Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho

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Duas famílias                                                                              

                                                                 por Odorico Leal

O oráculo de Delfos tinha uma máxima terrível aos peregrinos que não o compreendiam: Apolo não ensina, Apolo revela. Assim é a arte. E o cinema. Quando quer ensinar, Aquarius (2016) cai em esquematismos didáticos; quando dedica-se a revelar, brilha. Como já acontecia em O Som ao Redor (2012), o novo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho procura tocar numa constelação de temas, de forma direta ou alusiva. Destaco aqui aquele que me parece central ao projeto artístico do diretor pernambucano: o tema da família.

O Som ao Redor e Aquarius são, sob certo aspecto, estudos sobre famílias – mais especificamente, sobre famílias de elite, infelizes, à sua maneira. Ambos tratam de relações de poder – as famílias de Kleber Mendonça Filho gozam de poder e influência – e de conflitos entre as gerações do clã. A família do coronel de engenho de O Som ao Redor habita o mesmo Recife da família de classe média alta – com concebíveis raízes no engenho – a que pertence Clara, a protagonista de Aquarius. É possível que os dois tenham até se cruzado numa rua ou numa padaria. Não na praia: Clara vai ao mar de dia, sob o sol e o olhar de terna cobiça do salva-vidas; o coronel desce à noite e nada entre tubarões. Nessas idas ao mar, em ambos os casos, há um fundo de angústia, envolvendo o tempo, o corpo e a velhice: Clara trata essa angústia com delicadeza, seguindo um senso de preservação; o coronel, com força ríspida quase autodestrutiva.

Esse é o universo de Kleber Mendonça Filho – o cenário urbano do Recife contemporâneo assombrado por fantasmagorias arcaicas. Em O Som ao Redor, visitamos a origem social de Pernambuco – o engenho de cana de açúcar, a cachoeira de sangue, o tempo heroico do matar ou morrer e dos alpendres. Encontramos desolação, mas é esse mundo de mortos que volta e vem acertar as contas com o coronel aburguesado, inserindo a obra, num fecho magistral, na tradição nordestina das narrativas de vingança e crimes de honra. Aí também o tema são os laços familiares.

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Em Aquarius, visitamos os anos 80, o aniversário de tia Lúcia, figura totêmica, guardiã do espírito liberal da família de Clara que, aqui, aparece jovem, de cabelo curto, tendo vencido um câncer. Dado curioso: na mesma época, anos 80, o velho coronel de engenho manda matar o pai dos meninos que, ao final de O Som ao Redor, décadas depois, vão buscar vingança. Aqui, malgrado a presença dos criados que aponta para a senzala, a cena é harmoniosa – não há desolação, mas família e comunhão festiva. Em O Som ao Redor, o passado violento vem em busca do presente; em Aquarius, a imagem do passado é amorosa, mas é também a fonte do conflito atual– é a memória pela qual Clara luta e da qual não pode se desapegar.

Cada descendente do coronel de O Som ao Redor lida com a herança do patriarca ao seu próprio modo, mas todos sofrem de alguma patologia existencial: o mais velho é um saudosista que não quer a casa murada; o do meio é o jovem com algum senso de justiça social – defende o porteiro exaurido e voyeurista -, mas é apático, sem vigor e incapaz de estabelecer laços profundos (a namorada que o acompanha até o engenho sai de cena como se nunca tivesse existido); o mais novo é um aprendiz de criminoso, mimado e irresponsável, de personalidade arrogante e violenta. Todos gozam do patrimônio do patriarca, mas numa atitude hipócrita e infantil de isenção e alheamento. De acordo com a moral do tempo heroico, nenhum deles serve para nada: não vingarão o avô, que é abatido enquanto se desenrola um aniversário de família, numa atmosfera carinhosa e integrada como a do aniversário em Aquarius.

Os descendentes de Clara são menos explorados – Aquarius centra-se na personagem de Sônia Braga, em oposição à abordagem difusa de O Som ao Redor. Mas há duas atitudes em relação à jovial matriarca Clara: os filhos são pragmáticos, menos perdidos pelos descaminhos melancólicos da memória e defendem a venda do apartamento. Já o sobrinho, mais novo, enxerga na tia uma figura exemplar a quem  apresenta a namorada, uma carioca de classe média que sofre da mesma candura cuidadosa pelas coisas velhas e esquecidas. Em O Som ao Redor, é também o descendente mais jovem que mais se aproxima do temperamento do avô, tomando-o também como figura exemplar – é o avô que o neto emula ao descer para arengar arrogantemente com os vigilantes, numa cena memorável (“Essa rua aqui, ó, é da minha família. Gente grande, de dinheiro”).

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Em ambos os filmes, retrata-se a perda de valores comuns entre as gerações, que se espelha na contradição entre os espaços sociais do passado e do presente. Clara não quer abrir mão do apartamento onde criou os filhos, da sala onde guarda seus discos, da janela de onde vê o mar, sempre mais eterno do que os empreendimentos imobiliários. Pede que os filhos a visitem mais e compartilhem dos valores do seu mundo, encantem-se com ele. Não é outra coisa que o coronel de engenho de O Som ao Redor deseja: ele também não abandona o engenho, implora para que o sobrinho visite mais a fazenda, leve a namorada, quer que os descendentes conheçam a origem. Clara e o coronel são profundamente solitários.

De certa forma, O Som ao Redor e Aquarius são filmes complementares: no primeiro, estuda-se uma família sob a égide de um patriarca tradicional com raízes no Nordeste arcaico; no segundo, uma família sob o exemplo de uma matriarca urbana e progressista, de educação cosmopolita. No fim, ao patriarca, Kleber Mendonça Filho concede a morte ao gosto heroico; o vigor e a pujança são transferidos para a matriarca de Aquarius, sua Musa ideológica, que, ao final do filme, confronta e emperra com êxito as forças do progresso desgovernado.