O Abraço da Serpente (2015), de Ciro Guerra

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As memórias perdidas da Amazônia

Veriana Ribeiro

O escritor George Orwell disse certa vez que “A história é escrita pelos vencedores”. A icônica frase poderia resumir a forma como a cultura indígena é vista, principalmente na América Latina, onde esses povos ainda tentam manter suas tradições. Talvez seja esse o maior trunfo do filme colombiano O Abraço da Serpente (2015), de Ciro Guerra, que concorreu ao Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro em 2016: tentar contar a história daqueles que perderam.

Apesar do roteiro ser baseado nos diários de viagem do etnobotânico Richard Evans Schultes e do etnólogo Theodor Koch-Grünberg, não são eles os protagonistas do longa-metragem. A história mostrado na tela é de Karamakate, um poderoso xamã que, em momentos diferentes de sua vida, segue viagem com os pesquisadores em busca da planta sagrada Yakruna. A obra também retrata as diversas comunidades tradicionais que vivem na Amazônia Ocidental.

O passado e o presente de Karamakate são mostrados paralelamente no filme. O espectador vai aos poucos desvendando as memórias perdidas do xamã, uma clara alusão à perda da identidade indígena. A cada parada que o barco faz, uma história de violência é contada e nos faz ter a noção da dívida histórica que temos com esses povos. Somos apresentando às várias formas que eles foram massacrados na Amazônia, seja através do ciclo da borracha, do uso das religiões cristãs ou do alcoolismo – uma cena mais chocante que a outra.

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No filme, o rio acaba sendo um condutor de narrativa, ao mesmo tempo em que a floresta se transforma em personagem. Somos apresentados a uma Amazônia diferente da que é vista em  grande parte das produções cinematográficas – e muito mais próxima da realidade. O que é uma ironia, tendo em vista a fotografia em preto e branco da película, fazendo com que haja pouca diferença entre os personagens e a floresta. A sensação é que tudo se mistura. Por exemplo, em uma cena alguém observa o barco dos protagonistas por entre as plantas, quase é impossível identificar onde termina o homem e começa a vegetação. No filme, não temos uma floresta vazia, é um lugar habitado, cheio de vida, por plantas, animais e inúmeros povos. A língua é mais um fator que comprova a pluralidade na Amazônia. Português, espanhol, alemão e idiomas indígenas se misturam na produção, evidenciando os diferentes mundos que habitam o  mesmo espaço.

É o embate entre mundos o conflito principal do filme. Logo na primeira cena somos apresentados a situação, quando Karamakate percebe a presença do barco de Theodor e Manduca. No entanto, não se trata apenas do mundo tradicional vivido pelo xamã versus o mundo civilizado representado pelo pesquisador. O fiel companheiro Manduca representa toda a área cinza que existe entre essas duas extremidades. Acusado por Karamakate de ser um escravo do pesquisador, o coadjuvante mostra que lidar com esse novo e inóspito mundo que lhe coloniza não é um trabalho   simples, mas necessário. “Eu preciso dele. Ele pode ensinar os brancos. Ele é um herói para seu povo e todos o admiram e lhe escutam. Se os brancos não aprenderem será o nosso fim”, fala o personagem para o xamã, como que prevendo o futuro. Manduca é um poço de contradições: ao mesmo tempo em que é fiel ao pesquisador, carrega em suas costas as marcas deixadas pelos colonizadores devido à exploração da borracha.

Apesar de colombiano, o filme conta uma história presente na formação do povo brasileiro. Também tivemos a exploração da borracha massacrando povos na Amazônia e nordestinos seringueiros, fizemos a catequização indígena, tiramos a cultura desses povos e os deixamos assolados com o alcoolismo. Somos nós os algozes desses personagens. Não é à toa que, em um dos momentos mais viscerais do filme, quando Karamakate e Evans encontram uma comunidade religiosa em que fiéis indígenas cometem suicídios e assassinatos em nome de um messias, somos surpreendidos com fato desse ‘salvador’ falar Português.

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Mas se a religião pode ser usada como arma para o massacre, também pode ser a salvação dos personagens. Em vez do cristianismo, somos apresentados à religiosidade da floresta. Das plantas medicinais, das dietas espirituais, dos sonhos, dos animais. A sabedoria da serpente que fecha o filme com uma sequência que muitos poderiam chamar de kubrickiana, mas que, na verdade, antecede o cinema. Vem das mirações da ayahuasca, dos conhecimentos antigos, das visões espirituais.

E assim como os personagens nessa expedição são obrigados a olhar para si mesmos,  nós, como espectadores, precisamos nos reconectarmos com nossos antepassados. Seja através da música clássica ecoando pelo fonógrafo do pesquisador ou através das memória de Karamakate, que também são nossas – lembranças que nós esquecemos – assim como ele. Conhecer o passado é a única forma de não nos transformarmos em chullachaquis de nós mesmos, ou seja, meras imagens de pessoas, sem memórias, sem sabedoria, sem os conhecimentos da floresta e de nossos ancestrais. As tragédias contadas no filme fazem parte da nossa formação como povo brasileiro. Somos, ao mesmo tempo, os vitoriosos que escreveram a história e os derrotados que tiveram suas lembranças apagadas pelo tempo.