A Cidade Onde Envelheço (2016), de Marília Rocha

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O silenciar da juventude

Maria Trika

 “Os picos das montanhas cochilam;

vales, penhascos e cavernas silenciam.”

(Álcman)

O último longa de Marília Rocha, A Cidade Onde Envelheço (2016), uma coprodução entre Brasil e Portugal, mistura traços de cinema documental e ficcional para representar a relação de amizade entre duas portuguesas que moram em Belo Horizonte.

O processo do filme, realizado a partir de pesquisas coletivas e improvisações, foi baseado em uma relação de confiança. De acordo com relatos das atrizes, elas estudaram um roteiro, mas, durante as gravações, compuseram cenas a partir de conversas livres e sensações suscitadas no momento. A narrativa também estabelece pontos de conexão com o documentário: ao tratar o contexto entre 2010/2012 (momento em que uma grande quantidade de jovens portugueses imigrou para o Brasil), a experiência das protagonistas não se distancia da vivência real das atrizes. Francisca Manuel também morou por um tempo em BH, inclusive, no apartamento que serviu de set para o filme, e Elizabete Francisca, que interpreta Teresa, veio pela primeira vez ao Brasil para a gravação do longa. Inevitavelmente, este procedimento está refletido na forma. A câmera é extremamente afetuosa, sabe exatamente o momento de se aproximar – a ponto de quase se fundir ao corpo das personagens nas cenas de dança –, ou em que deve dar espaço à descoberta, como quando Teresa encontra um lugar novo e a assistimos de longe. Além disso, o filme mantém um olhar estrangeiro sobre o espaço. Algo que me permitiu a experiência de ver a cidade em que habito sem reconhecê-la como minha.

O filme se revela aos poucos, exige que nos aproximemos. Na primeira cena, duas pessoas carregam um colchão em uma rua qualquer; elas caminham até chegar num pequeno, simples e íntimo apartamento. Poucas palavras são trocadas, mas suficientes para anunciar a vinda de alguém que se hospedará ali. Chega Teresa. Ela se estabelece na casa de Francisca, que pouco sabia do motivo e duração da repentina visita. De princípio, ambas estabelecem uma relação estranha, aparentemente íntima, mas, ao mesmo tempo, distante – como acontece quando começamos a morar em um lugar novo. Eventualmente, porém, descobrimos se tratar de um reencontro: as duas eram amigas durante a infância/adolescência. Com o tempo e a saudades de casa aumentando, elas vão se aproximando, começam a compartilhar mais seus sentimentos e espaços, permitindo que uma amizade acolhedora se estabeleça.

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Acompanhamos Francisca e seus rituais diários enquanto Teresa começa a se relacionar com a cidade: vai ao mercado, passa por um bar onde conhece algumas pessoas, passeia pelas ruas. Como mencionado anteriormente, a câmera a acompanha respeitando o momento da personagem, mantendo-se distante. O ritmo do filme vai se estabelecendo sutilmente, de forma a nos habituarmos a ele. Mesmo com cotidianos bem autônomos, percebemos que as personagens compartilham um espaço em comum, aquele em que dividem a descoberta de uma cidade, a solidão, a distância da terra natal e a saudade do mar.

Esse cotidiano também permite um maior acesso às personalidades delas, que começam a se evidenciar com mais clareza: Teresa tem gestos inquietos, enquanto Francisca é leve e precisa. Teresa tende a se isentar das obrigações, responsabilidades e até mesmo de uma rotina mais convencional; demonstra ser mais perdida e indecisa, ao mesmo tempo em que percebemos nela uma grande necessidade de manter uma base sólida, um ponto fixo, seja a família, um lugar ou alguém. Já Francisca é mais decidida, exigente e, acima de tudo autocentrada –  quando a câmera foca no olhar dela em silêncio, a presença é tão única e forte que parece nos tocar. E mesmo apresentando rigidez, demonstra não necessitar de algo estável, fixo, duradouro, consistente. Talvez por isso, na cena em que Francisca anuncia sua repentina decisão de voltar para Portugal, e Teresa, bem chateada, pergunta se tem certeza de que é isso que quer, Francisca a olha e apenas diz: “eu não tenho certeza de nada”.

A angústia, força e beleza dessa fala me lembrou algo que recentemente comecei a conhecer: a juventude. Momento posterior à efervescência caótica adolescente, em que, de forma gradativa, começamos a sentir o peso do tempo, das responsabilidades e a efemeridade das coisas. Deparamo-nos com abismos (que já nos cercavam) e começamos a ter consciência do envelhecer – talvez por este motivo, tamanha seja a importância de onde estamos enquanto acontece. A vida vai se tornando mais palpável e, assim, o silêncio vai se tornando mais presente. Mas por quê?

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Talvez porque o silêncio seja a única resposta possível à angústia e, em certos momentos, à insatisfação que percebemos ter diante da vida e do mundo (por acontecerem independentemente de nós). Ou então, por  nos apresentar como a melhor forma de reagirmos diante do passar do tempo, simplesmente por ser a linguagem que alcança a solidão e a incerteza sobre as consequências de nossas escolhas. Pelo fato de nunca sabemos se é melhor ir ou ficar, assim como o dilema que vivem as personagens.

O filme nos permite apenas a dúvida: se ficamos ou não, o que “curiosamente coincide com um drama tipicamente belo-horizontino”, como mesmo disse a diretora em uma entrevista[1].  No fim, Francisca vai e Teresa decide ficar. Em contraponto ao silêncio das personagens, que se torna ainda mais forte com o desfecho, a única despedida possível é a música Soluços, de Jards Macalé.

Mesmo quem vive, esquece que viver é isso: abraçar a insegurança, abrir-se para o novo, despedir-se e, ainda que com olhos vermelhos e irritados, seguir.

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[1] https://www.cartacapital.com.br/cultura/a-cidade-onde-envelheco-e-o-dilema-entre-ficar-ou-partir