La corrispondenza (2016), de Giuseppe Tornatore

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O melodrama discorde de Tornatore

 Flávio C. von Sperling

O abraço de Ed e Amy, na primeira cena de La corrispondenza (2016), é o único momento em que vemos o casal se tocar. Ele se despede de seu par, algumas décadas mais jovem, e entra em outro quarto do hotel, evidenciando a clandestinidade daquela relação. Ed (Jeremy Irons) vai-se sabendo, embora não revele à sua amada, que vai morrer. Amy (Olga Kurylenko), por outro lado, não sabe que já está morta. A personagem, aluna e amante do proeminente pesquisador astrofísico, está amaldiçoada, embora o tom melodramático do filme pareça querer nos sugerir que temos aqui uma história de amor e perda.

A morte de Ed não implica em sua ausência. Pelo contrário, começa, aí, um jogo doentio de possessão e controle dele sobre Amy. Ed programa mensagens de celular, e-mails e entregas de presentes, CDs com vídeos gravados, fragmentos de si, que perdurarão e atormentarão sua amante. Fazendo alusão, de maneira um tanto simplória, àquela máxima de que o brilho de uma estrela persiste durante milhões de anos após sua morte, Ed faz-se presente na vida de Amy mesmo depois de morto. Um cenário, embora piegas, talvez fértil para um melodrama. Há, no entanto algumas questões que obstruirão a fruição do filme como tal.

Amy fica sabendo do falecimento de seu Ed enquanto troca mensagens com o próprio. Incrédula, ela parte para Edimburgo, onde ele teoricamente estaria. Confirmada sua morte, ela continua a se relacionar com Ed por meio das mensagens pré-programadas que ele deixara. Numa espécie de jogo de caça ao tesouro, ela começa uma busca obediente e incansável (mais para Amy do que para o espectador) pelas pistas e mensagens plantadas por seu par antes de morrer. Em alguns planos – belos, embora talvez demasiado formais -, de uma solitude hopperiana, acompanhamos uma Amy desolada, arrastando sua mala – restos de nada – em busca da próxima mensagem, da próxima surpresa de seu amante.

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Amy, além de almejar seu PhD em astrofísica, trabalha como dublê em filmes de ação. Personagem pouco desenvolvida, bidimensional, passiva, ela parece estar sempre à sombra de seu falecido e insistente par. Parece não ter particularidades ou intenções, servindo como uma espécie de títere neste jogo egoísta de Ed. Este, parece apenas não querer que Amy fuja de seu controle.

As mortes em La corrispondenza não interrompem nada. Nem a de Ed, nem as de Amy enquanto dublê ou quando morre lentamente em alguns planos um tanto clichês (desolada caída ao chão da universidade, chorando no banho). As mortes e as sobrevidas de ambos parecem desenhar um paralelismo entre as personagens, espelhá-las, estabelecê-las como duplos. O duplo e o espelhamento enquanto signos serão usados à exaustão durante o filme: quando Amy tenta contatar o finado Ed pela webcam, mas, na verdade, acaba conversando consigo mesma (interagindo com sua própria imagem na tela do computador); quando Ed ou Amy falam, repetidas vezes, da existência de outros Eds e Amys coexistindo em universos paralelos; ou, de maneira ainda mais óbvia, na atividade de Amy enquanto dublê (o substituto, o equivalente).

Embora ambos sejam, de certa maneira, mortos-vivos, a ideia de Ed e Amy enquanto par, a romantização dessa relação e, especialmente, a de um Ed borderliner, obsessivo, ciumento e possessivo, é um tanto delicada. Aquele que é colocado aparentemente como um parceiro, parece muito mais uma espécie de fantasma a se alimentar da alma de outro.

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Em uma das mensagens do íncubo, já morto (embora Amy ainda não saiba), ele recorda-se do dia em que a viu, quando dava uma aula sobre o conceito do infinito na história da astronomia. Ele diz: “Eu me lembro do momento exato em que meu olhar alcançou tua expressão extasiada. Então eu soube como uma alma perdida se sente quando reconhece aquele em cujo corpo ela deseja reencarnar-se”. Ed, aqui com um subtom talvez um tanto sinistro, parece buscar, na jovem aluna, tal qual um vampiro, uma espécie de imortalidade egoísta. Algo muito longe do tom de melodrama proposto pelo filme.

Em entrevista recente, Tornatore revelou que tinha La corrispondenza em mente durante mais de vinte anos, antes de finalmente realizar o filme. Talvez precisasse de um pouco mais de tempo.