Pílulas Sobre Naomi Kawase e a EICTV

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Joana Oliveira

Resgate

Há muito tempo queria voltar à escola de cinema onde estudei por dois anos em Cuba. Tinha tido algumas oportunidades de visitar ou trabalhar ali, mas elas nunca se concretizaram. Fazia doze anos que não retornava à ilha quando fiquei sabendo da seleção para o workshop que a diretora japonesa Naomi Kawase daria dentro da maestría “Cine-Ensayo”. Algo clicou dentro de mim. Percebi que durante a minha especialização em direção de ficção tive aulas com diretores homens, somente. Algumas poucas mulheres me deram aulas, mas não de direção de ficção. Eu era a única aluna nessa especialidade naquele ano e me sentia muito sozinha. Há momentos em que um resgate do passado surge como uma reconciliação. Eu resolvi que merecia reviver o meu. Com uma passagem de avião divida em 10 prestações, uma bolsa ganha para pagar o curso e uma câmera emprestada de um amigo, passei doze dias na Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de Los Baños.

Expectativa

É importante mencionar que a EICTV é um internato rural afastada das cidades. Em volta há plantações e algumas casas de camponeses. San Antonio de Los Baños, a pequena cidade mais próxima, fica há seis quilômetros e a internet da escola não é boa, como a maioria dos lugares em Cuba. Digo isso porque, afastados de tudo, há muito tempo livre e o tédio ajuda na proliferação de histórias e confabulações. Foi assim quando eu morei lá e em 2016 não foi diferente. Cheguei na escola alguns dias antes do workshop começar, afinal eu tinha pessoas para rever e lugares para revisitar. Fui conhecendo os estudantes de várias nacionalidades e logo comecei a ouvir os boatos da chegada da diretora japonesa. O último grande nome que tinha passado pela escola nesse ano era o de Abbas Kiarostami, que também deu um workshop para a maestría “Cine-Ensayo” e havia falecido fazia poucos dias. As pessoas já imaginavam como seria a passagem de Naomi Kawase e a comparavam com a estadia de Kiarostami. Ouvi de trabalhadores e alunos que ela traria muitas pessoas para acompanhá-la, “un secto” diziam. Falaram também que ela havia pedido três apartamentos, um cozinheiro próprio e dois tradutores. Antes mesmo dela chegar, já havia opiniões pró e contra seus pedidos para a escola. Uns achavam um exagero, afinal Abbas não tinha feito nenhum pedido especial. Outros achavam que era a excentricidade japonesa. E houve até um boato que ela era parente de Akira Kurosawa, talvez até filha. Mas ninguém sabia o que era de fato verdade e o que era mentira. De toda forma, a movimentação para receber alguém importante estava no ar e era divertida.

Basquete

Nas primeiras horas com o grupo, Kawase nos falou de seu passado como jogadora de basquete. A única coisa pela qual ela se interessava até seus 18 anos era jogar. Contou que fazia parte do time da sua cidade natal, Nara, e que já tinha planos para tornar-se uma jogadora profissional. Até que um dia tudo mudou. Ela estava em um jogo importante, uma final, e o seu time estava perdendo. Faltavam três minutos para o jogo acabar e ela olhava para o relógio que contava o tempo. Então, começou a chorar. Seu treinador gritava para que não chorasse por estar perdendo. Mas Naomi não chorava por isso. Ela entendeu, naquele momento, que o tempo passa e desaparece, sem volta atrás. Parece óbvio, mas ali aquilo lhe pareceu totalmente entristecedor. Kawase decidiu então abandonar a possível carreira como jogadora de basquete e procurar alguma profissão em que pudesse guardar o tempo. Ela queria possuir o tempo, por isso entrou para a escola de cinema.

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O mundo

Para Kawase o mundo existe porque ela o vê, ela o sente. A sua perspectiva é sempre pessoal. Ela filma o que é interessante para ela, o que a faz sentir-se projetada na tela.No primeiro dia de aula, Naomi nos mostrou Watashiwatsuyokukyômi o motta mono o ôkikufix de kiritoru (Eu foco aquilo que me interessa, Japão, 1988, 8mm, 5min). Esse é o seu primeiro filme, quefez com uma câmera de 8 mm. Ao mostrara imagem das tulipas que há nesse curta, ela diz não ver flores. Vê a si mesma aos 18 anos usando a câmera pela primeira vez. Naomi nos contou um pouco de sua vida; ela foi criada por um casal mais velho, pois seus pais a abandonaram. Eles tinham idade para ser seus avós. Naomi se sentia diferente de seus amigos e amigas de escola e da cidade. Ela não entendia porque tinha nascido se era para ser abandonada. A vida lhe parecia distante. Mas quando começou a filmar sentiu que as imagens a conectavam ao mundo. Ela faz filmes para sentir que está viva, não há o que filme que não esteja relacionado intimamente com a sua história. Ela falou novamente de sua vontade de reter o tempo: guardar o passado, sentir que existiu e que está viva, que continua existindo. Foi assim em seus primeiros filmes documentais, como os mais famosos Nitsutsumarete (Em seus braços, Japão, 1992, 8mm), onde filma a busca por seu pai, ou em Katatsumori (Caracol, Japão, 1994, 8mm) onde mostra e toca sua “avó”, a mulher que a criou. E é assim até hoje, mesmo em ficções como Mogari no Mori (Floresta dos lamentos, Japão/França, 2007, 35 mm) onde fala do processo de Alzheimer baseada no que estava vivendo com sua “avó” ou em Futatsume no mado (O segredo das águas, Japão/Espanha/França, 2014) que também fala de uma menina que está perdendo sua mãe, no caso baseada na perda de sua “avó” que também tinha uma ligação com o xamanismo. Os filmes existem para que tenhamos consciência de nossa própria existência e também da finitude dela. Minha sensação é que Naomi Kawase filma para poder continuar vivendo.

As aulas

Muitos professores que me deram aulas na EICTV não falavam espanhol, então eu estava já acostumada com uma tradução consecutiva. Entretanto,  Kawase não se sentiu segura com o tradutor de japonês-espanhol que havia sido disponibilizado pela escola porque ele não conhecia os termos técnicos de cinema. Começamos então a viver uma situação inusitada: tudo o que Naomi falava passava por um japonês que traduzia para inglês e logo uma tradutora cubana passava do inglês para espanhol. Como eu entendo inglês, ficava ouvindo duas vezes as traduções e me pegava pensando em formas de decifrar o que a professora realmente queria dizer entre as línguas. Percebia que Naomi acompanhava as palavras em inglês sendo traduzidas para o espanhol e olhava para os rostos dos alunos tentando entender se o que ela estava explicando entrava em nossas cabeças de forma segura. Uma assistente sempre acompanhava Naomi. Era ela quem passava os filmes e fazia as anotações necessárias. Um dia pedi para ver seu caderno – com um pouco de dificuldade, pois ela não falava muito bem inglês. Havia pequenos desenhos dos alunos e alunas ao lado das descrições em letras do alfabeto japonês. Aquilo me pareceu de uma simpatia enorme, as letras como desenhos e nossas carinhas ali, meio mangá. No segundo dia de aula, Kawase nos pediu que fizéssemos um exercício. Teríamos que encontrar um tema, filmar e editar em poucos dias. Tudo sozinhos. Iríamos passear pelos arredores e vilas próximas da escola procurando personagens e temas. Ela iria acompanhar o processo criativo e logo criticar os trabalhos. Aquilo nos soou um pouco inusitado… Não o fato de termos que filmar algo, mas que ela esperava que os trabalhos se relacionassem com os alunos de forma íntima. Havia gente que nunca tinha ido à Cuba, que tinha chegado fazia 3 dias na escola e que teria outros 3 dias para entregar o exercício pronto. Parecia um pouco exagerado o pedido de um filme com um tema que nos refletisse em tão pouco tempo e em um lugar desconhecido para a maioria. Mas, no mundo de Naomi, essa dificuldade não existe. Para ela não é possível filmar à toa. Tudo o que decidirmos filmar estará relacionado conosco pelo simples fato de não haver outra possibilidade. Se gravamos algo é porque temos que estar completamente conectados com aquilo. Parece estranho, mas é o que ela acredita. E nas apresentações dos trabalhos, Kawase soube avaliar exatamente quem havia feito algo que dialogava com sua própria alma e quem não. Um pouco assustador, um pouco xamânico.

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Plantar

Em uma aula eu lhe perguntei qual era sua relação com a natureza. Por causa de uma má tradução e de intervenções de outros alunos, ela começou a explicar o significado das paisagens, da mata e do mar em alguns de seus filmes. Eu retifiquei a pergunta em inglês. Queria saber se ela se relacionava com a natureza e de que forma. Naomi disse que planta desde sempre, ela come o que cultiva. Disse que só quem tem uma relação com a jardinagem ou a agricultura sabe que não adianta tentar acelerar o tempo. Você tem que esperar até que a flor se abra, até que a semente brote, até que a fruta esteja madura. Kawase, em um tom sério, contou que já aprendeu mais com a natureza sobre a vida e seu ciclo do que com o homem. Ela se diz ignorante em relação a muitas coisas, é do interior do Japão e isso faz com que não conheça muito do mundo e de outras culturas. Ela tenta respeitar o que é novo, mas tem medo do mundo moderno, do abandono de tradições e, sobretudo, da distância entre o homem e a natureza. Ela se sente bem em Nara, em sua casa, com suas plantas.

Despedida

Depois das apresentações dos nossos pequenos filmes, nos reunimos no “Ranchón”, um restaurante aberto em frente ao gramado da escola. Naomi estava jantando e tentava conversar com os alunos em um inglês muito tímido. Apesar de ser introspectiva, da dificuldade que tinha com o idioma e de ser bem séria e exigente com os nossos trabalhos, Naomi conseguia também ser bem cuidadosa e atenciosa conosco. Tentava ser simpática e me perguntou algumas vezes, pelos corredores da escola, como estava o andamento do meu trabalho. Nessa última noite, ela conversava com os alunos com uma proximidade que até então não tinha sido possível. De repente, um grito. Naomi se assustou muito e deu uns passos para trás. Todos olhamos. Uma perereca havia saltado no copo de suco de manga do seu filho. Metade do corpo verde do anfíbio estava submersa no líquido amarelo e a outra para fora. Com as patinhas, ela se segurava na borda do copo e olhava para todos desconfiada. Foi então que eu vi Kawase tirar a câmera do celular para fazer sua primeira foto. A perereca no copo. E logo, risonha, a diretora saiu tirando fotos com todos nós.

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