Certo Agora, Errado Antes (2015), de Hong Sang-Soo

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Elogio ao espontâneo

João Campos

I

Em seu 18º filme, Hong Sang-soo explora novamente a dimensão dos encontros fortuitos. Recorrente em suas obras, essa dimensão é explorada de maneira brilhante em Certo Agora, Errado Antes (2015). Com efeito, o diretor sul-coreano nos apresenta aqui um belíssimo exercício de mise-en-scène, em que dois blocos narrativos se justapõem de maneira tensionada. Nesse texto, busco explorar essas tensões estéticas, analisando alguns aspectos formais presentes no filme com o objetivo de demonstrar como a moralidade se infiltra em sua própria forma, proporcionando um interessante deslocamento narrativo. Considero este deslocamento o principal processo do filme, fonte – ao menos parcial – de sua beleza e sedução.

Apesar de explorar encontros fortuitos, Hong Sang-soo não deixa nada ao acaso. Uma espécie de obsessão pelas escolhas da vida e suas consequências atravessa a filmografia do cineasta. Em sua vasta obra, somos levados a buscar – e encontrar! – a beleza dos pequenos gestos, das conversas gratuitas, dos mal-entendidos e, não poderia deixar de citar, dos tragos bem-vindos – sem dúvida, um elemento importante no cinema de Hong Sang-soo é a bebedeira, o Soju surge nas obras dele como um elixir dos deuses, bebido constante e excessivamente por suas personagens. “O álcool está uma delícia!”, “Saúde!”, “Um brinde!”.

Outra característica estética interessante e recorrente nos filmes de Hong Sang-soo é a construção de uma mise-en-scène bastante marcada em ambientes fixos. O encontro entre duas ou mais pessoas em lugares como restaurantes, cafés, bares, casas e palácios marca sua obra, desvelando os prazeres de estar e fazer junto. Novamente, a dimensão do encontro é evocada. Em Certo Agora, Errado Antes, as escolhas das personagens têm importantes conseqüências de mise-en-scène, o que produz sutis – porém significativas – transformações, tanto no desenrolar dos acontecimentos como nas imagens que nos envolvem e afetam. Com efeito, uma característica central do cinema de Hong Sang-soo é a sutiliza com que trata as imagens. Percebemos a importância disso quando analisamos o uso ostensivo de zooms, principalmente aqueles pequenos e tímidos, espécie de marca autoral do cineasta. Tais procedimentos fazem com que o espectador pareça um estranho curioso buscando escutar e enxergar melhor o que está acontecendo logo ao lado. Com efeito, seus tímidos zooms parecem elevar a situação, enlaçar o quadro, formando a expectativa de que algo importante acontecerá. Nem sempre isso acontece, mas uma coisa é certa: o uso do zoom imputa importância a todo e qualquer acontecimento. Frustrando expectativas, Hong Sang-soo nos mostra a beleza do banal.

Como comentei acima, a obra é dividida em duas partes, intituladas, curiosa e respectivamente, “Right Then, Wrong Now” e “Right Now, Wrong Then”. Esse detalhe, como veremos, é de suma importância para a análise que proponho.

II

Ao chegar com um dia de antecedência para a projeção de seu novo filme, o famoso diretor Ham Chumsu observa uma bela mulher entrando num palácio. Entediado, o diretor entra no local e se senta no chão, próximo às colunas da construção. Nesse momento se dá o encontro entre Ham Chumsu e a artista plástica Yoon Hee-jung, exatamente a mulher que outrora encantou seus olhos. A tímida conversa entre os dois se desdobra em diversas situações, nas quais as personagens vão se conhecendo e se apaixonando. Nesse ponto podemos destacar dois elementos recorrentes na obra de Hong Sang-soo: os trânsitos (chegada, partida etc.) e os afetos flutuantes. Bastante explorados pelo autor, esses temas contribuem para a ambientação do filme, caracterizada pelo passageiro e, não obstante, definitivo. Ham Chumsu e Yoon Hee-jung desenvolvem afetos que, possivelmente, marcarão suas vidas para sempre.

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As duas partes que estruturam o filme são quase idênticas, de modo que ocorrem pequenas mudanças na passagem de uma à outra, como o posicionamento da câmera em algumas cenas, pequenas variações de fotografia, roteiro, cores (a cor da tinta que Yoon Heejung utiliza em sua pintura, por exemplo, se modifica), inclusão de cenas que não encontramos na primeira parte e outras sutis modificações. A mais importante, de acordo com o meu argumento, seria a transição – da primeira para a segunda parte do filme – de um personagem que se volta para si, cujas interações são marcadas por uma espécie de planejamento, culminando na mentira, para um homem cuja sensibilidade se volta para as relações em seu entorno, um personagem espontâneo e sincero, que encara seus sentimentos e impulsos com honestidade. Essa variação produz, de acordo com a perspectiva adotada nesse texto, importantes deslocamentos de mise-en-scène e narrativa.

Na primeira parte, Ham Chumsu possui um ar maquiavélico, sempre pensando com seus botões sobre as situações em que se enreda com a nova amiga. Desse modo, ele assume uma personalidade reflexiva, calculista e mentirosa – no sentido de que ele mentia consideravelmente –, a partir da qual sua voz se volta para sua intimidade. Nessa parte, podemos destacar a presença de um importante dispositivo narrativo: o fluxo de consciência. Com efeito, o primeiro bloco do filme é marcado pela voz de Ham Chumsu em off, através da qual ele reflete sobre o que deve e não deve fazer, assim como sobre suas impressões. Isso nos leva a crer que ele esconde algo e, principalmente, acabamos por suspeitar que ele não possa se envolver com a jovem Yoon Hee-jung. Suas mentiras vão por água abaixo quando uma das amigas de Yoon Hee-jung, fã do diretor, releva que este é casado e que seu elogio às pinturas de Yoon Hee-jung são mera cópia de um discurso opaco e constantemente repetido pelo diretor em diversas ocasiões. O título da primeira parte é “Right Then, Wrong Now” e, de fato, a relação de afeto que estava se estabelecendo entre as personagens enfrenta um final de ruptura e conflito, devido às mentiras de Ham Chumsu. Não obstante, o “Right Then” do título dá a sensação de que as coisas podem dar certo em outro momento. Assim, tudo começa de novo[1].

A segunda metade da obra, “Right Now, Wrong Then”, indica uma mudança nos acontecimentos, abrindo possibilidades para novos caminhos. Tudo se repete, exceto a disposição do personagem Ham Chumsu. Nesse bloco narrativo, sua voz em off desaparece, o que indica uma mudança de personalidade. Agora, a voz do personagem enlaça as experiências, se dirige para o exterior, para o mundo que o afeta.

No cinema, tudo é possível, inclusive inventar tudo de novo, e é isso que a segunda parte nos demonstra. Ham Chumsu encara as situações com honestidade e sinceridade, se deixando levar pelos acontecimentos de maneira espontânea. Se na primeira parte o personagem esconde seu matrimônio e, no bar, não assume estar bêbado, aqui ele afirma de cara ser casado e declara honestamente sua embriaguez. Nessa versão da história, as coisas vão bem. Apesar da partida iminente de Ham Chumsu, este e Yoon Hee-jung compartilharam momentos inesquecíveis. Os afetos flutuantes acompanharão os dois em suas memórias.

III

O que podemos dizer sobre a tensão – ou seria melhor transição? – que emerge entre as duas partes do filme?

Considero que a moralidade, sob a égide da sinceridade, espontaneidade e honestidade, se infiltra como elemento estético cabal na estruturação de uma transição do “Right Then, Wrong Now” para o “Right Now, Wrong Then”. Esse detalhe provoca o mais importante deslocamento narrativo da obra, produzindo uma nova – ainda que semelhante – mise-en-scène, na qual o amor entre as personagens é possível, ainda que em memória. Quando Ham Chumsu passa a se entregar “de corpo e alma” às experiências sensíveis que vivencia, adotando uma postura espontânea frente à vida, surgem novas possibilidade estéticas, conduzindo o filme a um desfecho – ainda que aberto – apaixonante – para as personagens e também para nós, que observamos esse laboratório de sentimentos contraditórios.

Dito isto, podemos dizer que Hong Sang-soo faz uma espécie de elogio ao espontâneo. Um elogio que parte da mise-en-scène, de modo que é nela que devemos buscá-lo. Num mundo em que dificilmente podemos nos jogar entre os acontecimentos, sentir as coisas na pele, enfim, viver a vida, esse filme surge como um momento de reflexão e sedução. A segunda parte da obra nos mostra um caminho que nos toca, nos envolve e, sobretudo, nos ensina.

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O filme termina com uma cena conhecida de todo cinéfilo, o que pode ser interpretado como uma homenagem ao cinema e seu nobre papel na educação sentimental das pessoas. Yoon Hee-jung, após a sessão do filme de Ham Chumsu, sai da sala de projeção com uma expressão de renovação e alegria, o que nos lembra dos grandes momentos que o cinema nos proporcionou, nos proporciona e que – amém! – ainda nos proporcionará.

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[1] A repetição é um processo exaustivamente utilizado por Hong Sang-soo em seus filmes, dando a sensação de que tudo está acontecendo – novamente – pela primeira vez. Isso poderia ser interpretado também como uma segunda chance para as personagens e espectadores. Hong Sang-soo utiliza esse processo de maneira belíssima em “The day he arrives”, embaralhando e repetindo situações com pequenas variações, sequenciando diversas “primeiras vezes”.