Dunkirk (2017), de Christopher Nolan

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A guerra como uma moldura de ruídos

Douglas König de Oliveira

Num desses programas dominicais em que se fazem concursos de dança, um dos jurados analisava a performance dos participantes. Apesar de ter gostado da coreografia e do desempenho, ele observou que o número se constituía de bons momentos isolados, mas não trazia um encadeamento entre os diversos passos.  O que, em se tratando de dança, é um ponto negativo, pois a impressão fragmentada não permite a apreciação da dinâmica completa que se pretendeu expressar no movimento dos corpos. Talvez possamos relacionar essa ideia ao cinema.

O registro ficcional que o diretor Christopher Nolan faz da evacuação dos soldados britânicos em território francês, quando encurralados pelo exército alemão na Segunda Grande Guerra, começa seguindo um grupo pelas ruas do balneário de Dunquerque, até chegar ao palco principal do evento histórico retratado. A abertura, com o grupo de soldados fugindo do ataque ao se aproximar da área sitiada, logo dá lugar a uma das sequências em que o espectro do inimigo é amplificado pelo uso do som e da composição visual. O que poderia ser uma cena intensa em meio ao drama dos soldados, dá lugar a sequências ininterruptas de números dramáticos, geralmente carregados do uso extremo da trilha sonora – tantos os sons diegéticos de tiros e explosões caraterísticos da guerra, quanto a música monocórdia, ruidosa e grave da trilha de Hans Zimmer – e a estilização dos elementos da composição visual, visando uma simplicidade que se pretende crua. Incorporam-se a tal desenvolvimento outras duas linhas: as ações de um aviador que protege o cenário da evacuação, e movimento das embarcações civis, que se alinham ao esforço de resgate. Esses últimos, talvez os legítimos heróis do episódio histórico, dividem com os soldados (personagens mais facilmente relacionáveis ao enredo e mais habituados à situação de conflito) o espaço dramático. O caráter emocional se atenua, pois a pulverização dos protagonismos enfraquece a estória realmente inusitada e que exemplifica melhor o caráter de heroísmo atribuído ao esforço dos civis ingleses em Dunquerque.

O filme segue incrementando essas três frentes, ao modo clássico griffithiano, sem, contudo, introduzir algo que possa trazer novidade aos personagens durante o restante da projeção. A aposta no dado sensorial restringe o discurso cinematográfico a tomadas rigorosamente arquitetadas, por vezes repetitivas, apesar de competentes tecnicamente (como nas sequências de aviação). Estes segmentos são atravessados por dramas menores, tentando mover um tempo fílmico estagnado, como nos conflitos dentro do barco, os impasses do comando da marinha ou a busca frenética por sobrevivência do soldado que acompanhamos no início. Até mesmo um dispositivo de deslocamento temporal é acrescido para dar relevo ao enredo, que na maior parte do tempo se sustenta em situações dramáticas bem claras e objetivas, emolduradas por uma trilha sonora incessante.

Bodega Bay

A escolha em se basear na concentração e saturação de elementos já rendeu muitas obras-primas do cinema, como Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, e Deserto Vermelho (1964), de Michelangelo Antonioni, por exemplo. Mas ao escolher um episódio histórico e abordá-lo desta forma, Nolan, em Dunkirk (2017), parece privilegiar a forma, deixando em segundo plano os elementos que poderiam relacionar suas três narrativas principais de maneira coesa e complementar. Um diretor mais convencional como Steven Spielberg foi capaz de, em O Resgate do Soldado Ryan (1998), retratar situações de guerra de modo vigoroso, enquanto, ao mesmo tempo, conduzia um drama humano. O mesmo não se repete aqui. E talvez nem tenha sido a intenção. Por isso parece ainda mais estranho o desfecho ufanista e redentor, com a música mudando completamente de caráter, soando grandiloquente e emotiva, para emoldurar a síntese dos destinos de cada protagonista.

O impasse entre ser um retrato dos esforços de guerra ou ser um compêndio de possibilidades técnicas e formais torna clara a incapacidade de seu realizador para tornar os dois processos simultâneos, malogrando a possibilidade de alcançar um tom uniforme. Se a incursão foi no gênero do filme de guerra, ele não elabora os tempos fortes e a dinâmica que fazem funcionar uma narrativa interessante. Se pretende experimentar com a imersão nas cenas e sons, o recado já é dado nos primeiros minutos, e o que segue se arrasta em monótonas repetições. Essa indefinição priva o enredo da possibilidade de retratar a força das ações envolvidas no extremo da guerra, que envolvem vida e morte e necessitam da sutileza dos momentos de desordem e silêncio, não apenas o musical, mas de quando a existência dos personagens não emite mais atestados de sentido com fácil apelo. Apenas na última e breve tomada o som cessa, e o soldado aparece tomado de alegria e conforto. Sutileza que faltou ao restante, orquestrado de forma rígida e pesada, onde pouco coube a imprecisão do que é humano.