Entrevista com Adriano Aprá

22.10.2016. BRASIL. BELO HORIZONTE. MG. 10ª CineBH - Mostra de Cinema de Belo Horizonte e 7º Brasil CineMundi. Longa - Mostra Dialogos Historicos. Sessao Comentada. "Crisantemos Tardios". Sessao comentada e masterclass com o critico italiano Adriano Apra. Local: Cine Humberto Mauro. Foto: Beto Staino/Universo Producao

Por Joana Oliveira

Todo ano a ansiedade é grande para saber quem a Mostra CineBH trará a Belo Horizonte para dar oficinas e palestras em outubro. Quem reclama que nomes internacionais do fazer e pensar cinematográfico não passam por Minas Gerais está pouco antenado com o festival. Além de ver filmes do panorama contemporâneo independente de vários países, nos últimos anos acompanhei aulas abertas de “fazedoras e fazedores” do cinema, como a roteirista espanhola Yolanda Barrasa e a realizadora argentina Lucrécia Martel, vi discussões entre curadores de festivais internacionais, produtores da América Latina e Europa e mesas sobre as políticas para a produção e coprodução cinematográfica no Brasil e países vizinhos.

Nesse ano de 2016, a organização trouxe a Belo Horizonte um dos maiores historiadores italianos e críticos do cinema europeu em atividade, Adriano Aprá.  Com 75 anos e muita energia, ele deu três aulas onde discutiu com o público presente sobre três filmes: Gertrud (1964), de Carl Theodor Dreyer, História do Último Crisântemo (1939), de Kenji Mizoguchi, e O Eclipse (1962), de Michelangelo Antonioni. Em sua carreira, Aprá trabalhou em diversas áreas do fazer cinematográfico. Realizador, crítico, ator, professor e pensador, foi colaborador da revista Filmcritica e cofundador de Cinema & Film, dirigiu os festivais de cinema de Salsomaggiore (anos 70 e 80) e de Pesaro (nos anos 90), que foram dos mais exigentes de Itália. Dirigiu também a Cineteca Nazionale, um dos maiores arquivos fílmicos europeus, em Roma, entre 1998 e 2002. Escreveu ensaios, críticas, artigos e dezenas de livros sobre o cinema italiano, assim como sobre outros autores do moderno cinema europeu, entre eles Warhol, Godard ou Straub-Huillet.

Adriano concordou em dar uma pequena entrevista para a Revista Rocinante.

21.10.2016. BRASIL. BELO HORIZONTE. MG. 10ª CineBH - Mostra de Cinema de Belo Horizonte e 7º Brasil CineMundi. Longa. Mostra Dialogos Historicos. Sessao Comentada. Longa: Gertud. Sessao comentada e masterclass com o critico italiano Adriano Apra. Foto: Beto Staino/Universo Producao

Sr. Adriano, com o volume de informações sobre filmes online e o grande número de críticas, quais são os desafios para os críticos de hoje em dia?

O desafio é ser seletivo, fazer escolhas, impor a ideia do filme como arte e estar aberto a todo tipo de cinematografia, de qualquer país (não somente do dominante cinema norte-americano), buscar por um tipo de cinema experimental (tanto em ficção como em documentário e também em curtas).

Em Belo Horizonte, durante suas aulas, você falou de um projeto online com um tipo de crítica diferente, você poderia descrevê-lo?

Em primeiro lugar, espero que os futuros críticos de cinema façam ensaios audiovisuais, ensaios que empregam um meio homólogo ao cinema e não apenas um meio analógico, como escrever. Em segundo lugar, espero que façam análises hipertextuais em computador. Para ter-se um exemplo, olhem o meu ebook “Critofilm. Cinema che pensa il cinema” e minha análise de Zangiku Monogatari (1939).

No Brasil, um grande número de escolas de cinema se espalhou pelo país nos últimos anos. Ensina-se crítica cinematográfica nas universidades da Itália?

Na Itália, há muitos cursos devotados ao cinema como um todo, não unicamente a história do cinema. Eu, especificamente, dei aulas de História do Cinema Italiano na Universidade de Roma de 2002 a 2009. Mas, tenho que relatar que a maioria dos professores são acadêmicos no pior sentido da palavra. Eles sabem pouco sobre história do cinema como um todo, a maioria deles está teorizando mais que olhando para os filmes como arte. Eles são “especialistas” em pequenos fragmentos do estudo do cinema. São uma categoria fechada que não está aberta para o mundo real da crítica cinematográfica.

Você tem assistido a filmes latino-americanos recentes? Qual aspecto tem chamado sua atenção nessa produção? Você tem diretores(as) favoritos (as)?

Eu não conheço muito do cinema recente latino-americano. Eu cresci com o Cinema Novo do Brasil e com o cinema político dos anos 80 e 70 de outros países da América Latina. Eu gosto do que Júlio Bressane está fazendo. Vi em Belo Horizonte agora o seu Beduíno (2016).  Aquarius (2016) de Kleber Mendonça Filho, que foi tão aclamado na França, não me impressionou muito. Comprei recentemente no Rio de Janeiro vários DVDs de filmes brasileiros que estou assistindo agora. Cabra Marcado para Morrer (1984) me impressionou muito.

21.10.2016. BRASIL. BELO HORIZONTE. MG. 10ª CineBH - Mostra de Cinema de Belo Horizonte e 7º Brasil CineMundi. Visita a Inhotim. Foto: Beto Staino/Universo Producao

Crédito fotos: Beto Staino/Universo Produções