As Montanhas se Separam (2015), de Jia Zhang Ke

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As Colinas Podem Abalar-se

Joana Oliveira

É muito difícil escrever sobre um filme que me toca profundamente em lugares diferentes e pessoais. As Montanhas se Separam (2015), de Jia Zhang Ke, foi o filme que eu mais gostei de assistir na primeira vez em que estive presente no Festival de Cinema de Cannes, em 2015. Dito isso, espero que meu olhar apaixonado não atrapalhe a leitura. Mas, porque só agora, passado mais de um ano, eu escrevo sobre o filme? Bom, primeiro porque até aquele momento não havia sido convidada para escrever na revista Rocinante (ela nem existia). Segundo porque eu não seria capaz. Não sei nem mesmo se sou capaz agora.

Depois de ver o filme em sua estreia mundial, procurei entrevistas com o diretor para entender porque eu havia gostado tanto. É talvez meio bobo tentar entender isso, tem muita subjetividade envolvida nessa explicação. Entretanto, precisava de uma razão, até porque eu tinha visto dois outros filmes muito impactantes: A Assassina (2015) de Hou Hsiao-Hsien e Cemitério do Esplendor (2015) de Apichatpong Weerasethakul, no mesmo festival. Porque me derreti em lágrimas no final de As Montanhas se Separam, mais além de o filme ser um melodrama? Ou de ter sequências lindamente filmadas?

O filme é um longa-metragem de ficção e gira em torno da jovem Tao que trabalha como vendedora de eletrônicos na loja de seu pai. A história começa com a disputa de dois colegas pelo seu amor; Liangzi é funcionário da mina de carvão da cidade, e Jinsheng é um rapaz que está enriquecendo com seu posto de gasolina e seus novos negócios. Os dois frequentam a mesma boate que Tao e dançam animadamente ao som da canção “Go West” na cena inicial do filme. A partir de um triângulo amoroso estabelecido entre tais personagens, o filme se estabelece e se move pelo tempo. Há três episódios delineados, o primeiro data de 1999 – com um pequeno parêntese de tempo para o nascimento de Dollar, filho de Tao e Jinsheng,que não tem um lettering com a data, mas logo entendemos que deve ter acontecido por volta de 2006. Essa primeira parte é toda filmada no aspecto 1:1,33 – uma janela de exibição um pouco mais quadrada – e com uma textura digital própria dos anos 90. As duas outras partes do longa-metragem têm outras janelas, o ano de 2014 é filmado com o aspecto 1:1,85, retangular que estamos mais acostumados a ver no cinema, e o ano de 2025 com 1:2,35, panorâmica. A escolha desses aspectos nasceu da vontade de Zhang Ke de usar seu material pessoal de arquivo dos anos 90 feito em sua cidade natal, Fenyang.

Quando o diretor começou a escrever o filme, queria contar uma história sobre o tempo e sobre as emoções humanas porque, ao ficar mais velho e relembrar sua vida, ele passou a ter um novo entendimento dos relacionamentos que viveu e que vive. Para Jia Zhang Ke, 1999 foi um ano crucial por muitas coisas que aconteceram na China. É quando a internet e os telefones celulares foram introduzidos para a população chinesa e quando as rodovias grandes começaram a ser construídas. E também, esse foi o ano em que ele teve sua primeira câmera DV. Ele sabia que quando tivesse a oportunidade de ter esse “brinquedo”, sairia pelas ruas a filmar material documental para si e foi isso que fez. Ao ver a entrevista online filmada na conferência de imprensa do 53rd New York Film Festival de 2015, onde Jia Zhang Ke conta essas histórias, eu fui automaticamente projetada para Belo Horizonte nos anos de 1999 e 2000, quando os vídeo-artistas da cidade começaram a importar suas primeiras câmeras DVs. Eu era estudante e fazia estágio circulando entre o laboratório de vídeo da PUC-Minas e as produtoras de vídeo. O sonho das alunas e dos alunos das escolas de comunicação da cidade era juntar dinheiro e comprar um mini DV e um computador para ter sua própria produção. Bom, eu entendi a vontade de Zhang Ke de usar aquelas imagens, aquela textura, aquele aspecto em uma volta a um passado que se relaciona com sua história pessoal. Ele queria usar o que registrou; como as pessoas se vestiam, se relacionavam, até mesmo como elas andavam. Para ele, o material mais marcante que está no filme são planos documentais feitos por ele introduzidos na sequência da boate (em que o triângulo amoroso é finalizado) onde as pessoas dançam e se expressam. Para ele, dançar era um momento de catarse. A canção Go West, na versão do Pet Shop Boys, que é usada no início e no final do filme em duas cenas memoráveis, é também parte da memória afetiva do diretor. Nos anos 90, no disco club que frequentava quando dava meia noite, a canção era tocada para anunciar um novo dia e as pessoas se juntavam para fazer uma dança sincronizada.

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Zhang Ke também usou material documental feito por ele em minas de carvão na parte do filme que data de 2014. Essas imagens foram filmadas em 1,85 e por isso o filme muda de aspecto, obedecendo seu material documental também nesse capítulo. A decisão de mudar o aspecto para as imagens do futuro – 2025 – lhe pareceu natural para diferenciar e pontuar os outros episódios do filme. O diretor considera que sua equipe, principalmente a direção de fotografia e arte, teve um grande desafio em conseguir equiparar essas imagens de arquivo com o resto ficcional do filme e criar assim uma unidade.

O porquê de tanta preocupação com essas imagens documentais e com essa tecnologia estar retratada na tela é a essência do filme. As Montanhas se Separam fala primordialmente sobre as relações humanas e sobre como a tecnologia afeta o modo comque as pessoas se relacionam (também o consumismo e a mudança dos valores na sociedade). Em 1999, Tao escolhe namorar seu pretendente rico, Jinsheng. A narrativa não faz um juízo sobre essa escolha, mas fica claro que Liangzi é menos interessante para a moça. Talvez porque ele oculte seus sentimentos e tão pouco lhe conte que sofreu uma chantagem por parte de Jinsheng, preferindo ser demitido a desistir de Tao. Enquanto isso, o candidato da “elite” faz investidas claras e abertas. Ele quer Tao e lhe mostra isso objetivamente. A escolha de Tao não é julgada no primeiro momento, mas a consequência em ter elegido um namorado que é “capitalista” é clara: ele dá valor ao dinheiro e não ao humano. O filho dos dois recebe o nome de Dollar,escolha do pai que a mãe aceita. O menino tem nome da moeda mais valorizada no momento em que nasce. O nome do garoto também aparece em traduções como Daole, mas na cena doe-mail que o pai recebe do filho, dá para confirmar que seu nome é Dollar. Jinsheng é claro: o filho tem que ter nome de dinheiro.

Tao tem um relacionamento estreito com seu pai. Ele respeita suas decisões, são muito próximos. Mas ela não consegue ficar junto de seu filho. No episódio de 2014, Tao vive longe de Dollar, pois no divórcio perdeu a guarda para Jinsheng que mora em Pequim. Liangzi reaparece na cidade, casado e com um filho, mas tem um câncer e parece que não irá sobreviver. E logo o pai de Tao morre. O filme dá seu recado: “Ninguém pode ficar junto de você a vida inteira”. O que devemos fazer é aproveitar os momentos com as pessoas queridas. Dollar é enviado ao funeral do avô. A mãe e o filho de 7 anos se reencontram, mas não se conhecem direito. Tao sente a distância e tenta se aproximar do menino, passando o máximo de tempo possível com ele. Por esse motivo, ela escolhe levar o filho de volta a Pequim usando trens lentos. Jia Zhang Ke, em entrevista no 53rd New York Film Festival fala que no passado não haviam tantas formas de se comunicar, então quando você sentia falta de alguém, você realmente conseguia entender a saudade como um sentimento íntimo. Com a internet, as comunicações, as estradas rápidas, os aviões, você já não consegue entender o sentimento da separação (o que não quer dizer que não o sinta). Antes o tempo e o espaço faziam mais sentido. Agora, com toda a pressa e a pressão de viver tudo imediatamente, o elemento tempo está sendo anulado. A cena do trem lento onde mãe e filho estão sentados ouvindo música é essencialmente sobre passar tempo um com o outro.

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No episódio do futuro de 2025, Tao quase não aparece, mas sua presença (ou a sua falta) move a história. Jinsheng escolheu mudar-se para a Austrália para ascender socialmente (e para fugir de um processo de corrupção), mas não aprendeu o inglês. Ele é rico, entretanto, não consegue comprar esse conhecimento e não consegue se relacionar com o filho. Dollar esqueceu seu idioma materno, agora só fala inglês.  Comunicam-se através do Google Translator. A tecnologia media os dois mundos que não se entendem e o relacionamento fica perdido no meio dessa tradução mal feita. Em um momento, Dollar fala para o pai: “Google translator is your real son” (Google translator é o seu verdadeiro filho). Essa sequência não é uma conjectura de futuro imaginada pelo diretor. Em suas pesquisas para o filme, Zhang Ke conheceu muitos imigrantes chineses em vários países: Estados Unidos, Canadá e Austrália. Ele conheceu um pai que só se relacionava com o filho através do mesmo programa de tradução. É uma inspiração real que ele usou para alertar sobre a distância entre as pessoas.

Uma das coisas que mais me agradam no filme é como Jia Zhang Ke planta desde o roteiro elementos que retornam várias vezes durante os episódios para nos lembrar do passado, de como a tradição em volta das relações é importante. Esses elementos se tornam narrativos. É o bolinho de vapor que Tao prepara. Ela o divide com o amigo Liangzi no primeiro episódio. Junto com o pai conversam sobre a herança do cozinhar, aprendida com sua mãe. Logo em 2014, quando Tao está finalmente se reaproximando de Dollar, ela lhe prepara os bolinhos. A cena de Tao na cozinha fazendo a comida volta no fim do filme, em 2025. Ela está sozinha, mas tem como companhia sua tradição. É também a canção em cantonês que Tao não entende e que conhece em 99 ao lado dos colegas. Jinsheng lhe presenteia com o CD em um ato passional tentando chamar a atenção para si em competição com Liangzi. Em 2014, Tao apresenta a canção para seu filho pequeno. E quando Dollar a ouve novamente em 2025, não consegue reconhecer de onde, mas sente a presença da sua ancestralidade ali. São também as chaves de casa que significam o lar. Liangzi joga seu chaveiro fora quando resolve abandonar a cidade com o coração partido no primeiro episódio. O chaveiro lhe é devolvido por Tao que o guardou por anos até que ele voltasse à cidade em 2014. Um outro chaveiro aparece no filme como um presente de Tao a seu filho que vai se mudar para a Austrália e se torna a única lembrança que Dollar carrega da mãe até 2025. Nesse último episódio, Dollar se apaixona por uma mulher mais velha que lhe recorda a mãe. A presença de Tao fica clara quando ele sente um déjà vu. Ele e a mãe no carro em 2014 é uma cena que se repete, dessa vez em 2025, entre Dollar e a professora chinesa.

É assolador o futuro que Jia Zhang Ke constrói no filme. A cada episódio, sente-se menos a presença do humano em comunidade. No início do filme, em 1999, as ruas estão cheias, as pessoas se relacionam em locais abertos. À medida que o tempo passa, os locais públicos e abertos ficam cada vez mais vazios. As ruas da Austrália em 2025 são vazias, as pessoas estão isoladas. Há carros passando de um lado para o outro, mas não há gente. As pessoas, cada vez mais sozinhas, não conseguem fugir dos sentimentos de abandono, de separação, de falta de conexão com o universo. Um aviso, um grito desesperado e existencialista: Tao. Porque no fim, tudo o que queremos é estar ao lado de quem amamos.

E, para minha surpresa, no antigo testamento encontro a explicação para o título do filme. Isaías,  capítulo 54, versículo 10:

“As montanhas podem mudar de lugar e as colinas podem abalar-se, mais o meu sentimento de benevolência e misericórdia, isto é, meu amor, nunca mudará; a minha Aliança de Paz não será jamais abalada!” Afirma o Senhor aquele que se compadece de ti.