicial. Deveríamos ter políticas públicas claras que permitissem essa divulgação, com canais de exibição, criação de plataformas coletivas de gestão de dados. Enfim, canalizar forças para um trabalho coletivo. No momento, cada cineasta ou família luta para tentar manter intacta e vista uma obra em particular. Se houvesse algum tipo de base coletiva e de apoio logístico teríamos outro tipo de relação com nossa memória.

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Enfrentamos um panorama sombrio para as políticas culturais neste esse ano e, pelo menos, no próximo. De que maneira você acha que isso pode influenciar no trabalho com a obra de Leon? O que seria preciso para se realizar, por exemplo, a restauração de sua obra completa?

Felizmente a obra está quase integralmente restaurada. As lacunas mais graves são “Garota de Ipanema”, por causa da ausência do negativo, poucos documentários e a eventual montagem do material que ele rodou nos anos 1970 para um filme sobre Gal, Gil e Caetano. Este último caso é mais complexo porque parte do material também se perdeu e é algo que exige a maturação de um projeto. Você tem razão quanto ao panorama sombrio. As más notícias só vão se acumulando. Felizmente há muita gente dedicada, que se esforça para encontrar saídas para os impasses e crises que vão surgindo dia após dia. Tudo indica que teremos novamente que contar com nossa criatividade e capacidade de improvisação para sobreviver, produzindo e divulgando cultura, nos próximos anos.