Ritual dos Sádicos (1970), de José Mojica Marins

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A obra-prima perdida de Zé do Caixão

Beatriz Saldanha

O meu mundo é estranho, mas é digno de todos que o queiram aceitar e nunca corrupto como querem fazê-lo, pois é composto, meu amigo, por pessoas estranhas, mas não mais estranhas do que você! (Zé do Caixão)

Olhem: o tarado me violentou. (Carlos Reichenbach)

 

Reconhecido até hoje como o principal representante do cinema de horror brasileiro, o cineasta paulista José Mojica Marins já gozava de plena popularidade em 1969, ano em que realizou Ritual dos sádicos. Seu personagem mais célebre, o agente funerário Zé do Caixão, aparecera em três longas-metragens em apenas cinco anos (À meia-noite levarei sua alma (1964), Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967) e O estranho mundo de Zé do Caixão(1968), e Mojica se tornara um artista multimídia, protagonizando histórias em quadrinhos, gravando marchinhas de carnaval e até mesmo tendo seu próprio programa televisivo. Foi em meio a este crescente que Mojica criou Ritual dos sádicos (1970), uma fita excepcional a começar pelo fato de que foi filmada com sobras de negativo dos filmes de seus colegas cineastas, resultando em um mosaico estético que, simbolicamente, representa a força agregadora de Mojica, o qual, não obstante ser extremamente maltratado pela crítica, era admirado e tido como um influenciador por grande parte dos diretores contemporâneos, como Luís Sérgio Person, Glauber Rocha e Rogério Sganzerla.

Em Ritual dos sádicos Mojica abandona o terreno do horror (ou o expande) para refletir sobre a sua própria criação, aparecendo, pela primeira vez, como “José Mojica Marins, o cineasta”, assim como seu alter ego Zé do Caixão. Ambientado na metrópole de São Paulo, na efervescência da contracultura e da psicodelia, a narrativa não-linear é conectada pelas cenas do acalorado debate entre um controverso psicólogo e uma variedade de diletantes anônimos acerca dos efeitos dos tóxicos na sociedade. Exemplos de “depravação” e “anormalidade” discutidos por eles ilustram o debate de forma um tanto casual, até que alguns dos personagens convergem num experimento que o psicólogo realiza para comprovar a sua teoria de que os tóxicos são estimulantes de taras, termo que dá título ao livro que o doutor publicará.

Por sua vez, tarado pela imagem, Mojica demonstra ansiedade em mostrar tudo da forma mais orgânica e explícita possível, como quando faz a atriz Andréa Bryan efetivamente inserir a agulha no pé. Devido à inabilidade da atriz com a seringa, o resultado é uma longa cena aflitiva da pele sendo perfurada. Apesar da temática fetichista – a cena termina com a moça sentando em um penico, para o deleite de um bando de tarados/viciados –,o tratamento dado aos corpos aqui não difere muito dos filmes de horror que consagraram Mojica. Os belos corpos femininos de algumas das atrizes são mostrados em planos muito aproximados e por ângulos inusitados (incluindo sua marca-registrada: a tomada baixa por entre as pernas das garotas), como se, por si só, celebrasse uma pureza anterior à depravação. As cenas de sexo são doentias e quase sempre trazem personagens angustiadas, humilhadas, violentadas e, num caso mais extremo, morta de maneira brutal, o que soma à uma certa tendência mojicana de representar a mulher de maneira domesticada e absolutamente submissa.

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Quer tenha sido ou não sua intenção, Mojica constrói em Ritual dos sádicos um ensaio cínico sobre os indivíduos e seus papéis sociais, sobre jogos de poder entre os homens e as mulheres, o cafetão e a prostituta, o empregador e a candidata, o traficante e os usuários e, por fim, a matriarca e seus subordinados (família e serventes). Este último caso se refere ao episódio no qual uma socialite dispensa o marido e os empregados, fingindo que vai dormir. Ela permite que fiquem na sala apenas a filha adolescente e o mordomo negro. Todos embarcam naquela encenação de maneira fria, conscientes da inevitabilidade do que está prestes a acontecer e coniventes com a tara da patroa. Escondida, a mulher observa os dois fazerem sexo enquanto, sob influência de drogas, acaricia a crina de um cavalo que levara para dentro de casa. O animal dá o tom surrealista a esta sátira à burguesia, com ares de Buñuel.

Reforçando a ideia de Mojica como agregador, integram o elenco em papéis pequenos os diretores Maurice Capovilla, João Callegaro, Carlos Reichenbach e Jairo Ferreira e o ator Walter C. Portella, como participantes do debate em que Sérgio Hingst interpreta o psicólogo. Ao diretor Ozualdo Candeias (um dos nomes mais significativos da Boca do Lixo, autor de A margem, filme que originou o “Cinema Marginal”) foi reservado um papel maior, de um contador misógino cuja tara é colocar mulheres de quatro e chutar-lhes os traseiros, engrandecido ao final da cena com uma contra-plongée. Já o amigo e produtor Mario Lima faz um homem que tem fetiche em lavar lingeries num tanque, completando o grupo de quatro pessoas que se submeterão à vivência de alguns dos acontecimentos artísticos mais fortes daquele período: uma peça do Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa (que faz uma breve aparição), uma festa hippie com música psicodélica e, por fim, um filme de Zé do Caixão. Entre todas as experiências que captam com exatidão l’air du temps, o filme de terror é escolhido pelos voluntários como a mais intensa. Assim, sob suposta influência de LSD, os quatro entregam-se a uma viagem alucinante ao mundo infernal do Zé do Caixão, o único momento colorido do filme, um clima lisérgico e pesadelar, em consonância com algumas das grandes obras contemporâneas do horror internacional, como o japonês Jigoku (1960) e as produções de Mario Bava, diretor italiano conhecido – entre outros aspectos – pelo uso de luzes coloridas de maneira semelhante a que Mojica banha seus delírios caóticos.

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“Suposta” influência porque, ao invés de LSD, o psicólogo administrara nos voluntários doses de água destilada. Ou seja, todo o passeio histriônico pelo inferno tropicalista de Zé do Caixão é senão uma extensão da mente de cada uma daquelas pessoas, bem como um memorando do próprio Mojica sobre a dimensão do seu personagem dentro do imaginário popular, tema que retomaria em Exorcismo negro (1974) e Delírios de um anormal (1978). Realizado em plena ditadura militar, Ritual dos sádicos, o filme mais poderoso feito por José Mojica Marins, jamais foi lançado em circuito comercial, sendo exibido em alguns festivais a partir da década de 1980 com o título O despertar da besta. Ultrajante e provocador, como conclui Carlos Reichenbach em sua crítica ao filme, “é uma daquelas coisas que aparecem na vida da gente uma só vez!”.