Martírio (2016), de Vincent Carelli

7 martirio

Martírio ou três séculos de resistência Guarani-Kaiowá

João Campos

Em seu novo longa-metragem, Vincent Carelli, em parceria com Ernesto de Carvalho e Tita, nos surpreende e, acima de tudo, nos provoca. Martírio (2016) incita a meditação, não só sobre aqueles que filmamos, mas também sobre o lugar do cinema no mundo contemporâneo. O objetivo do presente texto é dividir reflexões sobre o lugar que a imagem cinematográfica ocupa em nossas vidas e o que o filme de Vincent Carelli provoca nessa perspectiva sobre o cinema.

***

Após a sessão de Martírio (2016), pensei: “estamos diante de uma dos maiores filmes do cinema brasileiro atual”. Seguindo sua missão indigenista, Vincent Carelli realiza uma obra que é, simultaneamente, uma síntese histórica, um momento de invenção e um processo de desvelamento. No filme, somos levados aos trânsitos do autor que, entre estradas, aldeias, fazendas, noticiários, arquivos e relatos, instaura um campo intermediário entre imagens, lugares e perspectivas, contribuindo para uma polifonia de vozes e estilos – sem que isso esconda de que lado o cineasta está. A longa duração do processo de filmagem e elaboração do filme – cerca de três décadas – contribui para uma experiência de reflexividade e cumplicidade. Os momentos road movie, marcados pelas paisagens movediças das viagens de Vicent Carelli e sua equipe, se infiltram entre imagens do congresso nacional, notícias de jornais impressos e televisivos, filmagens de épocas já distantes e o nosso conturbado presente, demonstrando o engajamento do autor e seus companheiros num longo processo de pesquisa e ativismo incessante.

O genocídio indígenas se transforma, em Martírio, numa epopeia rumo à justiça dos invisíveis. Passeando pelas terras do Jaguapirê, espaço em disputa há décadas, o verbo se torna mise-en-scène. Os relatos do suplício dos Guarani e Kaiowá confrontam nossa imaginação, solicitam uma performance de rememoração do que ficou fora de campo na história dos estabelecidos. Sob a égide da ordem e do progresso, “tudo virou cinzas”. Contudo, a resistência persiste!

Ao apontar lugares fantasmáticos, terras tomadas por fazendeiros e pelo poder público, trilhas vazias e outros cantos da mata, os indígenas que dialogam com a equipe de Vincent Carelli – e conosco – fazem surgir memórias de uma urgência, cacos da história que preenchem o vazio aparente de um território mítico, pleno de sentidos. A perspectiva Guarani-Kaiowá entra numa relação dialética com o espectador que, através de um exercício imaginativo, preenche o vazio com o verbo indígena.

A mise-en-scène é tomada pelos indígenas, demonstrando claramente de que lado está Vincent Carelli nesse conflito, seus corpos são filmados entre a potência do grito de guerra e o lamento dos parentes chacinados. Nos interstícios de sentimentos conflitantes, Martírio se estabelece enquanto um gesto de síntese histórica, um momento liminar de reflexão e desvelamento de um campo de batalha entre índios e os caciques do agronegócio.As conflitantes imagens que compõem o filme nos atravessam, marcadas pelos comentários em over de Vincent Carelli, que se coloca abertamente no filme, sempre pronto a incendiar o quadro com a sobriedade de sua voz.

De um mundo invisibilizado pela cultura dominante, Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho, Tita e seus companheiros Guarani-Kaiowá juntam os cacos da história para construir uma narrativa do fora de campo. Este é, com efeito, um filme arqueológico que reúne vestígios da resistência de um povo supliciado, um filme que começa a explorar uma história a ser contada, dando a ver o que ficou obscurecido pelas elipses das narrativas estabelecidas.

Resta-nos repensar o lugar do cinema documentário no contexto atual. Se este nos coloca em relação com a alteridade, construindo momentos de reflexão crítica em parceria com os outros, o contexto em que vivemos impõe ao documentário supere a si mesmo. Martírio é um dos resultados possíveis – e positivos – do cinema num mundo em que a câmera é, cada vez mais, uma ferramenta de crítica coletiva. Ao trazer à tona as dobras da história, somos levados a debater, refletir e produzir as “imagens que nos faltam”. Para tanto, o cinema precisa se dissolver nas realidades em que mergulha. As ruínas do capitalismo solicitam a pluralidade dos olhares, o embate de ideias e práticas distantes que, na experiência documentária, cooperam. O confronto é necessário, e os cineastas compartilham, nesse campo de batalha, uma responsabilidade estética e política. Ao deslocar nossos olhares, filmes como Martírio fazem a história.