Deixa na Régua (2017), de Emílio Domingos

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Close no estilo, ouvidos atentos

João Campos

Deixa na Régua (2016), novo filme de Emílio Domingos, propõe uma imersão etnográfica em três salões de barbeiros na periferia do Rio de Janeiro: Belo Visual (Vila da Penha), Ed (Quintinho) e Deivão (Piabetá). A potência estética e política dessa obra advém, sobretudo, do modo como inscreve a oralidade de jovens da periferia do RJ na mise-en-scène, o que nos solicita uma escuta aguçada, treinada a buscar os sentidos e as vibrações plásticas do comum, ordinário ou cotidiano.

O filme busca nos re-apresentar um contexto de diálogo corriqueiro e, muitas vezes, íntimo. Esse processo se dá através de um gesto observacional que se assemelha à proposta rouchiana do Cinema Direto. No salão, Emílio Domingos encontra uma situação propícia à espera e à escuta. Porém, esse recurso poderia ter saído pela culatra – como disse Emílio Domingos em sessão comentada do filme no Cine 104. A polifonia do documentário, fruto da profusão de vozes nesses salões, poderia ter sido o pesadelo do cineasta, pois a simultaneidade de diferentes conversas e brincadeiras impossibilitaria a escuta e compreensão do que é dito ali. Contudo, a rigorosa pesquisa do diretor o colocou em relação franca e direta com os barbeiros, que abraçaram seu projeto e conseguiram, cada qual em seu salão, orquestrar as conversas, permitindo que o filme cumprisse seu objetivo: dar forma às histórias, desejos, medos, memórias, piadas, gestos e movimentos de jovens da periferia carioca.

Nessa obra, os salões funcionam como um espaço de sociabilidade e preparação, lugar em que diversos jovens se reúnem para trocar ideias e dar um retoque no visual – este é o momento dos bastidores dos bailes e duelos de A Batalha do Passinho (2012). Em contraste com este, a mise-en-scène de Deixa na Régua é composta por uma multiplicidade de conversas justapostas, sem entrevistas diretas, o que insere os relatos dos personagens num fluxo narrativo.Os jovens filmados tomam a palavra para contar, escutar e, principalmente, nos fazer escutar. Aqui se encontra a política do filme, que elege a observação como técnica plástica e etnográfica. Esse processo coloca o documentarista na posição de um mediador entre mundos.

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Se o tempo de A Batalha do Passinho é o da competição e vibração dos corpos animados pela dança, Deixa na régua se constrói numa temporalidade da espera, dos bastidores, do cotidiano e prosaico. Enquadrados obliquamente através do espelho dos barbeiros, jovens silenciados e invisibilizados elaboram um discurso e uma estética singulares. Para além do crime e da violência generalizada, Emílio Domingos procura registrar um contexto de criação e troca. Na fala dos jovens, podemos destacar a valorização da família e da amizade, os amores frustrados, casos de rolês e, mesmo que de maneira mais tímida, tragédias relacionadas à vida no crime.

Deixa na régua utiliza as características culturais e espaciais do salão para estruturar a sua forma, reinventando-as no cinema. Isso diz respeito, sobretudo, aos enquadramentos que emulam o efeito do espelho na troca de olhares entre os barbeiros e clientes – daí a obliquidade dos planos –, e à inscrição etnográfica das conversas de salão. A relação entre barbeiro e cliente, rica em diálogos, é mostrada através do espelho. O espectador é, assim, colocado na posição de cliente fantasma a observar o ordinário. Não há necessidade de entrevistas, o fluxo de narrativas existe ali por si só e, com o mínimo de interferências, as histórias são contadas.

Nessa obra, o social dá pistas para a compreensão da mise-en-scène. A pesquisa etnográfica enseja a composição plástica e narrativa de um documentário que, tendo como protagonistas jovens moradores das favelas cariocas, excluídos simbólica e materialmente dos centros do mundo globalizado, produz cenas que nos faltam: convertem os que são considerados autômatos violentos em pessoas inventivas, criadoras não só de uma estética, mas de uma cultura, uma rede de códigos, discursos, objetos e gestos que, no cinema, se apresentam como imagens de uma resiliência singular e não menos radical. Deslocando “o lugar olhado das coisas”[1], Deixa na Régua torna visível uma invisibilidade, demonstrando a potência e a beleza de práticas e pessoas que, por muitos, são reduzidos a “animais barulhentos”[2].

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[1]DAWSEY, John. Turner, Benjamin e Antropologia da Performance: o lugar olhado (e ouvido) das coisas. Disponível em: http://revistas.ufpr.br/campos/article/view/7322

[2]GUIMARÃES, César. O que é uma comunidade de cinema?.Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/eco_pos/article/viewFile/1955/2026