Vá e Veja: Pelo Direito de Existir

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Joana Oliveira

Para celebrar o 40º aniversário da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial, o governo soviético encomendou um filme ao diretor russo Elem Klimov. O resultado é Idi i Smotri de 1985. Muito mais do que um simples filme comemorativo, ele é um relato duro e onírico sobre os horrores da grande guerra.

Idi i Smotri significa em português ‘Vem e Vê’ mas o filme é encontrado com dois nomes em português: Vem e Vê ou Vá e Veja, sendo o segundo mais comum no Brasil. Assim sendo, pode passar desapercebido a alguns espectadores que o nome do filme venha de uma citação do Apocalipse:

“E havendo o cordeiro aberto um dos selos, olhei, e ouvi um dos quatro animais que dizia como em voz de trovão: Vem, e vê.” (Apocalipse, cap. 6, versículo 1)

Esse título remete aos inocentes que sofreram a barbárie e que querem denunciá-la. O filme relata o genocídio dos camponeses soviéticos (sem deixar de mencionar o outro genocídio que estava acontecendo também em grande escala com o povo judeu) e o nascimento da adesão do campo ao exército vermelho.

Elem Klimov fez um filme grandioso em vários aspectos; ele domina por completo a imagem e o som e constrói, com esses elementos, as impressões que quer deixar no espectador sobre o que considera ser uma guerra. Klimov era apenas uma criança quando Stalingrado sofreu o cerco nazista, ele e sua mãe conseguiram fugir da morte, mas a marca do horror permaneceu no menino. Uma vez, ao ser abordado sobre seu longa-metragem, disse: “Meu filme seria uma versão leve do que nós vivemos. Fui incapaz de filmar o que foi”. Essa afirmativa chega a ser inacreditável para o espectador, pois a sensação que fica para quem acabou de assistí-lo é que a guerra é uma experiência de dor e perda das mais duras possíveis. Por mais que haja no filme de Klimov momentos de grande delicadeza e poesia, a tensão nunca é deixada de lado e o relato só caminha para mais obscuridão. E toda essa narrativa de horror é ambientada em locações pouco comuns no cinema ao retratar uma guerra. Não há cidades destruídas ou ambientes de grande aglomeração de pessoas. As locações são bosques, florestas, estradas de terra, campos, plantações e pequenas vilas com casas feitas de madeira.

Vá e Veja (Vem e Veja) se passa na Bielorrússia em 1943 e é baseado em fatos reais, a história de Ales Adamovich – co-roteirista do filme junto com Elem Klimov. Nessa época, depois de saber de vários ataques a aldeias bielorrussas, milícias camponesas começaram a formar-se com o objetivo de se juntarem ao exército vermelho. O protagonista do filme é um menino, pré-adolescente, chamado Florya que encontra um rifle e resolve aderir a estas milícias mesmo contra os pedidos de sua mãe, que já havia sido deixada só com as filhas pelo marido que partiu para a luta. É interessante ressaltar que a escolha do tema  por Klimov tem forte conexão com sua história pessoal e não só com a história de vida de Adamovich. A idade do protagonista é próxima da idade que o diretor tinha quando sofreu o cerco nazista.

Florya se junta ao exército provisório por pouco tempo, pois logo é deixado para trás. Os adultos o afastam por ser jovem demais. Muito decepcionado, ele começa a sua marcha de volta ao vilarejo e, no caminho, encontra-se com uma garota um pouco mais velha que ele, Glasha, amante de um dos líderes da milícia que também fora abandonada. Logo após o encontro, eles sofrem um bombardeio. A partir desse momento começamos a entender melhor a intenção do diretor ao construir a narrativa do filme. Ele não espera somente que acompanhemos o protagonista em sua odisséia e sim que soframos junto com ele, como se estivéssemos em sua cabeça. Em meio ao ataque, Florya começa a ouvir um forte zunido e por vezes não ouve nada. O ruído cresce e soldados nazistas caem do céu de paraquedas enquanto os dois jovens tentam fugir. O ambiente sonoro reconstrói as sensações de realidade sentidas por Florya.

Após o desespero, o filme se torna mais poético, quase uma fábula infantil. Dois jovens no meio do bosque brincam com a vegetação e a chuva. Entretanto, a diversão é o tempo todo interrompida por ruídos estranhos e mesmo quando Glasha dança e Florya ri, sentimos uma certa tensão. É como se conseguíssemos nos encantar com o que vemos, mas esperando a catástrofe que, claro, chega. No final de sua caminhada de volta à casa, Florya encontra seu vilarejo abandonado. Ele reluta em entender o que aconteceu com todos os que viviam aí. Sua casa está abandonada, às moscas. Quando vê as bonecas das irmãs e os insetos em volta, segura a cabeça como se sentisse imensa dor e ouvimos o zunido de seus ouvidos. Ele sai de casa e procura por alguém nas ruas, sem encontrar. Florya se lembra de um esconderijo e corre, acompanhado pela amiga, deixando a vila. Glasha olha para o vilarejo que fica para trás e vê o que Florya não encontrou: muitos corpos seminus amontoados uns em cima dos outros em uma referência às imagens de arquivo feitas nos campos de concentração nazistas. A jovem não consegue pronunciar o que viu e continua seguindo Florya. Eles atravessam um lamaçal em um longo plano-sequência acompanhado de ruídos que interferem no relato.  Alguns acordes ensaiam começar uma música, mas não conseguem e parecem mergulhados na lama. A menina já entendeu o que se passou e, ao final da travessia do pântano, grita que todos foram assassinados, Florya continua relutando. Eles encontram pessoas que conseguiram fugir do massacre nazista ao vilarejo. Todos choram e contam que a mãe e as irmãs de Florya haviam sido mortas pelos soldados, assim como a maioria da vila. Só há um sobrevivente, um senhor todo queimado que conta como os soldados nazistas se divertiram em queimá-lo vivo e não o mataram mesmo após suas súplicas. É então que o zunido volta. O protagonista não quer acreditar e enfia a cabeça na lama. A partir desse momento do filme, a infância do menino se acabou e percebemos também que a própria fisionomia dele começa a mudar. Desde o início do relato, há primeiros planos do rosto do protagonista que, gradualmente, vai mudando diante da barbárie; sua face expressa o ódio, a dor, o torpor e a tristeza. A mudança de sua fisionomia é muito impressionante, um envelhecimento pelo sofrimento. A atuação de Alexey Kravchenko corresponde à entrega exigida pelo papel, tão grande que um psicólogo o acompanhou em toda a filmagem. Diz-se também que este psicólogo usou de técnicas de hipnose para conseguir tamanha transformação.

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Depois de entender o que havia acontecido, Florya deixa que cortem seus cabelos (símbolo da perda da inocência). As pessoas revoltadas e desesperadas fazem um boneco de Hitler com o esqueleto de uma vítima e lama, uma metáfora do massacre feito pelo nazismo. Depois um a um, os moradores cospem no boneco que parece um espantalho fazendo a reverência nazista. O boneco-espantalho é levado por Florya que se junta a outros três homens que vão buscar comida para os moradores famintos. Uma nova odisséia começa. Eles deixam o “Hitler” no meio de uma estrada para que os invasores sintam a resistência.

A presença e a ameaça nazista sobre a Bielorrússia é sentida o tempo todo pois aviões alemães sobrevoam a paisagem desde o começo do filme. Eles pontuam a narrativa; logo no início do filme quando o menino procura o rifle, um avião sobrevoa a cena e há até um plano aéreo como se os nazistas observassem a paisagem e o protagonista e de fundo toca o hino alemão (em uma gravação antiga, passando justamente a parte que hoje é proibida na Alemanha por haver sido muito usada pelo nazismo), depois quando há o bombardeio e quando os soldados caem de pára-quedas do céu, passam mais aviões. A presença nazista aparece também de outra forma; folhetos caem do céu. Papéis estão por todos os lados em uma estrada deserta de terra e continuam caindo à medida que os aviões passam. No papel está escrito “Os bolcheviques e os judeus só com uma pedrada na cabeça”. Essa é a primeira referência explícita ao genocídios que já estava sendo feito com os dois povos e que será amplamente denunciado mais a frente do filme.

O protagonista e seus companheiros seguem em sua procura por comida, porém um a um vão morrendo sendo acertados pelo inimigo. Na seqüência inesquecível em que a vaca que Florya e um companheiro haviam roubado é atingida por tiros e cai agonizante, o medo é traduzido no plano detalhe da tremedeira descontrolada do globo ocular do animal. O zunido volta, Florya não aceita que a fonte de alimento para os sobreviventes que ficaram para trás em sua aldeia haja morrido. Mais uma vez o espectador se sente na pele desse menino em sua luta desesperada e frustrante contra um mal que não pode enfrentar. Ele puxa a vaca, a empura, quer que ela esteja viva. A não aceitação da morte é também a não aceitação da realidade dura, da guerra que não o deixa em paz.

Florya chega então a outro vilarejo. É aí que há a seqüência de invasão e extermínio de seus moradores pelos soldados nazistas – uma espécie de clímax tanto da violência e do absurdo quanto do vigor estético extraído desse extremo.  A ameaça nazista que até então não havia sido confrontada pelo jovem aparece e supera o que se imagina do horror. Klimov frusta qualquer expectativa de dar sentido ao caos, cada imagem que vem a seguir é mais que um murro no estômago.

Os nazistas chegam ao vilarejo, expõe um cadáver que leva um cartaz: “Hoje de manhã maltratei um soldado alemão”, invadem, são agressivos, cobram dinheiro dos camponeses (assim como faziam com os judeus, obrigando-os a pagar suas passagens de trem para o campo de concentração) e colocam todos os habitantes em um armazém de madeira. Nesse momento há uma seqüência em que um colaborador do vilarejo mostra aonde mora um judeu. É então que os soldados o buscam dizendo “Caçamos o judeu. Caiu um judeu nas mãos de Deus”, o jogam no chão e o chutam antes de coloca-lo no armazém. Essa é outra referência que o diretor faz ao Holocausto. Com o judeu os nazistas são ainda mais agressivos. O armazém cheio de gente também faz lembrar uma enorme câmara de gás cheia de pessoas que serão mortas. Logo um soldado anuncia: “Quem não tem filhos pode sair. Pode ser por aqui, pela janela. Deixem as crianças!”. Todos gritam e choram, poucos saem pela janela, incluindo Florya que assiste de longe a parte mais impressionante e cruel do filme. Os nazistas lançam chamas no armazém, jogam granadas, bombas, atiram freneticamente e se divertem vendo as chamas. Do armazém de madeira, além do fogo e da fumaça, vemos a porta de entrada que balança pelas mãos desesperadas dos que estão dentro tentando sair. A violência neste filme não é uma violência gráfica como estamos acostumados a ver nos filmes de ação de Hollywood – onde as mortes são necessárias para dar mais “emoção” e “adrenalina” ao espectador. É uma violência que dá asco, que não se quer mais ver. Muitas vezes desejamos que o filme termine logo.

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Depois do massacre, o exército vermelho encontra-se com o nazista, o derrota e cerca os culpados. Florya encontra-se com sua amiga Glasha quase irreconhecível, maltratada física e psicologicamente. A população que sobrou da vila tem que decidir o que fazer com os mandantes da barbárie. O protagonista, totalmente transtornado, aponta ao alemão que mandou que os que não tivessem crianças saíssem do armazém. A atenção se volta para o soldado que faz um discurso sobre o direito à infância: “Disse isso porque tudo começa com as crianças. Elas não têm o direito de existir. Nem todos os povos têm direito ao futuro. As raças inferiores procriam o contágio do comunismo. Quando vocês não mais existirem, minha missão estará cumprida. Se não hoje, amanhã.” Esse discurso é o mesmo discurso de ódio à raça judia proclamado pelo nazismo. A chamada “solução final”, resolução tomada pela cúpula nazista na conferência de Wannsee em 20 de janeiro de 1942, decidia retirar o direito de existir aos judeus, ou seja, exterminá-los. Em nenhuma outra guerra se matou tantas crianças, mulheres e civis só pelo fato de que eles existiam. Nenhuma outra ideologia proclamou a eliminação total de uma raça. O nazismo é considerado a evidência do mal maior, a mais triste prova do que o ser humano é capaz de fazer com seus iguais. Não há desculpa ou explicação para tanto ódio e tanta maldade. Qualquer tentativa é banal. Nesse capítulo da história, os seres humanos deixaram de ser. Tanto porque alguns eram considerados como nada, quanto porque outros atingiram a barbárie total. O filme de Klimov não embeleza o que foram os genocídios e nem os banaliza.

O ódio dos camponeses transborda depois que o soldado acaba de contar sua justificativa de exterminar as crianças do vilarejo. Todos começam a atirar nos nazistas e nos colaboradores bielorussos em uma explosão de raiva. De repente, a montagem que acontecia com o áudio (interferências de sons de arquivo) acontece com a imagem. Cenas dos cadáveres são montadas com imagens de arquivo feitas de judeus mortos e semi-vivos em campos de concentração. Aqui o diretor nos dá o recado de que tudo o que vimos não foi ficção, aconteceu de verdade. O massacre dos mais de 20 milhões de russos, bielorussos e ucranianos não foi filmado, mas outro massacre teve imagens feitas; quando os aliados chegaram aos campos de concentração e extermínio nazistas na Alemanha e Polônia eles documentaram o que foi feito ao povo judeu. O diretor mostra os dois extermínios: fala diretamente de um, filmando uma ficção baseada em fatos reais que aconteceu em terras soviéticas e mostra as imagens de arquivo, fazendo referência ao outro extermínio que totalizou cerca de 6 milhões de judeus.

O filme termina com um confronto final entre Florya e um pôster de Adolf Hitler. Chega a ser difícil tentar descrever a carga emocional dessa seqüência. Florya empunha seu rifle e atira na imagem do líder nazista. Imagens de arquivo do período de 1945 a 1933 são montadas de trás para frente, simbolizando a vontade do jovem de que nada daquilo houvesse acontecido. Ele atira e enxerga as imagens. É como se sua vontade fosse que, em ordem decrescente, tudo voltasse no tempo. A cada tiro, ele mata uma etapa da ascensão nazista. Começa com imagens de Hitler mais velho, condecorando crianças passando por campos de concentração, desfiles militares, ataques aéreos, casas sendo destruídas e segue até um pôster da ascensão de Hitler em 1933. Mas dentro das tomadas em si, tudo está de trás para frente: as casas que sofrem explosões são reconstruídas, soldados marcham para trás (como se voltassem para casa), os paraquedistas voltam aos aviões, um alemão desmancha a estrela de David pintada na vitrine de uma loja. A partir da imagem que simboliza Hitler tomando o poder na década de 1930, ouvimos o último disparo. Logo depois disso, Florya imagina Hitler jovem em sua classe de escola, logo criança e logo bebê no colo de sua mãe. É então que ele já não pode disparar a arma, como se não pudesse repetir a barbárie de matar uma criança, mesmo desejando que o nazismo não tivesse nunca existido. Ele não pode dar o último tiro e matar um neném, mesmo que simbolicamente.  As lágrimas caem de seu rosto em um dos mais marcantes e sinceros closes do menino. Começa um lindo réquiem de Mozart. As milícias seguem marchando pelos bosques, dessa vez Florya as acompanha. E começa a nevar vagarosamente. A neve, embalada pela música, anuncia o fim da guerra que está próximo.