The Babadook (2014), de Jennifer Kent

 

The babadook 1

Entre o real e o fantástico

Ana Cláudia Ulhôa  (com colaboração de Fábio Feldman)

The Babadook (2014) é um filme sobre depressão e luto, temática abordada com maestria pela atriz e diretora estreante Jennifer Kent. Em seu terror psicológico, jump scares e outros clichês e estratégias recorrentes em filmes de terror (sobretudo veiculados a ciclos paranormais) são usados de forma contida. O verdadeiro investimento se dá na construção da relação entre mãe e filho e na composição de climas horríficos de tensão e perigo. Estes tanto remetem, diegeticamente, à presença de uma figura fantasmagórica, responsável por colocar em risco o bem-estar da família, quanto a um subtexto mais sutil, que se vale da assombração enquanto metáfora dos efeitos da perda.

O ponto de partida do filme (explicitado gradualmente em seu decorrer) é a morte de Oskar Vanek (Benjamin Winspear), que não resiste a um acidente de carro, ocorrido enquanto se encontrava a caminho do hospital para o parto de seu filho Samuel (Noah Wiseman). Tal passamento marcará as vidas do garoto (vítima consequente de um quadro psicológico instável de agressividade) e sua mãe, Amelia (Essie Davis) que, abnegadamente, resolve se dedicar de forma quase integral ao filho. Entretanto, sentimentos reprimidos parecem se colocar entre ambos, alimentando um ciclo destrutivo que será intensificado a partir da descoberta do livro infantil The Babadook.

Espécie de versão infernal de uma obra de Roald Dahl, o livrinho é protagonizado por uma figura aterrorizante, que obceca Samuel. Convencido de que o Babadook está vivo e ameaça seu lar, o menino passa a ter crises violentas. Como resultado disso, uma atmosfera ambígua é instituída, tornando impossível ao expectador saber se as aparições do monstro para o menino-problema são realidade ou alucinação. Eventualmente, porém, a mãe passa a também enxergar a criatura – sendo, inclusive, possuída por ela.

The babadook 2

Kent consegue servir-se da fotografia desbotada e monocromática de Radek Ladczuk e alinhá-la com o ritmo progressivo do roteiro a fim de instalar uma sensação de vazio, solidão e melancolia. Em relação à iconografia, composição e condução de suas mise-en-scènes, The Babadook parece manter certo diálogo com a tradição do Expressionismo Alemão, tanto em função do emprego poético e expressivo da iluminação e da caracterização da criatura – que guarda semelhanças, por exemplo, com a do sonâmbulo em Gabinete do Dr. Caligari (1920) –, quanto por se valer de elementos visuais sombrios sem se filiar diretamente a uma tradição gótica, patentemente mitificante. Antes, o mundo de The Babadook é um mundo regido por subjetividades, no qual o elemento demoníaco reflete muito mais o que guardamos dentro de nós. O figurino escuro, com pouquíssimas cores, como se todos os personagens estivessem em um luto eterno, é também um indicativo disso. Percebemos tal recurso, por exemplo, durante a festa de aniversário de Samuel, que pode ser confundida com um velório.

As atuações de Davis e Wiseman também se destacam no interior do processo de consolidação do ambiente fílmico. Ambos conseguem representar brilhantemente as transições entre os estados da depressão: a exaustão, a ansiedade e os ataques de ira. Ao mesmo tempo, encarnam os típicos personagens de um filme de casa-assombrada, protagonizando um movimento constante que, a um só tempo, nos leva a conceber The Babadook como um filme de terror e uma espécie de melodrama.

Sendo mais do que um filme de terror convencional, The Babadook se destaca no panteão contemporâneo de películas do gênero. Ele traz à tona as angústias de uma mãe perturbada, que transfere toda a frustração da morte do marido para o filho pequeno; sua recusa em admitir os problemas que a levaram à incapacidade de lidar com o paradoxo entre real e imaginário; e as perturbações fundas de uma criança privada de um ambiente familiar saudável e equilibrado – todos estes,  temas que poderiam muito bem servir de base para uma película de Mike Leigh. Ao mesmo tempo, o filme se impõe enquanto um legítimo representante de seu gênero, ainda que se recusando a seguir caminhos óbvios,  apostando na manutenção de atmosferas densas e ameaçadoras – e, em certa medida, se filiando, também, a uma tradição tourneuriana, que privilegia o potencial da sugestão, subtraindo pathos da ausência.

maxresdefault

Responsável por proporcionar momentos verdadeiramente perturbadores, The Babadook é um clássico filme de monstro, um terror psicológico dos mais complexos, um conjunto de reinvenções de ícones e topoi legados por diversos ciclos e correntes fílmicas associadas ao horror – e, sob tudo isso, uma comovente estória familiar, um drama sobre perda e superação, posicionando-se sempre entre o concreto e a alegórico, o real e o fantástico, a sombra e a transcendência.