Mate-me Por Favor (2016), de Anita Rocha

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Morte e Sexo: um retrato da adolescência

Veriana Ribeiro

A adolescência é um momento tão complexo na vida do ser humano que só é possível entendê-la enquanto a vivemos. Mesmo os adultos que já atravessaram essa fase da vida, não conseguem compreender muito bem o turbilhão de inseguranças e hormônios que enfrentam os adolescentes – muitas vezes diminuindo suas experiências e sentimentos. Talvez por isso Mate-me Por Favor (2015), da diretora Anita Rocha, consegue ser tão marcante. Através do terror e do erotismo, ela nos obriga a reviver essas emoções.

No filme, a protagonista é Bia (Valentina Herszage), uma estudante de 15 anos do Colégio Barra da Tijuca que tem um interesse mórbido por assassinatos que ocorrem na região. A maioria das vítimas são garotas de sua idade, apenas um rapaz foi atacado e o filme não se preocupa em explicar o motivo desta mudança no comportamento do serial killer. Na verdade, a diretora não está muito preocupada com resoluções ou em fazer uma representação fiel da realidade. Prefere criar um mundo fantástico, onde o Rio de Janeiro se afasta dos cartões postais brasileiros e os adultos nunca estão presentes.

A mãe de Bia não aparece em cena, é sempre citada por alguém. Os professores não são vistos, apenas escutados através do alto-falante. Os únicos maiores de idade são jovens adultos que se comportam como adolescentes. É o caso de João (Bernardo Marinho), o estranho irmão da protagonista que está obcecado pela ex-namorada ou da pastora da igreja local, que se veste como uma Barbie e canta funk gospel para se aproximar dos seus discípulos. Mas esse universo é necessário para que possamos entender os dramas de Bia e suas melhores amigas. Não existe espaço para praias e adultos nessa realidade, onde os adolescentes estão sempre em perigo.

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Na primeira cena em que as quatro protagonistas aparecem, todas estão deitadas escutando uma história. É a representação do grupo, que marca a fase da adolescência, na qual o jovem precisa se sentir incluído em uma tribo, um coletivo. À medida que o filme avança, as personagens vão se distanciando. É neste momento que a interpretação de Valentina Herszage se destaca. A atriz consegue apresentar uma personagem complexa, que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio. Infelizmente, as outras atrizes do longa-metragem não conseguem alcançar a mesma profundidade de interpretação.

Bia flerta com a morte. Ao encontrar uma garota atacada, ela deita ao seu lado e a beija, sentindo a vítima morrer em seus lábios manchados de sangue. Bia explora o sexo, seja transando com o namorado evangélico ou beijando a colega de escola no banheiro feminino, e fica obcecada com a morte e os crimes na Barra da Tijuca.

Na verdade, Rocha está representando as mudanças que ocorrem na adolescência através do sexo e da morte. Uma relação comum para a diretora, que teve que lidar com o suicídio da melhor amiga, morta aos 19 anos. Todo o longa-metragem parece ser uma homenagem à finitude da vida, tema que sempre encantou a diretora e também está presente em seus curtas-metragens O Vampiro do meio-dia (2008), Handebol (2010) e Os mortos-vivos (2012).

A diretora usa das metáforas para abordar o drama dos personagens. No decorrer de Mate-me Por Favor, as dores emocionais vão se tornando violência física, de forma que, em determinando momento da obra, vários estudantes na escola apresentam algum tipo de machucado. Por mais interessante que seja a abordagem da diretora, entretanto, o uso excessivo de cenas simbólicas torna o filme cansativo.

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A diretora não está interessada em seguir regras ou desvendar os crimes que ocorrem na Barra da Tijuca – apresenta problemas na trama sem o interesse de resolvê-los, utiliza elementos do cinema surrealista para representar emoções e metáforas comuns ao gênero do terror para explicar os sentimentos dos personagens. Obviamente, a trama não é sobre os crimes, mas sobre como tais personagens são atingidos por eles. O problema é que a falta de respostas acaba sendo anticlimática. Isso não seria um problema se os personagens fossem mais interessantes, mas a maioria é caricata: o irmão estranho, a pastora cômica, o namorado evangélico, a amiga funkeira, a garota gorda, a patricinha rica, figuras que ficam apenas na superfície. A falta de profundidade faz com que Bia se destaque, mas impede que seja provocada empatia pelos adolescentes na trama. Simplesmente não nos importamos com o sofrimento deles.

Embora provocativo, Mate-me Por Favor acaba pecando pelo exagero. Muitas cenas são mais longas que o necessário, algo que é visto logo na introdução do filme, durante a perseguição de uma das vítimas. Outro problema é o uso excessivo de música na trilha sonora, concedendo um tom desnecessariamente videoclíptico à obra. Sobra-lhe estilo – existe ali exibicionismo de estreante. O que é uma pena, haja vista seu eventual nível de ousadia e criatividade.