O Silêncio do Céu (2015), de Marco Dutra

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This is a man’s world

 Veriana Ribeiro

Presenciar o estupro de Diana, personagem interpretada por Carolina Dieckmann no filme O Silêncio do Céu (2015), dirigido pelo brasileiro Marco Dutra e co-produzido por vários países da América Latina (Chile/ Brasil/ Argentina/ Uruguai), é angustiante. Filmada do ponto de vista da personagem, a cena fica ainda mais difícil de digerir em função do uso do som abafado na mixagem. Assim como ela, não podemos fugir daquela violência e nos desesperamos junto com a personagem.

Toda a sequência inicial – que vai do estupro da personagem ao telefonema para o marido e a chegada da família na casa – mostra uma situação complexa, brutal e dolorosa. Dutra toma cuidado para não sexualizar Diana em nenhum momento: o olhar de Dieckmann diz tudo, sem que ela precise falar nada. Quem é acostumado com as interpretações novelescas da atriz se impressiona com sua interpretação, mesmo que ela tenha dificuldade em falar espanhol. Talvez por isso seja tão difícil aceitar a transformação que ocorre no filme quando o personagem de Mario (Leonardo Sbaraglia) ganha destaque. Por mais que o diretor tente mostrar como os dois personagens são atingidos pela violência, é a visão masculina que comanda.

Nas primeira cenas, Mario aparece como um personagem preocupado com o bem-estar da esposa. Sente que há algo errado e tenta se comunicar, superar a barreira colocada por Diana. Logo em seguida, descobrimos que o personagem já sabia do estupro. Ao chegar mais cedo em casa, presenciou o ato, mas, refém de suas fobias, não conseguiu agir, tornando-se um espectador. Ele ganha uma camada maior: sente-se culpado por não ter impedido a violência e, por isso, resolve assumir o papel de algoz dos abusadores.

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No entanto, o objetivo de Mário não é de proteger a esposa. Sua jornada é para redimir-se de seus medos e sua culpa. Ele luta contra si mesmo, Diana pouco importa nessa equação. A verdade é que, apesar do estupro ser o grande estopim da história, ele não precisava existir para que a narrativa funcionasse. Poderia ter sido um assalto, a morte de um filho, um aborto, até mesmo uma unha encravada. Esse não é um filme sobre estupro, mas sobre o silêncio de um casal e a jornada de um homem contra seus fantasmas interiores. Como diz a canção de James Brown, “This is a man’s world” e somos obrigados a aceitar essa verdade durante todo o longa-metragem. O estupro de Diana muda a vida de Mário. Ela continua sua rotina, trabalhando em uma coleção de roupas, cuidando da casa e dos filhos. Mario abandona os projetos, para de frequentar o trabalho e segue em uma cruzada para encontrar os homens que violentaram a esposa.

Mário não sabe lidar com a força da esposa, que conhece todas as suas fobias. Ele revela que antes da separação do casal, obrigava Diana a revelar seus segredos e pensamentos apenas para atingi-la. Essa foi a forma que o personagem encontrou para diminuí-la. Não é possível para Mario ser inferior à esposa – ela que não tem medo, comparada a ele, que teme tudo. Sabendo dessa informação, a preocupação do personagem ganha um tom de perversidade.

O incômodo vai crescendo à medida que a relação entre Diana e os estupradores é revelada. É como se, de alguma forma, a história culpasse Diana pelo seu estupro. O filme é a adaptação de um livro argentino, não é possível culpar o diretor e os roteiristas por essa escolha narrativa. Dutra tenta se redimir, termina o filme através do olhar de Diana. Retoma seu infortúnio, tenta dar voz à personagem que passou boa parte do filme calada (ou tomando banho). Infelizmente, é tarde demais. A verdade é que O Silêncio do Céu é um filme feito para homens, sobre o drama de um homem. Dar um pequeno espaço para personagem feminina nos minutos iniciais e finais da película não vai mudar essa realidade.

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Embora façamos objeções ao modo como o personagem e aspectos da narrativa são compostos, precisamos reconhecer o trabalho primoroso de Dutra, com uma fotografia impecável e um suspense bem orquestrado, inspirado nos trabalhos de Alfred Hitchcock (inclusive, o próprio diretor faz uma participação Hitchcockiana durante o longa-metragem). O jogo de luz, cores e sombras no clímax do filme é impressionante, não apenas pela beleza estética, mas por traduzir o sentimento de cada personagem naquela situação: a raiva de Mário, a vergonha de Diana.

O embate interior de Mario contra seus medos é desempenhado de uma forma tão cuidadosa e real por Leonardo Sbaraglia que é fácil se identificar com seu drama. A narração do personagem, que se confessa em off durante todo o filme, acaba facilitando essa conexão. É exatamente isso que falta a Diana e as últimas cenas, narradas pela personagem, não são suficientes para transpor a barreira que foi construída através do seu silêncio. É preciso aceitar que o cinema ainda é um mundo masculino, que tem dificuldades em dar voz às mulheres sobre um assunto tão íntimo e delicado como estupro. Pelo menos, por enquanto.