Paris Is Burning (1991), de Jennie Livingston

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Cartografia de desejos

João Campos

Ser queer significa levar um outro tipo de vida. Não é sobre o mainstream, margens de lucro, patriotismo, patriarcado ou sobre ser assimilado. Não é sobre diretores executivos, privilégio e elitismo. É sobre estar nas margens, definindo nós mesmas; é sobre desfazer gênero e segredos, sobre o que está abaixo do cinto e, profundo, dentro do coração. É sobre a noite. Ser queer é ser “local” porque sabemos que cada uma de nós, cada corpo, cada gozo, cada coração e cu e pau é um mundo de prazeres esperando para serem explorados. Cada uma de nós é um mundo de possibilidades infinitas.

Manifesto Queer Nation

 

Dando continuidade ao ciclo de mostras e seminários chamado “Cinemas e alteridades”, iniciado em 2011, o forumdoc nos apresenta a mostra/seminário “Queer e a Câmera”. Paris Is Burning (1991) abre esse importante evento, trazendo para o público um olhar sobre a cena dos ballrooms de Nova York. Uma das questões do filme é, sem dúvidas, a negritude queer. Segundo Paulo Maia, organizador da mostra/seminário, a temática negra é “um dos aspectos latentes dessa filmografia queer da passagem dos anos 1980 para os 1990”[1], virada em que Paris Is Burning é lançado. Ruby Rich chamou a filmografia supracitada de New Queer Cinema. Segundo a autora:

é claro que os novos filmes e vídeos queer não são todos um só e tampouco compartilham um único vocabulário estético, estratégia ou preocupação. Ainda assim, eles são unidos por um estilo comum: chamaremos de “Homo Pomo”. Há traços em todos esses filmes de apropriação, pastiche e de ironia, assim como uma reelaboração da história que leva sempre em consideração um construtivismo social. Definitivamente rompendo com abordagens humanistas antigas e com filmes e fitas que acompanham políticas de identidade, essas obras são irreverentes, enérgicas, alternadamente minimalistas e excessivas. Acima de tudo, elas são cheias de prazer. Elas estão aqui, elas são queer, acostume seus quadris a elas.[2]

Paris Is Burning explora esse universo subterrâneo, apresentando, através de um conjunto de entrevistas e blocos temáticos um tanto didático, uma espécie de cartografia dos desejos da negritude queer de Nova York. Nos balls, as pessoas performam seus desejos, projetando, nos seus corpos, gestos e movimentos, a diferença de sua identidade transgressora.

Podemos dizer que Paris Is Burning é uma incursão etnográfica nos ballrooms nova-iorquinos. Jennie Livingston busca, através da voz de pessoas transexuais, transgênero, gays e drag queens, explicar um sistema simbólico, ou uma cultura. Gêneros de dança e competição, casas e termos utilizados na experiência cotidiana dessas pessoas são esclarecidos ao público nas entrevistas e demais conversas.

Talvez o maior êxito do filme esteja relacionado ao respeito que a cineasta manteve com as pessoas que filmava. Os horrores de uma vida arriscada ficaram quase que completamente fora de campo, surgindo aqui e ali, sempre através do verbo nativo, enquanto relatos residuais. No filme, vamos ao encontro de um universo ainda invisibilizado (imagine em 1991). Tudo que os personagens de Paris Is Burning têm está no universo dos ballrooms: na pista eles projetam seus futuros, assumem responsabilidades e afirmam sua potência. Ali, vemos o ruminar de um desejo de legitimação e respeito pela existência queer.

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Notas:

[1] MAIA, Paulo. “Queer e a câmera”. Disponível no catálogo do festival, p. 36.

[2]RICH, Ruby apud MAIA, Paulo. . “Queer e a câmera”. Disponível no catálogo do festival, p. 36.