Dois Caras Legais (2016), de Shane Black

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O Bom, o Mau e o Tolo

Daniel Rodriguez

Dois Caras Legais (2016) é o novo longa-metragem dirigido e parcialmente roteirizado por Shane Black, figura consideravelmente desconhecida pelo grande público, apesar do envolvimento direto em filmes bem populares. Ele é, por exemplo, o criador da série Máquina Mortífera, tendo roteirizado todas as quatro partes da franquia. Composta basicamente por “filmes pipoca”, sua trajetória enquanto roteirista é marcada por uma atenção especial à dinâmica entre personagens, costumeiramente carregada de rispidez e sarcasmo. Seus protagonistas são, geralmente, um anti-herói e um tolo, forçados a se unir a fim de resolver diversas pelejas, de forma a cair nas graças do público mais descompromissado. Além de em Máquina Mortífera, esse estilo se faz presente, em maior ou menor grau, em quase todos os outros trabalhos do roteirista, que incluem também O Último Boy Scout (1991) e O Último Grande Herói (1993), dentre outros. É ainda perceptível a forma com que ele frequentemente trabalha com “heróis” de sua época: Mel Gibson, Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger e, mais atualmente, Robert Downey Jr.

Após quase vinte anos roteirizando para cinema, Black finalmente assumiu a cadeira de direção pela primeira vez com o neo-noir satírico Beijos e Tiros (2005), que obteve certo respaldo crítico e até um status cult, mas não atingiu o esperado retorno do público. Um hiato de 8 anos se estendeu, no qual Black praticamente não trabalhou na indústria, até que, em 2013, ele voltou a trabalhar com o astro Robert Downey Jr. quando assumiu o comando do terceiro filme da franquia Homem de Ferro. Neste último trabalho, Black introduziu seus temas recorrentes dentro de forma mais característica do cinema blockbuster. A submissão ao grandioso projeto da Marvel resultou em um filme confuso e que, ao contrário de Beijos e Tiros, desagradou a crítica, mas alcançou um sucesso estrondoso de público, tornando-se a décima maior bilheteria da história. Impulsionado pela confiança e prestígio obtidos com o sucesso estrondoso de Homem de Ferro 3, Black conseguiu realizar Dois Caras Legais, filme que mistura com harmonia sua pegada sempre perpassada por humor ácido e pouco convencional, e violência exagerada, porém utilizando uma estética bem atual, de fácil aceitação e personagens deveras carismáticos.

Logo no início de Dois Caras Legais, após um bizarro prólogo no qual uma atriz pornô é vítima de um acidente fatal, a dupla de protagonistas se apresenta por meio de narrações, nas quais eles próprios já se colocam como parcialmente incapazes de realizar o que lhes é demandado. Shane Black rapidamente introduz ao público a dupla de anti-heróis tão recorrente em sua obra. O primeiro é o brutamontes Jackson Healey, interpretado por Russell Crowe e o outro é o enrolado Holland March, em brilhante atuação de Ryan Gosling. Ambos são detetives particulares, atuando de formas distintas, porém igualmente ineficientes. De um lado,Holland investiga a misteriosa aparição de uma jovem até então considerada morta, enquanto, do outro, Jackson busca impedir que tal investigação avance. O confronto dos dois personagens resulta em uma terceira frente, com desdobramentos atrelados a uma grande conspiração.

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Se fosse possível isolar o núcleo da trama, sem dúvidas obteríamos uma partícula de filme noir. Jackson e Holland ocupam a posição de investigadores cínicos e de moral questionável, enquanto a femme fatale Amelia os arrasta para o epicentro de uma conspiração envolvendo assassinato, sequestro e morte, com a violência cumprindo um papel chave no desenrolar da ação. Bem, Amelia não é exatamente o que se espera de uma femme fatale, considerando que estas são notórias pela capacidade de manipulação, e a violência, por muitas vezes, está diretamente atrelada ao lado cômico do filme –de forma que as referências noir que atravessam Dois Caras Legais encontram-se sempre algo diluídas entre típicos “shaneblackismos”.

Embora a violência presente seja exagerada e se relacione com o tom de humor negro satírico do filme, em momento algum se pode dizer que seja gratuita, pois, assim como no próprio noir, existe como facilitadora para o desenvolvimento do enredo e dos personagens, que nunca passam intocados pelo confronto com a selvageria com que se deparam. Há sempre uma reação acovardada ou amedrontada, principalmente por parte do personagem de Ryan Gosling, que quebra com o paradigma super-heróico dos blockbuster se resulta na comicidade do longa. O humor, um dos elementos mais bem estabelecidos aqui, se dá tanto através dessa quebra de expectativas como da relação entre os personagens e sua situação corrente. Muito da comicidade é suscitada de forma puramente visual:a utilização de elementos presentes dentro e fora de quadro compõe planos igualmente bem elaborados e divertidos, que buscam prender a atenção do espectador durante toda sua extensão. Reside aí um dos maiores méritos de Black enquanto diretor.

Ryan Gosling, que já havia exposto seu lado cômico em filmes como A Garota Ideal(2007) e Amor a Toda Prova (2011), é igualmente responsável pela eficácia do filme em fazer rir. O ator interpreta o texto de Black com naturalidade, criando um personagem incapaz e irresponsável, e um marco em sua própria carreira. Russel Crowe está do lado menos inspirado e original da dupla, com seu brutamontes standard, mas complementa de muitas maneiras o personagem de Gosling. A relação entre os dois é típica dos roteiros de Black, conflituosa do começo ao fim, cheias de rispidez e diálogos marcados por digressões em relação à trama, com a dupla engajada em discussões sem nenhum sentido mais amplo ou sequer relevante. É importante ressaltar uma terceira figura, Holly March, que existe como articuladora dessa relação entre seu pai Holland e seu amigo Jackson. Além das duplas de heróis questionáveis, é também recorrente na obra do autor a presença de crianças como um contraponto humanizador na jornada de seus personagens. Holly não apenas cumpre esse papel, mas o faz quebrando todo e qualquer tipo de expectativa que se possa ter em relação a uma criança de doze anos e, mais especificamente, uma menina, quando, por exemplo, dirige o carro para o próprio pai, tenta contratar os serviços de Jackson para agredir uma colega de escola ou ainda quando assiste filmes pornográficos juntamente da atriz protagonista, com grande naturalidade.

Se o filme parece ter pouco apreço pelas convenções e seus personagens vivem num limiar ético, estas características casam perfeitamente com a ambientação nos anos 70, época marcada pelos filmes exploitation, a cultura dos filmes pornográficos e uma Hollywood cada vez mais em conflito com a moral e os bons costumes. A atenção dada para a recriação do período é louvável, passando pelo trabalho da direção de arte que dá conta das extravagâncias do mundo pornô, até a tipografia dos títulos que reproduz com exatidão os títulos de filmes dá época.

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Um outro artifício utilizado para tornar a ambientação mais plausível e de fácil identificação é o uso recorrente de citações visuais e auditivas em forma de televisão, manchetes e músicas correspondentes às daquela época, recurso que acaba se tornando um pouco repetitivo no decorrer do filme e que, por vezes, não tem função ou encaixe, se resumindo a um artifício plástico e esquemático, meros acenos em direção ao público para que possa notar as referências. Em Boogie Nights (1997), por exemplo, Paul Thomas Anderson usou desse mesmo recurso, contudo,buscou inseri-lo dentro do contexto e universo específicos de sua obra de forma bastante sutil, obtendo assim um resultado muito mais homogêneo. O filme de PTA guarda outras semelhanças visuais e temáticas com Dois Caras Legais, já que ambos buscaram reproduzir os anos setenta e o mundo da pornografia, especialmente em termos de figurino, cenários e cores. Ambos possuem uma estética própria, característica da mise-en-scène de seus criadores (notadamente mais bem elaborada e complexa no filme de PTA), mas há ainda um outro fator que assegura a Boogie Nights uma atmosfera análoga à da estética do período com que dialoga, que é ter sido rodado em filme, assim como era nos anos setenta, enquanto que Dois Caras Legais foi rodado em digital, o que não chega a ser um demérito, mas uma diferença curiosa.

Apesar de deixar a desejar nessa utilização dos artifícios que remetem aos anos setenta,a balança ainda pende a favor do filme. Dois Caras Legais funciona muito bem enquanto neo-noir, mas é na comédia que mais se destaca, combinando diálogos cheios de digressões, bem característicos de Black, performances marcantes, especialmente de Ryan Gosling, e um humor visual em que a quebra de expectativas se faz presente o tempo inteiro.