Corra! (2017), de Jordan Peele

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Do Lugar Comum ao Lugar Profundo

Daniel Rodriguez

Uma das características mais interessantes do horror enquanto gênero cinematográfico é sua responsividade frente ao cenário sócio-político. Tal característica é particularmente notável nos Estados Unidos, especialmente se observarmos os períodos que compreendem do macartismo ao governo de Ronald Reagan: nestes, diversas obras foram marcadas por críticas ao consumismo, elogios à cultura jovem, representações da paranoia comunista e do surgimento da epidemia de AIDS, por exemplo. [1]

Em seu Corra! (2017), Jordan Peele busca representar, utilizando-se da linguagem do horror, um dos principais entraves sociais de sua época (e de épocas passadas): o racismo nos Estados Unidos. Em uma época polarizada, na qual florescem movimentos sociais como Black Lives Matter, Peele intercedeu de maneira cirúrgica, preenchendo uma demanda urgente. O resultado foi descomunal, com o longa tendo sido abraçado em igual medida por crítica e público, e chegando a números de bilheteria que o colocaram na história: trata-se do primeiro filme de estreia de um cineasta negro a ultrapassar a marca de arrecadação de cem milhões de dólares.

Durante as primeiras sequências do longa, um homem negro caminha descompromissado por uma rua deserta num típico subúrbio burguês americano, repleto de casas imensas com jardins e cercas brancas – e moradores igualmente brancos, muito provavelmente. Um único carro transita pela rua de forma suspeita, provocando ansiedade no caminhante. Esse é eventualmente sequestrado por um sujeito mascarado. À primeira vista, Peele joga com a questão do preconceito racial, colocando em cena um negro amedrontado por estar andando sozinho em um bairro de classe média branca. Para além disso, é possível perceber uma das influências estéticas do diretor-roteirista, que é o cinema de John Carpenter (sobretudo o filme Halloween (1978)). O pequeno prólogo ainda conta com uma trilha instrumental distorcida que remete ao cinema de Alfred Hitchcock e às composições de Bernard Herrman.

Anuncia-se assim a predileção de Peele pela estética do terror dos anos 60 e 70 em seu longa de estreia. Daí em diante, seguem-se três momentos bem distintos, de apresentação, desconfiança e revelação, que transcorrem de maneira bem linear e simples.

Durante a apresentação dos personagens e do enredo que se desvelará, os enquadramentos são, em sua maioria, fechados, assim como as locações – ora os personagens estão dentro de um apartamento pequeno, ora dentro do carro. Tal escolha parece refletir tanto o aprisionamento simbólico do protagonista (um negro em um país racista) quanto a apreensão do mesmo em sair de seu espaço para conhecer os pais brancos de sua namorada também branca. Aqui, o título original, “Get Out”, parece funcionar em um âmbito mais metafórico.

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A primeira referência direta ao racismo acontece no trajeto percorrido pelo casal rumo ao interior, onde vivem os pais da mulher. O atropelamento de um cervo, evento que, posteriormente, ilustrará um dilema psicológico do personagem central, leva a um encontro com a polícia local. Esse momento é mais um aceno que Corra! faz ao horror, com os tradicionais encontros à beira de estrada no interior, geralmente servindo de aviso para o que está por vir.

Aqui, o oficial interpela Chris, pedindo seus documentos, apesar do mesmo não estar dirigindo na hora do acidente. Sua namorada toma aquilo como atitude racista e questiona a situação. Trata-se da primeira manifestação de um tropo recorrente ao longo do filme, que consiste em pessoas brancas manifestando seus preconceitos veladamente, enquanto o protagonista reage de forma passiva e a namorada se mostra indignada. Durante boa parte da projeção, essa postura dos personagens reflete um comportamento social, tanto de quem pratica, quanto de quem sofre e se indigna.

O encontro de Chris com os sogros brancos e ricos é pontuado por interjeições tipicamente utilizadas por negros, como “my man” e comentários afirmativos como “eu votaria em Obama uma terceira vez se pudesse”, em uma aparente tentativa de refutar qualquer tipo de racismo próprio, mas que tem resultado oposto. É interessante notarmos que, logo no primeiro dia de estadia de Chris naquela casa, antes da chegada de vários outros personagens para o encontro anual que ali será realizado, o roteiro expõe vários elementos chave para a compreensão do mistério que se revela no terceiro ato. Os diálogos que, à priori, aparentam ser uma série de digressões, são, em verdade, instigações ao espectador, muito semelhantes ao que percebemos nos roteiros de M. Night Shyamalan.

Esteticamente, Peele faz referências ao cinema que parece admirar e que busca reproduzir. Não obstante, há pouco de extraordinário em seus enquadramentos e composições. Ao fim da sequência anteriormente citada, logo no início do segundo ato, quando a paranoia começa a se instalar, a voz artística do autor se faz ouvida em um momento de beleza poética único. Em uma sessão de hipnose forçada, Chris se vê navegando entre diferentes níveis de consciência. Um dilema que remonta à infância do mesmo vem à tona e ele é conduzidoa lugar profundo, perdido nos confins de sua mente. O plano esplendoroso que se segue retrata o personagem em queda, dentro de um ambiente escuro e etéreo, com o mundo exterior reduzido a uma pequena tela. Vem-me à mente a cena de Trainspotting (1996) na qual Renton, em uma aparente overdose de heroína, afunda no chão do apartamento e passa a perceber o mundo como um mero espectador por detrás dos próprios olhos. Há um contorno muito mais fantástico na representação de Peele, que torna a composição ainda mais marcante.

Os personagens que aparecem gradativamente após esse encontro repetem o mesmo discurso racista velado, de forma um tanto quanto reiterativa. O resultado alcançado por esse vício do texto cai no campo da obviedade, deixando de se beneficiar das sutilezas, porém alcançando uma provocação visceral. Os ricaços brancos dão a impressão de serem falsos humanos. Suas interações e as mise-en-scènes em que participam parecem dialogar com clássicos da ficção científica como Vampiros de Almas (1956) e Invasores de Corpos (1978).

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Tanto o mote racista quanto o suspense anunciado são ressaltados também por outro personagem secundário, também negro. Na posição de alívio cômico, as aparições do amigo de Chris, Rod Williams, servem para dar vazão à tensão e denunciar, pelo artifício do humor, o absurdo da situação em que o outro se encontra.

No último ato, revela-se a real intenção da família da namorada, espécie de eugenistas fantasiosos e extremistas. Boa parte da ambientação e os vídeos institucionais sobre o projeto Coagula remetem aos anos 60 e 70 e a experimentos científicos realizados em países como Rússia e Estados Unidos, nos moldes do programa MK ULTRA. O que se segue é uma transição do campo do suspense para o terror, marcado pela transição, por parte do personagem central, de uma posição passiva para uma ativa.

A resolução do caso ainda joga com expectativas do público, invertendo valores de forma inteligente e divertida, semelhante ao que ocorre no prólogo. A título de exemplo, na sequência em que Chris se liberta de seus captores, ele utiliza algodão que retira da poltrona em que está amarrado, para então tapar os ouvidos, protegendo-se do controle hipnótico. O ato é uma alusão bem sutil ao trabalho de negros nas plantações de algodão, um dos principais palcos da escravidão naquele país. Em inglês, tanto a ação de colher algodão como pegá-lo na poltrona pode ser descrito como “picking cotton”.

Muito se falou de Corra! e a questão do racismo e da crítica social no horror, nos meses que seguiram seu lançamento nos Estados Unidos. Imediatamente me recordei do cinema de George Romero, ou mais especificamente de seu filme de estreia, A Noite dos Mortos Vivos (1968), peça que revolucionou o gênero e marcou o cinema de sua época por, entre outras coisas, criticar de modo pungente o preconceito racial, em um período no qual o tema era ainda mais sensível. Romero, por sua vez, apresentou um retrato muito mais taciturno e pessimista sobre a questão, ao passo que Peele buscou pintar um quadro mais otimista.

Com sua estreia, Peele faz não apenas um filme, mas também uma declaração aberta sobre os absurdos do racismo, se utilizando da linguagem estabelecida pelo cinema de horror e suspense, com diversos acenos para as fontes das quais parece beber.

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[1] Importante salientar que tal responsividade não se limita ao horror americano. É facilmente observável também no cinema japonês, por exemplo, que tanto retratou o medo do avanço tecnológico do país, ou no cinema underground alemão surgido nos anos 80, que refutou todo e qualquer pudor assumido pelo país após a guerra.